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Pequenas Aventuras de Kid Ben Watts #1

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Consumindo a energia das vivas almas que caminhavam por aquele deserto, o Sol Escaldante era cruel, intenso e sádico. O jovem viajante e seu cavalo mirrado se arrastavam pela areia a poucos metros de seu destino: o Condado de Goose.

O garoto enterrou a cara na areia, exausto. Seu cavalo, por outro lado, anunciou com alegria que havia visto pequenos prédios se estendendo no horizonte. Bem levantou a cara da areia e, um pouco atônito, correu na direção do bagageiro que estava pendurado no lombo do animal.

– Puxa, você viu o mesmo que eu? Tem uma cidade logo ali.
O cavalo respondeu. Não com palavras, mas respondeu. Bem abriu o bagageiro e começou a revirar as tralhas que havia estocado ali dentro desde que saiu de Buffalo Breath. Uma toalha, algumas roupas, um cantil sem água e, finalmente, sua Magnum calibre 44, com a única bala dentro.

Agarrou a arma e colocou no coldre. Fechou o bagageiro e voltou à caminhada junto de seu cavalo. Kid Ben Watts, como era conhecido, não gostava muito de andar a cavalo; carregava em seu código de conduta de bolso que o animal não tinha obrigação alguma de aguentar seu peso, tampouco de servir de transporte. O cavalo, claro, adorava aquilo e já até ficara mal acostumado com a ideia.

Chegaram no Saloon do Condado de Goose. Era estranho para todos aqueles fora-da-lei ver um garoto entrando ali tanto quanto era para o narrador saber que o primeiro lugar que Kid Bem entrava era sempre o saloon. Entrou com cavalo e tudo, ignorando todos os avisos.

– Uma salsaparilla pra mim e uma dose de uísque pro meu amigo aqui.

Ninguém entendeu nada. O cavalo apenas batia o casco, como se exigisse da moça do balcão que apenas o fizesse e rápido.

Foi nesse meio tempo que um homem forte, de chapéu preto, se levantou de sua mesa, ajeitou suas armas no coldre e caminhou em direção garoto. Parou ao seu lado, meteu a mão em suas costas o agarrando pela camiseta e sem manter contato visual, disse:

– Pela sua arma, presumo que seja o garoto que deixou Johnny Três-Dedos inconsciente em Buffalo Breath. E que fugiu logo depois, correto?!

O garoto balbuciou e engoliu seu drinque em seco. Retrucou com voz trêmula:

– Não senhor. Eu meti uma bala no meio dos seus olhos – era um blefe.

– Você não em engana, garoto. Você só tem uma bala, de uma arma que nem é fabricada mais.

Então, empunhou a arma, engatilhou a bala e apoiou na nuca do menino. Solicitou que se dirigisse até o lado de fora do saloon.

Kid Bem não era valente, nem exímio lutador. Saiu com as pernas mais trêmulas que vara verde. O homem saiu pela porta principal e atirou o menino pela terra.

No reflexo, Kid Bem sabia que deveria blefar de novo. Virou-se, tirando a arma do coldre, engatilhando sua única bala e apontando para o homem.

– Eu vou atirar, seu paspalho, só por essa!

O homem pôs-se a rir. Ria e muito, sabendo que não passava de um blefe. Enfurecido, Kid Bem encostou a mão no gatilho. O som estourou pela rua, enquanto uma bala atravessou a testa daquele homem.

Kid Ben se assustou, porque não havia puxado o gatilho. Olhou para a frente, ajeitou o chapéu e viu o corpo sem vida do cowboy bem à sua frente.

Do outro lado da rua, o dono da loja de armas blasfemava:

– Mas que porcaria de arma. Não sabia que esta merda estava carregada.

Assoprou a fumaça que saia do cano e pôs-se para dentro. O menino, sem saber de nada, também.