Tagged: western

Pequenas Aventuras de Kid Ben Watts #1

goldfields-western-australia-1451528

Consumindo a energia das vivas almas que caminhavam por aquele deserto, o Sol Escaldante era cruel, intenso e sádico. O jovem viajante e seu cavalo mirrado se arrastavam pela areia a poucos metros de seu destino: o Condado de Goose.

O garoto enterrou a cara na areia, exausto. Seu cavalo, por outro lado, anunciou com alegria que havia visto pequenos prédios se estendendo no horizonte. Bem levantou a cara da areia e, um pouco atônito, correu na direção do bagageiro que estava pendurado no lombo do animal.

– Puxa, você viu o mesmo que eu? Tem uma cidade logo ali.
O cavalo respondeu. Não com palavras, mas respondeu. Bem abriu o bagageiro e começou a revirar as tralhas que havia estocado ali dentro desde que saiu de Buffalo Breath. Uma toalha, algumas roupas, um cantil sem água e, finalmente, sua Magnum calibre 44, com a única bala dentro.

Agarrou a arma e colocou no coldre. Fechou o bagageiro e voltou à caminhada junto de seu cavalo. Kid Ben Watts, como era conhecido, não gostava muito de andar a cavalo; carregava em seu código de conduta de bolso que o animal não tinha obrigação alguma de aguentar seu peso, tampouco de servir de transporte. O cavalo, claro, adorava aquilo e já até ficara mal acostumado com a ideia.

Chegaram no Saloon do Condado de Goose. Era estranho para todos aqueles fora-da-lei ver um garoto entrando ali tanto quanto era para o narrador saber que o primeiro lugar que Kid Bem entrava era sempre o saloon. Entrou com cavalo e tudo, ignorando todos os avisos.

– Uma salsaparilla pra mim e uma dose de uísque pro meu amigo aqui.

Ninguém entendeu nada. O cavalo apenas batia o casco, como se exigisse da moça do balcão que apenas o fizesse e rápido.

Foi nesse meio tempo que um homem forte, de chapéu preto, se levantou de sua mesa, ajeitou suas armas no coldre e caminhou em direção garoto. Parou ao seu lado, meteu a mão em suas costas o agarrando pela camiseta e sem manter contato visual, disse:

– Pela sua arma, presumo que seja o garoto que deixou Johnny Três-Dedos inconsciente em Buffalo Breath. E que fugiu logo depois, correto?!

O garoto balbuciou e engoliu seu drinque em seco. Retrucou com voz trêmula:

– Não senhor. Eu meti uma bala no meio dos seus olhos – era um blefe.

– Você não em engana, garoto. Você só tem uma bala, de uma arma que nem é fabricada mais.

Então, empunhou a arma, engatilhou a bala e apoiou na nuca do menino. Solicitou que se dirigisse até o lado de fora do saloon.

Kid Bem não era valente, nem exímio lutador. Saiu com as pernas mais trêmulas que vara verde. O homem saiu pela porta principal e atirou o menino pela terra.

No reflexo, Kid Bem sabia que deveria blefar de novo. Virou-se, tirando a arma do coldre, engatilhando sua única bala e apontando para o homem.

– Eu vou atirar, seu paspalho, só por essa!

O homem pôs-se a rir. Ria e muito, sabendo que não passava de um blefe. Enfurecido, Kid Bem encostou a mão no gatilho. O som estourou pela rua, enquanto uma bala atravessou a testa daquele homem.

Kid Ben se assustou, porque não havia puxado o gatilho. Olhou para a frente, ajeitou o chapéu e viu o corpo sem vida do cowboy bem à sua frente.

Do outro lado da rua, o dono da loja de armas blasfemava:

– Mas que porcaria de arma. Não sabia que esta merda estava carregada.

Assoprou a fumaça que saia do cano e pôs-se para dentro. O menino, sem saber de nada, também.

Advertisements

As Aventuras de Kid Ben Watts, o Vagabundo – Vol. 1

Um chapéu de couro velho, uma Magnum .44 roubada sem balas, um par de botas furadas e um lenço vermelho no pescoço, Kid Ben Watts é o único vagabundo em todo o condado de Buffalo Breath que consegue mascar um pedaço de capim enquanto dorme no celeiro dos McCoy.

#001

Kid Ben Watts estava sentado na porta do correio, chapéu baixo na cara e puxando um breve ronco. O trem ainda não passara pegar as correspondências e os cavalos novos do barão não chegavam para alegrar as crianças que ali brincavam de polícia e ladrão. Foda-se, era o que Kid Ben Watts pensava, mascando seu mato enquanto cochilava – habilidade pela qual era conhecido: era o único cidadão da cidade que sabia mascar mato dormindo.
Alguns bandoleiros chegaram ao local e começaram a tocar o caos. Quebraram carruagens, marcaram bunda de burros – os quadrúpedes e os que se metiam na frente da gangue – e apalpavam as partes íntimas das madames.
Kid Ben Watts acordou, caminhou calmamente até a direção dos homens, sacou a arma e matou todos com coronhadas, já que não tinha munição.
Agora, com a paz reinando novamente, Kid Ben Watts poderia voltar a dormir – e também a mascar seu mato – na porta do correio enquanto o trem ainda se preparava para buscar as correspondências e os cavalos novos do barão ainda estavam por chegar.

#002

O vento naquela região era conhecido pela sua falta de misericórdia na hora de levantar areia nos olhos do gado e Kid Ben Watts também sofria quando sua cama de palha, instalada dentro do celeiro dos McCoy, saía voando pela estrada de terra.
E ele corria atrás de cada pedaço da sua cama com toda a velocidade enquanto o vento continuava a espalhá-la por lá e cá.
Após umas duas horas de perseguição, Kid Ben Watts se cansou, sentou próximo ao poço, debaixo da sombra, riscou um fósforo e começou a fumar seu cigarro de palha. Sacou sua Magnum .44, sem balas, para variar, e lustrou um pouco as iniciais de seu velho que ainda estavam marcadas na coronha. Deu um leve sorriso por se lembrar de seu pai naquela ocasião. Ele ainda deveria estar puto com seu filho por tê-la roubado da gaveta e fugido Texas adentro sem dar satisfação.
Puxa, como ele devia sentir falta daquela arma. De Kid Ben Watts, o vagabundo, a gente já sabe que não.

#003

Dizem que o coração separa o homem do menino. Dizem também que a bravura separa o fraco do forte. Mas se tem uma coisa que separa o homem, forte, macho de verdade de um lunático é reconhecer a bravura e jamais confundi-la com a cara-de-pau de apontar uma Magnum .44 sem balas para um fora-da-lei perigoso e bêbado.
Kid Ben Watts era um lunático sem amor à vida por fazer isso. Tudo começou no saloon, enquanto Kid Ben Watts tentava seduzir a garçonete a lhe dar um copo whisky na faixa. Ela sentia tanta pena daquele pobre coitado vagabundo, que pôs na sua própria folha de pagamento – se é que existia aquilo na época.
Na mesa ao lado estava o grupo de Baltazar McShane, um fora-da-lei barra pesada que recrutava sanguinários impiedosos para tombar carruagens no desfiladeiro e saquear seus bens. Baltazar McShane também tentava seduzir a garçonete, mas suas intenções eram diferentes das de Kid Ben Watts.
Emputecido com a situação e vendo o olhar cabisbaixo da moça que não se livrara de McShane, Kid Ben Watts arremessou o copo na cara do fora-da-lei e partiu para a pancadaria. Em menos de cinco minutos todos estavam participando, sabendo-se lá para qual lado distribuíam as pancadas.
McShane fora derrubado e Kid Ben Watts pressionou a sola de sua bota gasta no peito do bandido e sacou sua Magnum .44 sem balas.
– Dou 2 minutos para você sumir de Buffalo Breath.
O silêncio tomou conta. McShane, agora com medo, recrutou seu bando e foi embora.
Kid Ben Watts recolocou o chapéu, guardou a Magnum .44 no coldre e sentou no balcão.
– Boneca, me dá mais um cowboy!
– Não.