O humor de Jenésio (sim, com jota)

Sooooooooorrrrriaaaaaa, meu bem, soooooorrriiiiiaaaa

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Um cabelo preto e ondulado lambuzado de gel e brilhantina, jogados para o lado esquerdo do rosto; um par de óculos de armação fina e lentes grossas e um sorriso bobo que ligava uma orelha a outra de sua face redonda. Nunca um personagem foi tão fácil de descrever como o Jenésio com jota.

Em uma quente manhã de quarta-feira, em fevereiro de 1942, um funcionário disléxico estava de ressaca após celebrar o noivado no bar do Seu Epaminondas. Com a combinação de mente desidratada e dificuldades com letras, Jenésio fora registrado com jota. Mas isso não ia abalar o seu humor, uma pérola entre todos os cidadãos que eu conheço.

Jenésio não perdia o bom humor por nada nesse mundo. Até quando flagrou a ex-mulher na cama com o vizinho, Jenésio sorriu. Sorriu porque, mesmo sendo negro, o pinto do seu vizinho era pequeno. Jenésio também não perdeu o bom humor nem quando foi demitido do emprego por trocar os contratos, pois disse que essas cagadas acontecem.

No auge de seus 72 anos, Jenésio dizia que ia receber a Dona Morte de braços abertos para um chá com leite e, antes de morrer, ia perguntar para ela se não tinha um método menos ortodoxo para levar as pessoas para o outro lado. Dizia que a foice era um símbolo muito comunista para ele, enquanto todos riam com o espírito brincalhão daquele velhinho simpático que tingia o cabelo e usava o mesmo penteado que achou fantástico em Clark Gable.

Cansado da rotina, resolveu pegar seu Chevete 70 e descer para a praia, desfrutar aquele belo horizonte cheio de areia, água e bundas – vontade que foi despertada quando flagrou o neto fumando maconha com os amigos, e ouvindo Sublime. Abasteceu o tanque, fez as malas com algumas camisas e uma bermuda, pegou sua fita da Clara Nunes e disparou estrada afora, com o sorriso que lhe era tradicional.

Quando seu Jenésio saiu de São Bernardo, pronto para pegar a Imigrantes, o carro começou a dar os primeiros sinais de problemas, dando trancos tão pesados quanto os da égua xucra que montou uma vez. Deu seta e se retirou para o acostamento quando uma Tucson branca, em alta velocidade, passou raspando pela lateral do Chevetão levando o retrovisor embora.

– Ora bolas! – Jenésio coçou a cabeça meio confuso, mas dando risada – Por pouco não foi outra coisa.

Depois de parar, desceu do carro, abriu o triângulo e ativou o pisca alerta. Assobiando, se debruçou sobre o banco de passageiros para pegar o celular na lateral da porta. Quando foi discar para o filho, polícia ou até mesmo o guincho, a bateria acabou. Jenésio – com jota – ficou ali parado,  sem reação, olhando para o aparelho, quando outro carro passou em alta velocidade o assustando. Jenésio gritou e jogou o celular para cima, que se espatifou no asfalto da rodovia e foi atropelado pelos próximos veículos que passaram por ali.

Sem perder o sorriso, pegou um lanche que tinha feito e sentou no guard rail. Desembrulhou o sanduíche com muito cuidado, ajeitou os ingredientes dentro e deu uma generosa mordida. O presunto vencido e o queijo estragado o fizeram cuspir tudo para o matagal e jogar o resto ali por perto.

Passaram-se quase três horas e ninguém se importava em ajudar aquele velho senhor a chamar um guincho, a polícia ou seu filho, até que um carro com três belas mulheres pararam. Jenésio, que não era bobo nem nada, resolveu levar seus dotes de galanteador para as moças, que o acharam repulsivo e bateram em retirada. Mais duas horas no acostamento quando um Gol rebaixado, com dois manos ouvindo Racionais bem alto, parou para ajudar o senhor.

– Fica frio aí, tio, que nóis vai ajudar o sinhor, firmeza? – um deles falou, em dialeto incompreensível para Jenésio, que apenas assentiu com a cabeça.

Foi quando um carro parou com fúria um pouco mais à frente. Dele, desceu um carinha franzino que entrou correndo no Gol, deu a partida e sumiu. Os manos ficaram loucos e começaram a xingar no acostamento.

Jenésio não aguentou e se pôs a rir. O nervosismo já era iminente em sua gargalhada, mas ele ainda não tinha perdido o bom humor.

Os dois amigos que tinham parado para ajudar Jenésio se irritaram e perderam a cabeça; desceram a surra no velho e se mandaram para o bairro ali próximo, enquanto Jenésio jazia ensanguentado e sorridente no acostamento. Foi quando a polícia chegou para acudi-lo, junto com uma ambulância.

Durante a operação, um dos policiais pediu a Jenésio a habilitação. O senhor, ainda com dor, procurou dentro do carro. Nada. O policial começou a perder a paciência, enquanto o senhor recuperava sua sobriedade e parecia ignorar a dor – agora, sem nenhum sorriso no rosto.

Jenésio estava sem os documentos e isso já era o suficiente para o que o senhorzinho desse entrada na cadeia logo depois de sair do hospital.

Algum tempo depois, Jenésio entrou no bar em que estávamos reunidos, tomando uma cerveja.

– Que é isso, seu Jenésio, que cara é essa? – um de nossos amigos indagou, com um sorriso que seu Jenésio já estava habituado.

– Ora, vai tomar no seu cu, meu jovem – seu Jenésio retrucou sério e saindo do bar.

E foi assim que aquele senhorzinho simpático, de cabelo preto e ondulado lambuzado de gel e brilhantina, jogados para o lado esquerdo do rosto; um par de óculos de armação fina e lentes grossas e um sorriso bobo que ligava uma orelha a outra de sua face redonda nunca mais sorriu.

Bom, a Dona Morte já estava acostumada com senhores mal-humorados.

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Me amem

Ambiente escuro. Apenas uma luz sendo emitida de um corpo retangular e o único som que se ouvia eram as batidas do teclado e algum zunido que saia do fone de ouvido, devido ao volume alto da música.

Ele parou de digitar, agarrou o copo e deu um gole generoso na Pepsi, que sempre deu preferência em relação à rival Coca-Cola. A descrição se encaminhava para uma coisa triste e estapafúrdia de um roteiro de quinta categoria, mas se tratava apenas da rotina de um garoto aspirante a escritor, mas que estava longe de ter talento para isso.

O primeiro barulho de notificação chegou. O coração bateu mais rápido e a respiração hesitou por um breve instante. Com o olhar de admiração, via que a primeira pessoa havia se manifestado. Não deu tempo nem de clicar para ver quem era, os avisos pipocavam no canto esquerdo da tela, anunciando que várias outras pessoas tinham achado sua piada fenomenal. Sorriu, estralou os dedos, gemeu de dor e deu mais um gole na Pepsi. Outra notificação.

O universo era dele. Sua piada sobre gatinhos e um trocadilho esperto haviam se tornado a ponte que o faria atravessar entre o anonimato e exclusão para a fama e as cartas de amor que receberia das milhares de fãs.

“Como você é engraçado, Diogo, conte uma piada no meu ouvidinho”, ou então: “nossa, Diogo, conta de novo aquela piada para mim antes de nos enfiarmos debaixo das cobertas para longas travessuras de amor.” A vida era boa e todas as fantasias eram com loiras de lingerie vermelha.

Os apitos continuavam. Várias pessoas riam, comentavam e curtiam a piada. O som da música já era interrompido por tantos e mais tantos barulhos da rede social. O sorriso de satisfação já estava dando lugar a uma expressão demoníaca e obsessiva, acompanhada de um fio de baba que escorria pelo canto esquerdo dos lábios de Diogo.

Ele queria mais. Ele clicava sem parar. Ele apertava F5 para ver se o Facebook não se esquecia de notificar alguém ou algum comentário. Já se passavam dos 125 likes, mas ele queria mais. Seu sonho agora envolvia um share de humoristas famosos. Ele esperava a interação de alguém com influência. Ele queria ser printado – como eles adequaram a palavra print para um verbo – e exposto entre os mais fenomenais da internet.

Foi quando a porta do quarto pareceu vir abaixo, seguido de um berro:

– VAI PRA CAMA, MOLEQUE!

Diogo nem ligava. Aos olhos do mundo moderno, ele era importante demais agora para seguir uma ordem.

Pelo menos é o que ele achava.

Besteiras que dissemos

O fracasso e a falta de sorte teimam em se passar um pelo outro uma certa altura da vida. E é claro que nós, seres humanos imperfeitos e deslumbrados, tentamos criar uma teoria convincente que liste e destaque as principais diferenças entre um e outro. Pela minha experiência de vida, posso dizer que essa tentativa é a única que desmascara o fracasso contra a falta de sorte.

A questão em si é que, quando lidamos com esses pensamentos, que questionam a ferro e fogo, assumimos papeis de “um amigo de um amigo meu” para podermos relatar nossas frustrações, sem passarmos a vergonha e o olhar do julgamento do receptor. Ou mesmo daquele “puta merda, mas você é um fracassado”.

O Sandro não estava nos seus melhores momentos aos 25 anos. Tudo bem que ele tinha tudo que uma pessoa poderia querer nessa idade: contas de celular, contas de planos de internet com tv a cabo, faturas do cartão de crédito e um financiamento épico de um carro popular sem ar condicionado, mas nada disso chegava a melhorar sua autoestima em relação ao seu sucesso pessoal.

Seus principais passeios no final de semana era escolher o melhor petisco para acompanhar um episódio d’Os Simpsons e seu melhor amigo era um travesseiro velho, que se alimentava dos planos que Sandro fazia durante os sonhos.

Na última vez que havia saído, tinha reunido seus dois maiores amigos. Mas a falta de sorte começou a flertar de novo quando, numa mesa para quatro pessoas, a menina de um casal se sentou na cadeira ao lado da dele, passou a acariciar de maneira selvagem o namorado, sem ao menos se preocupar com os esbarrões que dava no moço enquanto ele tentava tomar sua Coca-Cola sem derramar na roupa. E para não reclamar de desgraça pouca, não tinha percebido que estava bem embaixo do ar condicionado.

A partir desse momento, a falta de sorte passou a ser uma companheira leal – e um pouco ciumenta – no dia a dia e, graças a ela, tudo passou a dar errado. Sandro começou a associar a atua fase com seu pensamento reprimido e falho de macho beta, associando o fracasso a um imã da falta de sorte.

Seu carro foi roubado com duzentas prestações pendentes e a fatura do cartão acumulava juros que ele nunca mais poderia pagar e isso o deixava cada vez mais desesperado. Não bebia por três anos, mas já era hora de pedir um uísque a um garçom qualquer.

Dentro do bar, sentou-se à mesa e percebeu que ela olhava do outro lado com seu cabelo que misturava os tons de castanho com os de loiro, jogados por sobre a armação dos óculos de intelectual. Lia alguma coisa do Bukowski que falava sobre porres, brigas, apostas em cavalos e um pouco de falta de sorte e fracasso.

Ela sorriu e ele s engasgou com o uísque, um bom truque do ciúmes da falta de sorte. Ele tossiu com as bochechas vermelhas e ela olhou assustada para aquela figura peculiar que estava quase morrendo.

Pulando todas as formalidades e os detalhes que não interessam, os dois passaram a conversar e sair juntos…para todos os lugares, qualquer hora do dia. E se falavam todo dia, sobre tudo e todos e até sobre si mesmos. Também tomavam porres e apostavam em cavalos, dividiam a falta de sorte e o fracasso. Foi assim por um tempo e, mesmo enciumada, a falta de sorte não conseguia chamar a atenção de Sandro.

Porra, os juros aumentavam, a companhia de internet cobrava a fatura sem mandar um técnico. E ainda tinha o carro roubado para pagar. Mas isso não importava enquanto o celular e os passeios se fizessem presentes no meio de tanta turbulência.

A vida era linda, assim como também era irônica. E em meio a tantas causas, efeitos, ações, reações e significados estudados por diversas ramificações da ciência – e também explicadas por todas as religiões do mundo – a falta de sorte teve sorte. Ao acaso, o fogo entre ambos cessou, deixando apenas cinzas e um pouco das saudades do pouco que viviam. Nem deu tempo de sentir saudades de algo maior, porque nunca foi além do nada que aquela relação se foi.

Desolado, Sandro apenas pensou se tudo aquilo era muita falta de sorte ou mais um fruto do fracasso. E nem sabia se era possível diferenciar um do outro. Apenas se calou, consentiu e jogou o celular fora. Tinha uma longa situação preta para contornar, causada pela sua falta de sorte. E se dependesse do fracasso, valia a adrenalina de saber se poderia resolver.

Essas são histórias que acontecem com amigos de amigos meus, que desejam muito algo que nunca vai passar do que é destinado a ser. E depois pode sentir falta mais de um ideal e de um pensamento do que de uma história em si.

E aí, quando a ficha cai, tudo à sua volta, ignorado por si mesmo, explodiu em montanhas de problemas que não têm mais como ser ignorados, apenas resolvidos. E nesse momento, você não sabe se tudo o que passou foi falta de sorte ou fracasso, mas se tentar justificar, vai entender que foi fracasso.

Refugo

A dificuldade de começar um conto, uma crônica, um ensaio, um artigo ou até mesmo o desabafo é grande. E isso nem é por conta da folha em branco, conforme aqueles milhões de listas de criatividade pintam.

Folhas em branco não são vilãs, tampouco criam obstáculos para uma dificuldade que começa naturalmente e vai, dia após dia, tomando corpo até gerar um curto circuito nos seus neurônios. Bom, eu não sei você, mas eu sou daquele tipo de pessoa que mastiga pensamentos, sonhos e passados mentalmente.

Parte disso eu culpo minha vó. É, a vida inteira ela passou me olhando sentado largado no sofá sem nenhuma preocupação na vida e proferiu a sentença que iria me assombrar pelo resto da vida:

– Cabeça vazia é a oficina do diabo.

Eu tinha medo do diabo e até hoje tenho. Então, para que ele não comece a produzir tridentes em alta escala dentro da minha cabeça e abra uma multinacional, eu começo a pensar. Mas aí eu junto tudo numa massaroca só. Vai da ex-namorada até os quinze reais que gastei ontem e não devia. Vai da briga que eu não deveria ter entrado até o dia em que eu não deveria ter ficado quieto. E as engrenagens do meu cérebro vão girando, desgastando meus neurônios e criando uma barreira que separa a minha aptidão de escrever merda da folha de papel em branco.

Hoje eu quis fugir à regra e dei uma chance pro demo promover um workshop. Sentei na cadeira na grama e resolvi não pensar em nada. Desliguei meu cérebro da mesma forma que se desliga um aparelho barulhento e que já começa a ameaçar uma pane. Escutei até o barulho do silêncio quando arquivei todos aqueles momentos do passado que eu estava remoendo.

Ah, que alegria que era calar a boca para mim mesmo. Por um momento eu pretendia ficar alheio e perder alguns minutos da vida sem saber se existia. A cada ameaça de pensamento, eu agia por instinto com um tapão na própria cara. Com as bochechas vermelhas e doloridas, já havia conseguido me convencer a guardar tudo para depois, ia apenas observar e respirar.

Vi um menininho passando com camiseta amarela. Ignorei as possíveis histórias de sua vida até então, ignorei também os motivos para ele sorrir tanto em cima de uma bicicleta. Depois, vi uma senhora bem gorda descendo a rua e se equilibrando para não cair. Também ignorei as possíveis causas de seu peso e a alegria de mostrar pro netinho que ainda conseguia se equilibrar contra a gravidade a puxando ladeira abaixo. Ignorei também o cachorro que cheirou as plantas do muro de casa e o motivo pelo qual ele queria brigar com minha poodle no portão. O capiroto deveria estar construindo uma cabana na minha cabeça, mas eu nem conseguia ouvir o barulho das serras, apenas o da minha respiração.

Comecei a perceber que respirava errado e tentei controlar o ritmo, sem pensar nele. Apenas tentando fazê-lo ter sintonia com os batimentos do meu coração. Consegui e sorri sem saber o motivo do porque estava sorrindo. Nem sabia se eu piscava, nem quantos minutos estava ali fora. Eu havia gostado da ideia de tentar ficar sem pensar em nada.

Pouco a pouco eu sentia como se flutuasse.Sentia uma leveza que eu não poderia explicar nem em um zilhão de anos. Era como se eu ignorasse todas as leis da física e voasse milímetros do chão que ainda estava encostado na minha bunda.

A tentação era grande, mas eu tinha que evitar questionar tudo aquilo. Já havia questionado demais tudo, todos e até mesmo as coisas que eu achava que poderiam acontecer e não aconteceram. Fiquei com aquela sensação por mais um tempo que eu não sabia o quanto havia sido.

Respirei fundo e me preparei para formular o primeiro pensamento desde então. Única coisa que me veio à cabeça foi um palavrão, um palavrão que funcionou mais com uma algema se quebrando do que como uma ofensa gratuita ao mundo. Era libertador, mais até do que tentar fugir dos problemas, como eu e várias outras pessoas tentávamos fazer dia após dia.

Eu não conseguia remoer nada, não conseguia questionar nada e também nem sabia se precisava de uma razão para isso. Comecei a pensar na criança, na velha e no cachorro. Comecei a pensar se conseguiria agora passar da folha em branco.

Escrevi sobre as poucas coisas que me preocupei pensar. Deixei a tela do computador desligada e evitei contato com a exposição midiática que as pessoas fazem de si mesmas na internet. Não abri páginas de livros e revistas justamente para não alimentar meu senso crítico com mais opiniões e argumentos.

Precisei me libertar de mim mesmo para poder começar a pensar em mim e formular meus próprios pensamentos. No fim das contas, deixar a cabeça aberta prum demônio qualquer fazer um workshop não foi ruim.

O foda é que eu ainda tenho medo dele, então nem vou tocar mais nesse assunto.

Do domingo em que eu desisti de querer ser um alfa e me assumi mais um do bando.

Um pouco de crise existencial faz bem. Uma pessoa que não passa por uma crise pessoal nunca vai conseguir saber o tamanho da merda que está fazendo.

Beta

 Quem me conhece sabe que escrever em primeira pessoa nunca foi minha praia. Como um típico macho beta, inútil, insignificante e existente aos milhares, eu não acreditava nem por um segundo que haveria interesse em falar de mim mesmo para alguém. E ainda como um bom macho beta, eu errei de novo.

Falar um pouco de você é bom, mesmo que ninguém leia. Especialmente quando você tem o costume de falar sobre as suas manhãs e tardes de domingo, o dia mais beta entre todos os betas.

O domingo, por sinal, nem deveria ser considerado um dia da semana, mas sim um estado de espírito abatido.

– Hey, quanto tempo sem te ver. Como você anda?

– Ah, eu ando meio domingo..

Ando meio chato, parado, apático, questionador, entediado, mas não quero acabar. É, domingo seria um bom adjetivo para um ser humano normal e chateado. Um ser humano beta.

O problema de ser um beta não é o fato de você realmente ser um, mas o da busca implacável por se tornar um alfa. Mulheres alfa, carros alfa, trabalho de alfa e fama de alfa, todos objetivos buscado incansavelmente por seres humanos limitados que acreditam que cada elogio o transforma num ser imortal, onipotente e admirado.

Olha, “ele é o meu melhor amigo” ou “que belo texto você escreveu na semana passada” não deveriam fazer de você o Dr. Phil, tampouco o Hunter Thompson. E um problema entre o betas – de ambos os sexos e de todas as classes – é o de acreditar que sua obrigação como ser humano é uma oportunidade de mudar seu status quo.

Comigo foi assim, com muita gente é. Poucos dos betas são cientes de sua limitação e poucos, mas poucos mesmos, são contentes com sua atual situação. Somos todos um bando de Ícaros que ao ver uma pequena asa aparecer nas costas tenta chegar bem perto do sol. E adivinha? Não dá.

Por que você acha que os primeiros aplicativos ou aparelhos lançados por empresas de tecnologia recebem a mesma nomenclatura da nossa classificação natural? Porque é uma forma de demonstrar que, apesar de lançada, aquela versão ainda contem falhas, erros e psicoses que precisam ser arrumadas. Bem como nós.

Mas para nós, por outro lado, não há mudança. Podem falar o que quiser, que podemos mudar para melhor, que podemos ser diferentes e podemos sempre fazer coisas que não fazíamos antes. Cada uma dessas mudanças é relacionada a um fracasso pessoal, uma escolha errada de tentar ser um alfa – ou próximo a isso.

O aspecto da mudança, em geral, é pautado pelas falhas recorrentes. Logo, mudar não significa mudar de fato, mas abrir mão de uma tentativa inútil de ser quem você não é. E no fim é tudo voltado ao mesmo discurso: de ser quem você é.

Eu levei algum tempo para descobrir que não ia ser nada além o que eu era. Não em termos financeiros, profissionais ou de determinadas cobranças que são impostas a todos no berço. Eu não seria nada além do que eu sou pessoalmente.

Se realmente existe vida após a morte, que essa minha versão beta seja corrigida da melhor forma possível enquanto eu conserto, em vida, as falhas que meu aplicativo demonstra. E se eu errar, não tem problema. Para quem já cansou de errar, nada do que começar a tentar fazer as coisas da maneira certa.

 

Tatuagem de rosa

Respeite seu amor, sua família e suas crenças…depois tatue todas elas em uma rosa.


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O cenário era cinzento e melancólico e até mesmo as paredes do bar pareciam deprimidas – e um tanto nostálgicas – naquela noite. Enquanto isso, um copo de uísque era rodopiado com a ponta dos grossos dedos de Finnan, que olhava para o doce e suave giro da bebida, como se estivesse acompanhando uma pequena melodia que os irlandeses uma vez tocaram naquele porto.

Finnan apertou o copo com as duas mãos, baixou a cabeça e, num piscar de olhos, mandou aquela dose esquentar e consolar sua garganta. Pela janela, uma fria e fina chuva caia molhando todo o cais e a baía. Aquilo desceu queimando, como uma dose de remorso, que a cada gota tocava num ponto de sua memória e pelos tantos meses em alto mar pescando e trazendo peixes frescos para o distrito. Ao saborear a gota de sua última lamentação, um marujo mais novo, também descendente de irlandeses, se sentou ao lado de Finnan e pediu uma cerveja.

– Um pint para a nossa heroica travessia, Finnan – ele disse erguendo o copo para o experiente marinheiro, que levantou seu copo vazio em solenidade – finalmente poderei ir para casa matar saudades da Jane.

O jovem marujo ergue a manga revelando a tatuagem de uma rosa, com o nome de Jane escrito. Finnan olhou de canto, pediu mais uma dose e arregaçou também as mangas revelando uma rosa ainda maior, com três nomes femininos. Sorriu de volta para o garoto.

– Também vou para casa, garoto. Pretendo abraçar as mulheres da minha vida bem forte para compensar os meses em que lutamos contra as ondas.

– Deixe-me adivinhar: mãe, esposa e filha, nessa mesma ordem – disse o jovem tomando mais um gole de seu pint – muito bonita a rosa para todas elas.

O velho marinheiro sorriu com a dor tomando o canto de seus lábios. Talvez não conseguira nem convencer a si mesmo de que conseguiria mesmo abraçar todas as três. A esposa havia brigado com ele dias antes da viagem, conta de uma bebedeira, uma briga de bar e uma noitada no beco do pub. Aquilo era imperdoável para ela, a doce Carolyn, cujo primeiro nome ardia na pele de Finnan.

A filha era muito pequena e mal conhecia o pai beberrão e a mãe havia morrido durante a primeira semana de navegação. Finnan só tinha sido notificado minutos depois de botar o primeiro pé para dentro do bar.

Botou seu chapéu, ajeitou o casaco e preparou-se para se retirar. O jovem marujo o segurou pelo braço e olhou fundo nos olhos. O respeito que tinha com aquele barbudo de meia idade era indiscutível.

– O senhor não me engana, senhor Finnan. Eu sei que por trás desse olhar simpático há um quê de dor. O que aconteceu?

– Você jamais entenderia, garoto.

– Tente-me. O senhor não pode ter tanta certeza.

– Pois eu não tenho certeza, garoto. Apenas torço para que você chegue ao último dia de sua vida sem ter essa dor no peito. Pense que por mais forte que possamos ser, a ponto de aguentar uma agulha eternizando cada pequena letra do nome dela em nossa pele, tudo o que fazemos que parta um coração a dois dói mais do que páginas de um romance barato podem descrever – Finnan concluiu retribuindo o toque no ombro.

O jovem marujo deu um sorriso sincero. Deu um leve tapa no braço do velho e voltou-se para o seu copo.

– O mar mexeu muito com o senhor, senhor Finnan. Vá para casa, Carolyn deve star esperando você com muitas saudades.

Aquilo foi uma forte surpresa. Finnan apenas perguntou como o jovem sabia disso tudo.

– Eu apenas sei, senhor Finnan, eu apenas sei.

E com um sorriso assentido, Finnan saiu do bar ao encontro de Carolyn, enquanto o jovem marujo pagou sua bebida, colocou o casaco e viu que era hora de ir para os braços de sua doce Jane novamente.

YOLO

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Acordei tarde naquele domingo com a luz do sol entrando por uma fresta da minha janela e o tic tac do relógio no criado mudo ao meu lado direito. Eram mais de onze horas da manhã, o que queria também dizer que eu tinha dormido por mais de doze horas ininterruptas.

Merda, eu odiava dormir. Por mais que eu acordasse cansado e desejando ficar mais tempo na cama, achava um desperdício enorme dedicar 12 horas da minha vida a um colchão e a um travesseiro.

Levantei calmamente e fui até o banheiro escovar meus dentes e dar uma mijava; depois disso, comecei a pensar, voltaria para o quarto, arrumaria a cama e trocaria de roupa. O tempo estimado para cumprir todas essas pequenas tarefas obrigatórias da manhã era de 10 minutos e eu já podia dizer que o domingo mal começara e eu já tinha perdido 12 horas e 10 minutos em atividades estúpidas ou 12 horas e 11 minutos, contando o minuto que eu perdi pensando em tudo isso. Terminei todas essas tarefas e fui para a cozinha para preparar o café, que levaria um tempo estimado de cinco ou sete minutos para ficar pronto, totalizando 12 horas e 18 minutos da minha vida, que eu poderia estar pulando de pára-quedas, fazendo uma viagem até o litoral norte, mas que eu estava gastando no domingo cedo.

Sentei-me à mesa com a xícara em mãos e comecei a gastar mais alguns minutos em pensamentos inúteis. Acredito que foi cerca de 15 minutos extasiado em meus próprios devaneios e epifanias, totalizando 12 horas e 23 minutos da minha vida. Eu sei que parece paranoico ficar contando o tempo dessa forma e que também soa como tortura pensar em outras coisas mais intensas que poderíamos fazer nesse tempo. Sei que soa também um pouco louco falar sobre tudo isso e continuar sentado com a xícara de café, sem fazer nada para que aquela manhã fosse diferente. Mas a verdade é essa, o tempo é como uma companheira insatisfeita e apressada, que vive tentando fazer você acompanhar o ritmo. Só que ela não para, ela não descansa. E você, cada vez que para e tenta recuperar o fôlego, acaba ficando mais para trás.

Eu nunca somei quantas horas nós temos de estimativa de vida, também nunca quis perder meu tempo fazendo essas contas. Eu já o perdia demais trabalhando por 40 horas semanais, dormindo por 56 horas semanais e assistindo televisão nos horários restantes.

Terminei o meu café e resolvi escrever um textinho sobre todo esse tempo no caderno, levando praticamente uns 20 minutos, depois mais uns 10 para passar a limpo no computador. Nesse meio tempo, gastei 3 minutos ouvindo Baby Blue, do Badfinger e depois mais 3 ouvindo de novo, perdendo a chance de ouvir uma música diferente.

Não importava qual decisão eu tomava naquele momento, eu sabia que ele ia me custar um tempo que eu não ia recuperar. Então, para não perder tempo pensando, eu preferia fazer por conta própria e sem pensar muito.

Terminei o texto de qualquer jeito, pouco me importando se ele estava legal ou não. O sol que me acordou brilhava bonito e eu pretendia gastar alguns minutos do domingo andando com meus cães. Afinal, mesmo que você só viva uma vez, é legal se sentir vivendo a cada minuto.