Category: Uncategorized

The Invisible Man

A cidade era São Paulo e o clima era frio. Não chovia, mas ainda assim a umidade no ar, junto com a brisa que assoprava era o suficiente para deixar qualquer entusiasta de praias com os pêlos arrepiados.
Era um frame de filme certeiro para um palpiteiro se levantar da cadeira, apontar o dedo para a tela e gritar “vai acontecer um crime”. Bom, tratava-se de São Paulo e algum crime poderia acontecer mesmo naquele minuto. Entretanto, nosso herói, apesar de possuir super poderes de invisibilidade, nada poderia fazer para resolvê-los.
Talvez porque suas habilidades não eram tão literais assim. Invisibilidade não passava de uma conotação para o que Gabriel Mosca sabia fazer, mesmo sem saber que o fazia.
Gabriel era invisível para as pessoas e nem ele, nem ninguém, sabia o porquê. Tudo começou num dia de verão, no recreio; no pátio do colégio, sentados na escadaria, Gabriel viu seu grupo de amigos cogitar uma breve ida para a praia. Eles haviam comentado Guarujá, lugar que há tempos ele queria ir, especialmente pelo restaurante que soubera existir na praia da Enseada.
O sinal bateu e todos voltaram para a sala. Gabriel nunca mais ouvira nenhum dos seus amigos comentar com ele sobre a viagem, mas viu todas as fotos nas redes sociais dos amigos.
Deveria estar invisível na hora errada e não sabia. E como ele não tomava conhecimento de seu poder, não havia entendido por que não estava com todos aqueles que durante 10 anos de colégio, viveu junto, sorrindo, se divertindo e, claro, estudando.
Chateado, Gabriel tomou o metrô sozinho para casa no dia seguinte às fotos. Não queria nenhuma companhia porque precisava de um tempo para pensar.
Olhou para suas mãos e viu que elas estavam ali; aproveitou e tocou o braço, o peito e o rosto. Tudo estava lá, tudo era palpável e tudo era visto.
Entrou em casa, cumprimentou a mãe, que não respondeu. Foi direto para o quarto, ligou o computador e colocou em uma música qualquer.
Quando deitou na cama, escutou seu celular vibrar. Era um de seus amigos.
Abriu o sorriso e leu a mensagem. Seu sorriso dissolveu-se como um torrão de açúcar se dissolve no café.
“Cara, revisa o trampo de história pra mim? Vou sair com uma mina e não vai dar tempo. Valeu” leu em voz baixa e entristecida. Respondeu, ainda que simpático, com quem o amigo ia sair. Queria mostrar interesse pela alegria.
Não obteve mais resposta, apesar da visualização. Encostou o celular na cômoda e continuou deitado, até que adormeceu.
No dia seguinte, a caminho do colégio, sentou-se no ônibus deixando um lugar vago ao seu lado. Atrás dele estava um homem mal encarado e aterrorizante que o deixou preocupado.
A cada ponto, o ônibus ia ficando cada vez mais cheio, as cadeiras lotadas e as pessoas de pé. Havia sobrado apenas dois lugares livres: um ao seu lado, outro ao lado do homem.
Poucos minutos depois e uma mulher entrou e sentou-se ao lado do homem. O ônibus continuou o caminho até, que pouco a pouco as pessoas foram descendo.
Perto do último ponto, quando o homem mal encarado desceu, a mulher percebeu que havia sido furtada. Entrou em desespero, choro e foi consolada por algumas pessoas, enquanto o banco ao lado de Gabriel continuava vago.
Levantou-se e desceu do ônibus. Olhou de novo para as mãos e viu que elas estavam lá, ainda palpáveis, ainda visíveis.
Chegou na escola e encontrou os amigos comentando sobre o interclasses. Recebeu o comentário do amigo da mesma forma que Evander Holyfield recebeu a mordida de Tyson.
“Putz, cara! Você joga! Porra, foi mal”
Fora do time. Tudo bem, ele podia lidar com aquilo, mesmo que ficasse triste.
Desde então, o tempo foi passando e Gabriel foi crescendo. Entrou na faculdade, onde ficou por alguns anos, sempre fora dos grupos de trabalho e vagando solitário pelos corredores do centro.
Nas entrevistas de emprego era a mesma coisa, isso quando as conseguia. Normalmente seus e-mail nunca eram respondidos, tampouco selecionados.
Um dia, cansado de tudo, Gabriel olhou de novo para as mãos. Elas estavam ali, palpáveis e visíveis.
Olhou para trás e viu que, além de um homem, havia uma moça se aproximando, distraída com o celular. Assim que ela passou, Gabriel chutou sua bunda.
A moça, inconformada, se virou brava. Gabriel encolheu-se todo pronto para a bronca.
Irritada a moça começou a gritar…mas com o homem atrás dele. Gabriel interrompeu a conversa e disse que havia sido ele.
A mulher e o homem fitaram-no, aguardaram um segundo e voltaram a discutir. Gabriel foi embora para casa olhando as mãos, visíveis e palpáveis.
Nem ligou para os dois trombadinhas armados com canivete à sua frente. Eles não podiam ver o Homem-Invisível mesmo.

Advertisements

O nosso adeus

“Os cães são o nosso elo com o Paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde, é voltar ao Éden onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz.”

– Milan Kundera

Minha querida,

Eu queria começar essa carta aberta de uma forma sutil e que eu sei que você adorava: histórias longas, bonitinhas e que faziam você deitar bem pertinho, respirar fundo, e então dormir quietinha.  Ah, que saudade de você ali naquele sofá…mas enfim, as pessoas não sabem como foi.

Explico:

Era janeiro; o ano era 2000. Eu tinha 10 anos e você, acabado de nascer. Éramos dois seres daquela geração sobrevivente ao bug do milênio, mas acho que você nunca soube e nem se importou com o que isso significava.

Filha de mãe solteira e de pai vagabundo, vi você pela primeira vez entre seus 10 irmãos, todos machos e bem maiores que você. Faziam de tudo para chamar a atenção, mas você ficava ali na sua, sem encher ninguém.

Até comentaram que você era parecida com a minha mãe, porque além de pequena, rosnava para todo mundo – a família inteira riu, menos minha mãe, claro.

Foi amor à primeira vista, ainda que você não demonstrasse de cara. Tudo bem, era o seu jeito, e aprendemos isso com anos e anos de convivência.

Trouxemos você para essa casa no meio de dois cães imensos, que faziam qualquer poodle sentir medo.Qualquer um, menos você, que saiu correndo para o quintal se apresentar.
Daquele tempo em diante, você entrou de vez para a nossa família. Eu fui crescendo e celebrando cada aniversário seu.

Você viu quando eu voltei de São Caetano para morar com meus pais aos 12 e viu também quando saí de novo para morar com as vós em Sorocaba. Aliás, você costumava ficar lá de tempos em tempos.

Viu eu terminando a oitava série e morrer de medo do colegial. Viu também eu saindo da escola, em lágrimas, comemorando a passagem para a universidade. Você viu tudo, acompanhou tudo e esteve lá.

Quando aqueles seus amigos se foram, você se comprometeu a assumir a casa. Nem se abalou tanto e mostrou pela primeira vez o quanto era forte. De lá para cá, vários vieram e se foram e você sempre os recebeu e cuidou de cada um.

Da mesma forma que amou incondicionalmente, odiou com toda a sua alma. Você se pegava a tapas com a Thalia, lembra? Mas quando ela se foi, você foi a primeira a ficar triste.
Era casca grossa, mas tinha o coração bom. O tempo continuou passando e você foi envelhecendo cada vez mais forte . Lembro que no mesmo mês precisei levar todo mundo pro veterinário…você, NUNCA. Juro por Deus que nunca vi cão mais forte que você.

Chegou aos 12, aos 13 e aos 14 anos sem perder um dente, sem pegar uma gripe e muito menos sem perder o apetite. Ainda assim, você tinha o seu jeitão isolada e comedida.

Um pouco desconfiada do mundo, mas nunca agressiva a ele. E o que a gente mais ria era que todos os outros cães, ora um, ora outro, alimentavam birras e discussões. Mas todos te amavam.

Você virou a vovózona, a matriarca dos vira-latas.

Mas enfim, além da faculdade, você viu meu primeiro emprego. Viu a alegria que foi chegar em casa e contar do segundo. Fiz até festa para vocês, trazendo um monte de bifinho e porcaria canina para vocês se divertirem.
E ano passado você me viu, finalmente, sair da faculdade. Foram 15 anos que eu cresci e você cresceu junto ali, do lado, em silêncio, apenas com o rabinho abanando e um chorinho chato pedindo pra ir pra rua.

Você sempre esteve ali. Agora já não mais.

Hoje, uma década e meia depois, você decidiu que era hora de ir. Porra, como eu chorei, e como ainda choro enquanto escrevo. E o pior foi que nem deu para nos despedirmos.

No mês passado eu perdi um dos meus melhores amigos, que ficou apenas seis meses comigo. Imagina a dor que é lembrar que, depois de 15 anos, foi a sua vez.
Eu questiono porque vocês ficam tão pouco tempo com a gente e sei que a resposta é porque é o tempo suficiente para nos encher de amor e alegria.

Se essa era a sua missão, você a concluiu com mais êxito do que se possa imaginar, minha cara. E eu, da mesma forma que sinto tristeza por ver aquele sofá vazio, fico feliz por saber que agora, exatamente agora, você está bem. E que eu vou rezar por você, da mesma forma que rezo por todos.

Eu sei que essa despedida ficou longe de perfeita, mas é que o cérebro e o coração tão desconversando muito por isso. Peço desculpas.

Muita gente vai perguntar porque eu escrevo para vocês quando vocês se vão, sabendo que vocês não sabem ler. E eu vou sempre dizer que é porque, nessa casa, os corpos se vão, mas o amor sempre fica.
Vá em paz, vá com Deus, e obrigado por todos os momentos ao meu lado. A gente ainda vai se encontrar mais vezes.

Mesmo que muitos não acreditem, eu acredito.

WP_20150105_013

Meg

* 05/01/2000
+ 23/04/2015

Quero ser Duchovny

Sou só um otário com baixa autoestima, oh yea

                                     Offspring

 tumblr_nlwvf4A0Pa1upx19so1_500

Saber lidar com a baixa autoestima é um processo complexo e que envolve etapas muito mais complexas que a autoindulgência e a comiseração. É praticamente tentar reverter o saldo negativo de experiências frustradas em algo que satisfaça um desejo do ego – e que, por tabela, atinja o hemisfério da admiração alheia.

Parece um papo filosófico, extremamente fundamentado em bases científicas, mas trata-se apenas de uma constatação rotineira ao qual eu me submeto todo dia. O espelho no quarto na parte da manhã e a porta do quarto no começo da noite acabam se tornando instrumentos de torturas que nem mesmo a equipe da inquisição pensaria em usar com bruxas e ciganas.

Meu complexo se estende muito além da escrita disléxica e da ilustração desproporcional. Também não se encaixa às três bandas que fiz parte, tampouco à minha atual inaptidão para exercer algo além da minha profissão. Estende-se pela forma como o talento se torna abstrato e intangível toda vez que tento pôr em prática alguma atividade.

Recentemente vi passando aquele filme ‘Quero ser John Malkovich’. Não tenho o mínimo embasamento cineasta e tampouco sei da trama; atrevo-me, inclusive, a dizer que não vi outro filme do cara que não seja R.E.D., mas, definitivamente, não tenho vontade de ser Malkovich.

Queria mesmo era ser Duchovny. O cara define o padrão de excelência ao qual eu queria piscar e esticar os dedos em formato de arminha toda manhã em frente ao espelho, a união perfeita entre o talento e o assédio moderado.

Duchovny me foi apresentado na época em que usava as calças do fodão Fox Mulder. Meu, o cara mantinha contato com alienígenas e solucionava casos absurdos da ufologia, coisa que poucos teriam a capacidade nesse mundo de fazer. Era o alto-grau da escala meritocrática astral, da qual enjoou e resolveu ser escritor. Protagonizou Hank Moody, a mistura ideal do tarado-beberrão Bukowski com a elegância e a classe macho alpha de Hemingway.
Um Fox Mulder garanhão e apaixonado, um Hank Moody que caçava aliens. Assim que a série caiu em desgraça, viu que não poderia salvar nada sozinho e resolveu mostrar o lado Duchovny.

Escreveu um livro que ingressou na coluna de best sellers do New York Times e, conforme noticiado durante essa semana, entrou em estúdio para gravar um álbum de rock, que pelas demos já nota-se a veia artística de um vocal muito semelhante ao de Mike Ness. Escorre a cada segundo aquela reunião de Fox, Hank e David mostrando como fazer você, mero espectador, reforçar aquele pensamento lá de cima de que o espelho se torna a tortura.

Dentro das minhas limitações, ainda percebi que não figurava no NY Times, nem pisei mais num estúdio desde os 19 anos. Só me restava esboçar um beiço elevado em tom de aprovação e inveja e bater palmas vagarosas em reverência a um mestre.

1ccf66f9f030db2fb0ce8e180e441550f9a40e9dcab0744df880aee6c558b05e

Faz frio.

I can’t lose, I can’t win
livin in the middle once again
can’t stand the pain

O ônibus balançava de maneira desorganizada, quase que nauseante. Sentado no banco da frente e mexendo no celular, o garoto apenas engolia em seco para evitar que seu café da manhã se rebelasse, num ato legitimo de protesto, contra a exploração do opressor balanço daquele cacareco de quatro rodas e 50 assentos.

Seus dedos passavam pela tela como um pequeno pincel dava vida a uma tela séculos atrás e a tosse seca cortava o silêncio constrangedor entre todas aquelas pessoas. Fazia mais de 40 minutos que estava ali sentado e fuçando no celular sem que uma mensagem de oi, alô ou que horas você chega pipocasse na tela. Com um suspiro deprimido, travou a tela e guardou o aparelho na mochila, enquanto aumentava o volume do seu radinho.

O balanço nauseante começava a cessar à medida que se aproximavam da entrada da Marginal e, ao som de Georgia Satelittes, ele olhava para o rio sujo contendo a ansiedade de mexer de novo no celular que não havia recebido uma única mensagem.

– Bilhões de pessoas nesse mundo- ele disse baixinho, -e nenhuma delas perguntou se eu esqueci a blusa.”

– Pelo menos o motorista é mais sincero  – continuou – ele não quer que falem com ele, a menos que seja o necessário. – disse em voz alta, provocando uma certa estranheza nas pessoas que viajavam com ele.

Esticou de novo o olhar pela janela e viu que a cidade já estava começando a ficar parada no asfalto, como era de costume.

– Pois eu também esqueci a blusa – disse o motorista – mas ninguém achou essencial perguntar para mim.

E soltou uma gargalhada do volante. O garoto sorriu de volta, mais porque achou estranho que alguém que estivesse dirigindo um troço daquele tamanho, àquela hora, teria bom humor para encarar uma conversa com um adolescente meio solitário.

– O senhor esqueceu a blusa também? Mas dizem que São Paulo esfria algumas horas.

– Ah, isso é só durante o inverno. E outra, é tanta gente na rua respirando que você se aquece, talvez você nem pense na blusa…nem em quem não perguntou se você a esqueceu.

– Hmm… – ele assentiu, mais feliz – acho que a gente não deveria falar sobre isso, não é um assunto indispensável.

– Tem razão. Vai descer no Tietê?
– Barra Funda.

E aumentou o som dos Satellites, olhando de novo no celular. O motorista teria que fazer aquela viagem mais umas três vezes naquele dia.

 

Me amem

Ambiente escuro. Apenas uma luz sendo emitida de um corpo retangular e o único som que se ouvia eram as batidas do teclado e algum zunido que saia do fone de ouvido, devido ao volume alto da música.

Ele parou de digitar, agarrou o copo e deu um gole generoso na Pepsi, que sempre deu preferência em relação à rival Coca-Cola. A descrição se encaminhava para uma coisa triste e estapafúrdia de um roteiro de quinta categoria, mas se tratava apenas da rotina de um garoto aspirante a escritor, mas que estava longe de ter talento para isso.

O primeiro barulho de notificação chegou. O coração bateu mais rápido e a respiração hesitou por um breve instante. Com o olhar de admiração, via que a primeira pessoa havia se manifestado. Não deu tempo nem de clicar para ver quem era, os avisos pipocavam no canto esquerdo da tela, anunciando que várias outras pessoas tinham achado sua piada fenomenal. Sorriu, estralou os dedos, gemeu de dor e deu mais um gole na Pepsi. Outra notificação.

O universo era dele. Sua piada sobre gatinhos e um trocadilho esperto haviam se tornado a ponte que o faria atravessar entre o anonimato e exclusão para a fama e as cartas de amor que receberia das milhares de fãs.

“Como você é engraçado, Diogo, conte uma piada no meu ouvidinho”, ou então: “nossa, Diogo, conta de novo aquela piada para mim antes de nos enfiarmos debaixo das cobertas para longas travessuras de amor.” A vida era boa e todas as fantasias eram com loiras de lingerie vermelha.

Os apitos continuavam. Várias pessoas riam, comentavam e curtiam a piada. O som da música já era interrompido por tantos e mais tantos barulhos da rede social. O sorriso de satisfação já estava dando lugar a uma expressão demoníaca e obsessiva, acompanhada de um fio de baba que escorria pelo canto esquerdo dos lábios de Diogo.

Ele queria mais. Ele clicava sem parar. Ele apertava F5 para ver se o Facebook não se esquecia de notificar alguém ou algum comentário. Já se passavam dos 125 likes, mas ele queria mais. Seu sonho agora envolvia um share de humoristas famosos. Ele esperava a interação de alguém com influência. Ele queria ser printado – como eles adequaram a palavra print para um verbo – e exposto entre os mais fenomenais da internet.

Foi quando a porta do quarto pareceu vir abaixo, seguido de um berro:

– VAI PRA CAMA, MOLEQUE!

Diogo nem ligava. Aos olhos do mundo moderno, ele era importante demais agora para seguir uma ordem.

Pelo menos é o que ele achava.

Fuckin’ september (o texto é meu, ponho em inglês se quiser)

Image

Entre todos os fatores que contribuem de maneira a beneficiar as relações humanas, certamente a escrita figura no pódio entre as mais importantes. Há quem discorde, mas eu sempre acreditei que um texto, seja em um livro ou algum outro lugar, fazia qualquer episódio insignificante da vida de alguém se tornar curioso ao resto dos outros. Amigos são aqueles que sabem fingir melhor o interesse nas conquistas boçais que você tem no dia a dia, como achar exatamente o valor da passagem do busão no bolso da calça. Quanto ao resto, a falta da intimidade ainda é um escudo, uma barreira à prova de assuntos mais banais

Há quem use com primor o recurso da escrita e sabe transformar aquele diálogo idiota com a menina que veio fazer entrevista para estágio no banco em uma obra-prima do questionamento da vida em um lugar ou outro. O mesmo vale para os sonhos; quem mais se interessaria em saber aquele seu sonho com militares russos sem escrúpulos a não ser você mesmo? Pois é, um texto bem escrito faz cada um desses aspectos se tornar interessante.

Eu pensei nisso enquanto via gotas e mais gotas de chuva caírem na minha cara, enquanto eu tentava fugir de cada uma delas na frágil e precária cobertura do ponto de ônibus. Era quase fim de setembro e eu estava há duas semanas me torturando numa rotina fora da que eu estava acostumado. Havia estraçalhado o carro no começo do mês e, desde então, lutava para achar as moedas que sempre me faltavam. Eu sabia que aquele acidente – se assim podemos dizer a imprudência de dirigir cansado – seria o presságio para uma onda de má sorte e perturbações. Nunca tive razão de nada, apenas para visões pessimistas.

Meu carro tinha previsão de duas semanas de reparo, contanto que o mecânico começasse; quanto a isso, infelizmente ainda não havia previsão. Só me restava tentar o conforto em coisas irrelevantes como gostar de correr atrás de um veículo mais rápido que eu, acessar redes sociais pelo 3G – aprender a gostar de fuçar os recursos de um smartphone foi uma readaptação do estilo de vida – e gostar de ouvir duas mulheres com perfil de ‘carolas’ reclamarem uma para a outra sobre seus filhos, maridos, empregos e vizinhos.

A falta do carro doía, nem tanto pelo privilégio de ir e voltar a hora que eu quisesse, mas por poder seguir meus impulsos de ir a qualquer lugar a qualquer hora. Passei a depender mais de quem eu menos queria, e que aproveitava cada situação para me condenar, me provocar e continuar apontando o dedo na minha cara como o responsável por toda a miséria que ele mesmo fez de sua vida.

Setembro foi passando, como uma lesma atravessa uma varanda. A passos lentos, via em câmera lenta a má fase dando seus primeiros sinais de quem estava de volta, como um parente persona non grata quando chega de repente na sua casa naquele domingo de manhã.

Eu ainda estava fugindo da chuva debaixo daquele ponto de ônibus e o 3G se negava a me permitir uma distração. O livro não dava para ser aberto por conta da água e o ônibus, bem, ele me dizia, em segredo, que eu deveria aprender a conviver com os horários dos outros e não com os meus. Eu continuava ali pensando no carro, na besteira, na burrice e no cretino que nunca me estendeu uma mão. Setembro ainda estava no final, mas como todo bom final, quanto mais se aproxima do fim, mais longe parece.

E por não ser um primor na escrita, nem mesmo o momento mais decepcionante que tive no ano se tornou interessante para alguém. Tudo bem, uma hora a chuva passa.

Paola e seu presságio para a ruína

shit-happens-2-213282-m

– Se eu pedir o de fraldinha eles trazem o bebê junto?
Foi a última piada que ele fez quando notou meu semblante se fechando. Baixei lentamente o cardápio e, com os olhos fundos, prontos para criar estática com o olhar dele, recriminei aquela atitude. Ele, claro, se espantou com isso e, ao contrário de mim, escondeu-se atrás da piada ridícula e do prato que ele escolheu tirar sarro.
Naquele momento as palavras de meu pai passearam em minha mente, como nunca haviam feito antes. Paola, preste atenção, gracejos são divisores de águas, ele dizia. O problema não está em rir delas, muito pelo contrário: quando uma delas não for mais capaz de fazer você feliz, é porque uma pequena fissura surgiu. Um presságio para a ruína que, quando chega, torna difícil correr contra a direção que as rochas deslizam.
Fazia muito sentido agora. Continuei olhando para ele, agora já com o olhar mais vago, enquanto ele ainda parecia se esconder atrás do cardápio como uma criança com medo de um cachorro bravo.
– Que bosta de piada, heim? – questionei tentando soar simpática, sem saber que acabara sendo mais rude que de costume.
– Desculpa. Achei que seria engraçada. Achei que pelo menos você acharia engraçada.
Pelo menos eu acharia engraçada, ele disse. A partir do momento que uma pessoa faz uma piada sem graça para você, isso pode servir como a prova de um alto grau de confiança, o famoso quebra gelo. Mas quem ele achava que era para julgar que pelo menos eu acharia aquela piada engraçada? Troquei meu inconformismo pelos primeiros sintomas da raiva. Já não conseguia vê-lo com o mesmo olhar de quando nos encontramos antes de vir para cá.
Meu Deus, eu pensava, o que será que aquilo queria dizer? Seria mesmo que eu estava sendo capaz de deixar aquela fissura se abrir em um relacionamento que estava a poucos momentos de completar seu décimo aniversário? Não era possível.
– Você está bem, Paola?
Ora, é claro que eu estou bem. Quer dizer, eu sei que eu estou, ou que eu estava. Mas e nós? Nós estávamos tão bem quanto achávamos? Fechei lentamente o cardápio sem me preocupar em fazer um pedido, debruçando minhas mãos sobre a capa de couro. Uma lágrima sem graça planejava escapar do meu olhar.
– Foi por que eu falei em bebê? Não quis dizer que era para termos um.
Ele ainda não entendia. Meu olhar continuava vago, como se tentasse fitar o olhar da piada que ele disse. Ela era engraçada, pelo menos para mim…ou deveria ser, e já não era.
Lutei contra a ideia, meu olhar já se perdendo cada vez mais em meio a tantas luzes, velas, talheres e pessoas.
– VOCÊ É UM CRETINO E EU TE ODEIO! – levantei da mesa com as lágrimas já desmanchando toda a maquiagem. Saí correndo pelo restaurante na direção do primeiro táxi que pudesse ver.
– Espera, Paola, pelo amor de Deus, me espera! – ele gritou correndo atrás de mim.
A fissura ficava cada vez maior. Eu sabia que quanto mais eu corresse dele, mais tentasse ficar longe, mais ela se rasgaria como a um papel num pequeno movimento.
Desde então, não lembro o que aconteceu em nossa última conversa. Ela não foi uma piada, nem mesmo aquela sem gracinha que nos mantinha um ao lado do outro. Pousei a caneta sobre a prancheta e olhei na direção da fonte do parque.
Tinha escrito numa página do diário o quanto uma piada sem graça podia dividir momentos, podia dividir a relação…podiam dividir nós dois. E fizeram tudo isso. Não me sentia mais a mesma Paola desde então, e não sabia se daria risada de uma piada sem graça novamente. Aliás, esse era meu maior medo, já que o momento mais triste de uma piada sem graça é quando ela já não tem graça mais.

Presságio para a ruína é uma minissérie, dividida em dois textos. A outra parte você pode ler no Charme de Outrora.