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O humor de Jenésio (sim, com jota)

Sooooooooorrrrriaaaaaa, meu bem, soooooorrriiiiiaaaa

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Um cabelo preto e ondulado lambuzado de gel e brilhantina, jogados para o lado esquerdo do rosto; um par de óculos de armação fina e lentes grossas e um sorriso bobo que ligava uma orelha a outra de sua face redonda. Nunca um personagem foi tão fácil de descrever como o Jenésio com jota.

Em uma quente manhã de quarta-feira, em fevereiro de 1942, um funcionário disléxico estava de ressaca após celebrar o noivado no bar do Seu Epaminondas. Com a combinação de mente desidratada e dificuldades com letras, Jenésio fora registrado com jota. Mas isso não ia abalar o seu humor, uma pérola entre todos os cidadãos que eu conheço.

Jenésio não perdia o bom humor por nada nesse mundo. Até quando flagrou a ex-mulher na cama com o vizinho, Jenésio sorriu. Sorriu porque, mesmo sendo negro, o pinto do seu vizinho era pequeno. Jenésio também não perdeu o bom humor nem quando foi demitido do emprego por trocar os contratos, pois disse que essas cagadas acontecem.

No auge de seus 72 anos, Jenésio dizia que ia receber a Dona Morte de braços abertos para um chá com leite e, antes de morrer, ia perguntar para ela se não tinha um método menos ortodoxo para levar as pessoas para o outro lado. Dizia que a foice era um símbolo muito comunista para ele, enquanto todos riam com o espírito brincalhão daquele velhinho simpático que tingia o cabelo e usava o mesmo penteado que achou fantástico em Clark Gable.

Cansado da rotina, resolveu pegar seu Chevete 70 e descer para a praia, desfrutar aquele belo horizonte cheio de areia, água e bundas – vontade que foi despertada quando flagrou o neto fumando maconha com os amigos, e ouvindo Sublime. Abasteceu o tanque, fez as malas com algumas camisas e uma bermuda, pegou sua fita da Clara Nunes e disparou estrada afora, com o sorriso que lhe era tradicional.

Quando seu Jenésio saiu de São Bernardo, pronto para pegar a Imigrantes, o carro começou a dar os primeiros sinais de problemas, dando trancos tão pesados quanto os da égua xucra que montou uma vez. Deu seta e se retirou para o acostamento quando uma Tucson branca, em alta velocidade, passou raspando pela lateral do Chevetão levando o retrovisor embora.

– Ora bolas! – Jenésio coçou a cabeça meio confuso, mas dando risada – Por pouco não foi outra coisa.

Depois de parar, desceu do carro, abriu o triângulo e ativou o pisca alerta. Assobiando, se debruçou sobre o banco de passageiros para pegar o celular na lateral da porta. Quando foi discar para o filho, polícia ou até mesmo o guincho, a bateria acabou. Jenésio – com jota – ficou ali parado,  sem reação, olhando para o aparelho, quando outro carro passou em alta velocidade o assustando. Jenésio gritou e jogou o celular para cima, que se espatifou no asfalto da rodovia e foi atropelado pelos próximos veículos que passaram por ali.

Sem perder o sorriso, pegou um lanche que tinha feito e sentou no guard rail. Desembrulhou o sanduíche com muito cuidado, ajeitou os ingredientes dentro e deu uma generosa mordida. O presunto vencido e o queijo estragado o fizeram cuspir tudo para o matagal e jogar o resto ali por perto.

Passaram-se quase três horas e ninguém se importava em ajudar aquele velho senhor a chamar um guincho, a polícia ou seu filho, até que um carro com três belas mulheres pararam. Jenésio, que não era bobo nem nada, resolveu levar seus dotes de galanteador para as moças, que o acharam repulsivo e bateram em retirada. Mais duas horas no acostamento quando um Gol rebaixado, com dois manos ouvindo Racionais bem alto, parou para ajudar o senhor.

– Fica frio aí, tio, que nóis vai ajudar o sinhor, firmeza? – um deles falou, em dialeto incompreensível para Jenésio, que apenas assentiu com a cabeça.

Foi quando um carro parou com fúria um pouco mais à frente. Dele, desceu um carinha franzino que entrou correndo no Gol, deu a partida e sumiu. Os manos ficaram loucos e começaram a xingar no acostamento.

Jenésio não aguentou e se pôs a rir. O nervosismo já era iminente em sua gargalhada, mas ele ainda não tinha perdido o bom humor.

Os dois amigos que tinham parado para ajudar Jenésio se irritaram e perderam a cabeça; desceram a surra no velho e se mandaram para o bairro ali próximo, enquanto Jenésio jazia ensanguentado e sorridente no acostamento. Foi quando a polícia chegou para acudi-lo, junto com uma ambulância.

Durante a operação, um dos policiais pediu a Jenésio a habilitação. O senhor, ainda com dor, procurou dentro do carro. Nada. O policial começou a perder a paciência, enquanto o senhor recuperava sua sobriedade e parecia ignorar a dor – agora, sem nenhum sorriso no rosto.

Jenésio estava sem os documentos e isso já era o suficiente para o que o senhorzinho desse entrada na cadeia logo depois de sair do hospital.

Algum tempo depois, Jenésio entrou no bar em que estávamos reunidos, tomando uma cerveja.

– Que é isso, seu Jenésio, que cara é essa? – um de nossos amigos indagou, com um sorriso que seu Jenésio já estava habituado.

– Ora, vai tomar no seu cu, meu jovem – seu Jenésio retrucou sério e saindo do bar.

E foi assim que aquele senhorzinho simpático, de cabelo preto e ondulado lambuzado de gel e brilhantina, jogados para o lado esquerdo do rosto; um par de óculos de armação fina e lentes grossas e um sorriso bobo que ligava uma orelha a outra de sua face redonda nunca mais sorriu.

Bom, a Dona Morte já estava acostumada com senhores mal-humorados.

Mundo e vício sem verso nem inverso.

Cuidado ao matar os seus demônios
O equilíbrio vive entre a virtude e o vício
E a gente nunca sabe qual é o defeito
Que sustenta esse nosso edifício

– Vespas Mandarinas

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         Nem ambição, nem ganância. Desde que o mundo é mundo, quem o faz se mover na velocidade que quer, nos movimentos em que faz questão, é o vício.
Não os vícios coletivos, como aqueles de beber vodka com energético, ou de começar uma redação de vestibular direto na folha de resposta e com caneta esferográfica azul, mas sim o vício individual. O indivíduo, sendo peculiar à sua maneira, é capaz de criar seu próprio mundo, enquanto faz uso de seu vício para decorá-lo como se fosse uma sala. No caso dele, o mundo era uma grande sala branca, com um quadro, um sofá desgastado e uma mesa de mármore meio velha, com um cinzeiro bem ao centro. E o seu vício era o de chegar, todos os dias às sete da noite, acender um cigarro e sentar na ponta no sofá.
Fechava as janelas, as portas e qualquer oportunidade de deixar o ar circular. Não tragava, nem ao menos ameaçava fazer isso. Apenas colocava o cigarro na boca, acendia-o com brasas e depois, lentamente, o apoiava no cinzeiro de vidro, lembrança do pai. Mantinha a televisão desligada e continuava a admirar o cigarro queimando sorrateiramente, como uma vida tediosa de um cidadão de classe média normal, que se desgasta sempre da mesma forma.
Enquanto a fumaça tomava conta da sala, ele ficava ali tossindo e escarrando, como um suicida paciente, gesticulando, gemendo e chorando com aquele monte de toxinas na cara. Mas, tudo bem: era seu vício, era o que fazia o seu mundo continuar girando.
Assim que o cigarro terminava, abria as janelas, se pendurava nela e tentava, finalmente, se desvencilhar do sufoco que ele mesmo provocava. Depois, era hora de ligar a TV e exterminar um pacote do salgadinho mais vagabundo.
No andar de cima, ela preferia se trancar no quarto, mesmo morando sozinha. Odiava Alanis, mas ligava o rádio sempre em alguma música dela, do CD que havia gravado. Pegava a vassoura, que se passava de violão, e cantava usando o cabide como microfone. Fazia isso durante quarenta minutos. Dançava, balançava a cabeça. Todos os gestos que dificilmente Alanis faria durante seu show.
A persiana ficava extremamente fechada durante aquele tempo, pois tinha medo de que alguém pudesse vê-la. E tinha razão. No prédio da frente, um outro rapaz sempre apontava um telescópio para a sua janela, esperando a persiana ser baixada. E ficava ali por horas, perdido em pensamentos obscenos, imaginando se estaria nua, se estaria fazendo algo que não deveria fazer com as janelas abertas. Quando ela subia a persiana de novo, ele sabia que era a hora de parar e ir para seu computador jogar seus jogos online.
Aquela era apenas uma das ruas do mundo em que as pessoas conviviam, cada qual com seu vício, cada qual com seu mundo. Enquanto isso, eu passava a observá-los, um a um, e listar cronologicamente seus atos durante o dia.
Afinal, como um bom indivíduo, peculiar que só eu, eu tinha meu vício e tinha meu mundo. Que um ditasse então como o outro deveria girar e se mover no vago universo em que eu habitava.

A crônica de merda, pt. 2

Existe uma grande divergência sobre o que é rotina e o que é costume. Mas, para quem já foi vítima dos dois, tanto faz quem bate na sua porta. Qualquer uma dessas companhias é péssima.

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A rotina. O nome que batiza com fervor o nome do meu maior carrasco.
Moro longe de onde trabalho, acordo cedo para realizar minhas tarefas. Costumo, aliás, sair tarde delas e chegar – como dito na gíria – em casa moído.
Sim, é Rotina – com R maiúsculo – o nome de quem me torna um escravo sem muitas chances de receber alforria. Entretanto, não basta ela acertar as chibatas em mim a cada instante. O pior dos castigos se esconde atrás da porta.
Chego em casa, jogo o a mochila que desliza pelo chão arremesso as chaves na mesa. Ergo os braços para o céu em louvor a Deus. Mal abro os lábios e a voz me atinge de súbito, com um golpe sinistro e doloroso:
– Vai tomar banho logo para sair com os cachorros.
Droga, eu penso, não foi dessa vez que escapei de mais uma das punições da Sra. Rotina.
– Mas…mas… – vacilante, minha voz não sai. No máximo um breve apito, agudo que só, tentando se defender. Em vão.
– Não quero saber. Faz uns quatro dias que eles não saem. E mais a mais: o que você tem de tão importante para fazer que não quer levar os cachorros para passear?
Abaixo os braços. Meu louvor é adiado para um momento em que possa ser usado. O cenho se fecha, os lábios se apertam e o punho treme. O sangue sobe à cabeça – a de cima – e eu parto em direção ao banheiro lamuriando.
– E não adianta reclamar – a voz ia ficando cada vez mais rude e mais ameaçadora – você tem a obrigação de levar os quatro para a rua. Você que quis cachorro.
– Mas eu só quis um! – brado em defesa. O chicote estala mais forte no peito:
– Mas sou eu quem trata o seu cachorro. Vai, anda logo antes que escureça.
E assim eu vou, caminhando e cantando sem seguir canção nenhuma, deixando cada peça de roupa jogada pelo corredor enquanto me dirijo ao chuveiro porcaria que sempre queima.
Enquanto a água quente desce pelo corpo, a cabeça lentamente vai esfriando. Talvez eu engula melhor a ideia de pegar a coleira e levar os quatro para passear. Sei que a Rotina vai querer falar comigo sobre os problemas que ela teve hoje. Então, uma caminhada para distrair.
Lentamente um sorriso de aceitação se forma eu meu rosto. Me enxugo, troco de roupa e pego as coleiras.
– ‘Bora? – indago
– Eu não vou – a Rotina me responde secamente.
– E por que não?
– Trabalhei muito hoje. Não fico na internet que nem você. Ah, e só pra avisar: nada de ir até a esquina. Pode andar bastante.
Era isso! Em câmera lenta o sorriso vai se desfazendo. O cenho se fecha, os lábios se apertam e os punhos tremem. O sangue sobe de novo à cabeça.
Viro as costas e saio lentamente seguido pela matilha. Ergo lentamente as mãos para o céu, mas não em louvor. Apenas um eufemismo para puta que me pariu.

Bate-papos escrotos entre mãe e filho, the collection – vol. 1

Toda família é igual, mas também não é, como diria a frase de um célebre filósofo que tive o prazer de conhecer na vida. Tem aquela mãe maluca, aquele filho lesado, aquela mãe maconheira, aquele filho chapado, aquela mãe maluca e aquele filho que sabe que o narrador falou maluca duas vezes.
Enfim, esses são um dos relatos de conversas reais entre mãe e filhos que tive o prazer de inventar sozinho. Espero que se divirtam – ou não.

#001

– Mãe, mãe. Eu disse que gostava do Capitão América pro Pedrinho e ele me chamou de alienado pelo imperialismo norte americano.
– E o que você fez?
– Denunciei aquele comunista!

#002

– Filho…
– O que é, mãe?
– Larga as drogas e a bebida.
– Isso vai me fazer mal, você tá querendo dizer?
– Não, é que esse pacotinho é MEU.

#003

– Você não vai naquela festa promíscua.
– Eu moro num país livre, eu vou se eu quiser.
– Você mora num país livre?
– Moro!
– Então funde um partido libertário, porque eu acabei de me proclamar ditadora desta casa.

#004

– Mãe, o pai não tá respirando.
– É que o veneno da janta fez efeito…
– QUÊ?
– EU DISSE QUE ELE DEVE TER ALGUMA COISA NO PEITO, SEU SURDO!

#005

– Filho, o que é aquela droga que eu achei na sua mochila?
– Eu juro, mãe…nossa…é pra consumo e…bom, não é nem minha a maconha, é do Pauli…
– Que mané maconha. Tô falando daquela edição da Veja.

#006

– Mãe, aluguei filmes pra gente ver.
– Quais?
– Alvin e os Esquilos, Quero Ficar com Polly e Um Amor para Recordar.
– Seu fresco! Nada de Rambo?

#007

– Você é um inútil. Não presta pra nada.
– Mentira. Eu presto pra algo sim.
– Pra que?
– Pra atrapalhar sua vida.

#008

-Nossa, mãe, esse pessoal do Facebook anda muito babaca.
– Por que, filho?
– Ah, só sabem falar de futebol e…
– GOOOOOOOOOOOOOOOOL, PORRA, GOOOOOOOL DO MENGÃO!

Amor de tinta.

Um dos maiores questionamentos da humanidade é a existência ou não de Deus, ou de alguma entidade superior. O outro é porque o escritor capixaba Jean-Jacques se chamava Jean-Jacques.

Alguns questionavam se tinha a ver com Rousseau, mas muitos duvidavam que seus pais, por não saberem nem quem era colunista na revistinha local, saberiam quem era Rousseau, autor d’O Contrato Social. O fato é que ele era Jean-Jacques, de Vitória, e não se importava com os questionamentos do mistério do seu nome, apenas que era escritor.

Seguia o estereótipo solitário, melancólico e escrevia poesias e contos de amor não correspondido, todos ao embalo das tristes cantigas de Chris Isaak e sua sombria lamúria de que o mundo estaria em fogos e somente ela poderia lhe salvar.

Autor de linhas e mais linhas sobre este, então chamado amor platônico, porém pouco divulgado, Jean-Jacques abria suas garrafas de vinho, acendia a luz da vela e carregava a pena da caneta. Começava então a escrever.

Em seus últimos instantes sentado à mesa, começou a escrever sobre a bela Catarina, loira apaixonante que, além de levar o nome do lindo estado de Santa Catarina, tinha os traços da famosa mulher catarinense. Jean-Jacques se apaixonou de imediato por aquele sorriso sulista que o encantaria logo pela primeira vez. Da primeira vez que se encontraram foi numa praia durante uma viagem. Ah, aquela viagem maravilhosa ao Rio de Janeiro no Carnaval. O que fariam um capixaba e uma catarinense no Rio de Janeiro em pleno Carnaval? Admirariam a beleza da Cidade Maravilhosa esperando também encontrarem outras coisas maravilhosas. Encontraram.

Jean-Jacques encontrou-a sentada no quiosque tomando um suco, talvez fosse de abacaxi, e buscou uma cadeira próxima pedindo o mesmo que o da moça sem saber, apenas para puxar assunto. Surpresa mesmo foi saber que a linda moça quem puxara conversa.

– Vejo que também gosta de abacaxi.

– Eu adoro abacaxi.

– Eu não. Mas é porque eu preciso de algo um pouco azedo no meu paladar. Ando muito feliz, sabe – completou passando os lábios pelo canudo.

Jean-Jacques engoliu em seco. Não sabia o que responder, era bom apenas nas respostas de suas personagens e não suportava a ideia de ter que se considerar uma naquela resposta.

– O meu nome é Catarina, a propósito.

– Como o doce….

-…Como o doce e encantador estado ao Sul, sim – ela completou as palavras de sua boca.

– Eu sou Jean; Jean-Jacques, é francês…

– Como Rousseau?

– Dizem que sim. É um mistério. Assim como essa história dos elétrons também.

– Não ligo para elétrons. Eles são muitos negativos.

Riram juntos da piada idiota que ela acabara de contar sob a sombra das palhas que compunham o telhado do quiosque; o barman olhava com uma cara de reprovação, mas eles nem se importavam.

Jean-Jacques continuava a história de sua musa, aos goles do seu vinho e do som de Isaak que já cantava novamente que o mundo estava em chamas e ninguém poderia salvá-lo, a não ser ela.

Traço a traço de cada letra, designada com maestria pela mente apaixonada de Jean-Jacques, a história sobre Catarina desenrolara um romance que o sugava de corpo e alma papel adentro.

Narrou as passagens pela sua cidade. Pelas sujas praias do litoral paulista, pelos belos morros mineiros e até pela gélida Patagônia, por onde foram juntos quando prometeram fugir ao fim do mundo.

Jean-Jacques já não conseguia viver sem Catarina, sem sua doce imagem na lembrança. Não conseguia ficar sem descrever seu majestoso corpo e todo o circular formato de seu quadril. Estava hipnotizado e já a ouvia chamar.

– Jean-Jacques, seja meu.

– Sou seu, meu amor.

– Seja meu…

– Sou seu – respondia enquanto escrevia.

– De corpo e alma, Jean-Jacques

– De corpo e…

O disco pulara da vitrola. Isaak tinha cansado de ser salvo do mundo em chamas.

Por falar em chamas, a vela se apagara e tudo o que sobrara naquele quarto foram as manchas da tinta da pena no delicado papel, manchas curiosas que não hesitavam em mostrar um malicioso e sedutor sorriso feminino.

Quanto a Jean-Jacques, bem, dizem que a melhor história que qualquer escritor pode contar é ele mesmo.

Feliz bla bla bla dois mil e doze.

E o mais importante antes que eu me esqueça: mas que P*##@ são lentilhas? Ela nem tem gosto de nada…

A primeira coisa que eu faço no primeiro minuto do primeiro dia do novo ano é pensar -sim, só nesse instante.

A cada virada de ano, algumas pessoas reclamam que o ano foi a mesma coisa dos anteriores: a mesma rotina, o mesmo trabalho,os mesmos amigos, os mesmos parentes e a mesma falta de dinheiro. Aí, elas resolvem que celebrar um ano novinho em folha, a chance de mudar, vestido de branco, na orla da praia, enchendo a cara – igual fizeram nos anos anteriores – vai contribuir para que a mesmice se vá.

Talvez eu não tenha a voz da experiência em matéria de “Como Tornar o Seu Ano Novo Melhor”, mas neste único momento do ano que eu paro e penso, eu já quero dar uns conselhos para você não causar o papelão em 2013.

A primeira parte são as promessas de ano-novo, que toda tia faz, e nenhuma avó cumpre; regime, ser uma pessoa melhor, aceitar as diferenças, mudar de vida, viajar bastante, arrumar uma esposa/marido, começar minha pós-graduação e todas aquelas lamúrias que eu e você já nos flagramos escrevendo num papelzinho e pendurando na geladeira.

Bem, meu primeiro conselho é: SEJA SUSTENTÁVEL.

Você, mais uma vez, não vai cumprir bosta nenhuma, então, escreva tudo a lápis, marque os três primeiros algarismos do ano e vá trocando conforme os Réveillons vão passando. Você economiza papel, tempo e a natureza agradece.

O conselho número dois é: NÃO USE A ROUPA BRANCA.

O branco não é a cor da paz, é a cor do porra-nenhuma. Você usar branco mais uma vez, vai fazer sua vida passar em branco. Não, eu não tenho nenhum fundamento científico ou gnóstico para defender este argumento, mas é que eu acho ridículo aquela festa do branco em família. Eu passei de preto e bermuda florida azul e você nem pode falar que meu ano foi pior por isso porque ele nem começou direito.

A terceira parte já é mais gastronômica, então eu digo: NÃO SE EMPANTURRE DE COMIDA.

Você vai ter uma congistão, ou vai pegar intoxicação alimentar, capaz até de passar o Réveillon na cama de um hospital tomando soro. O problema nem é você ser internado, é estragar o ano-novo do médico e da enfermeira, afinal, eu te avisei para não comer tanto assim.

O quarto conselho vem por parte de família, e não é bem um conselho, é mais uma advertência para retardados de plantão: NÃO ESTOURE CHAMPANHE DENTRO DE CASA.

Você quer destruir uma lâmpada? Deixar cacos no chão para a criançada e o cachorro se machucarem, ou então, caso use aquelas fluorecentes, deixar mercúrio intoxicar toda sua casa? Estoure de preferência para a rua, longe do movimento. É, você vai sujar a rua e ir contra toda a sustentabilidade. Talvez o mais sensato seja não estourar.

O quinto é uma ciência exata, mas não custa reforçar que de nenhuma maneira você DEVE DEIXAR SEU TIO BÊBADO DISCURSAR.

Ele vai ofender alguém, ele vai falar merda, se acidentar dentro da sala ou pior ainda, caso você more em apartamento. Ele pode cair da sacada e levar a tia Susie – aquela gordinha que promete fazer regime, mas no dia 1 já comeu toda a geladeira – e não é uma cena agradável.

O sexto eu diria que é para controlar a criançada mimada. Como hoje estamos na era da internet e da chupanet, as crianças trocam a família pelo videogame, então, dica 6: TAQUE O XBOX 360 DO PRIMINHO PELA JANELA.

Além do moleque sossegar e parar de berrar, você acabou de usar um argumento racional, sem perder a paciência com as crianças para que todas saiam na foto com aquela tia aperta bocheca – que com certeza, vai ser a tia Susie.

E a dica número sete e talvez a principal: NÃO DEIXE QUE O SEU ANO SEJA NOVO, SEJA VOCÊ O NOVO.

O ano novo não traz mudanças sozinho. Ele é um capítulo, páginas em branco que você vai escrever conforme age ao longo dele. Então, não espere milagres, não o culpe se der tudo errado. Se quer realmente um ano novo, faça VOCÊ com tudo seja diferente.

A todos que tiveram a paciência de ler, um Feliz 2012. Aos que não leram, eu também desejo um feliz ano novo e nem vou xingar, afinal, parar de xingar é o primeiro item da minha lista sustentável de promessas.

Patrick Sabrino, le vingador

 

A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena

Madruga, Seu.

Essa aqui é a história de Patrick Sabrino, o vingador egoísta. A história de Patrick Sabrino não é muito conhecida na cidade em que eu nasci, tampouco na que eu moro, muito menos nas trezentas mil que eu tenho o sonho de morar um dia. A história de Patrick Sabrino, o vingador egoísta não é conhecida em porra de lugar nenhum, nem mesmo na casa da vizinha.

Mas quem me revelou detalhes dessa provável situação real foi minha vó, bem quando eu tinha meus sete ou oito anos e ficava sentado com ela na varanda, enquanto ela tricotava aqueles suéteres bregas que jamais um ser humano usaria – nem mesmo ela. A história era assim:

Diz que Patrick Sabrino sempre foi um cidadão direito, pomposo e disposto a ajudar o outro; mas como moramos no Brasil e conhecemos o Zé-Povinho adpeto da Lei de Gérson, Patrick Sabrino nunca se adaptou ao cenário urbano das capitais e olha que nem era por conta do nome. Patrick Sabrino, direito do jeito que era, sempre acabava passado para trás por algum propedeuta dos maus costumes. E assim caminhava Patrick Sabrino no ciclo social: a cada dois passos que dava para frente, as pessoas o faziam dar uns 12 para trás, coitado.

Um dia, cansado de todos esses sórdidos acontecimentos em sua nobre e correta conduta, Patrick Sabrino resolveu vingar-se de tudo e todos, em proporções devidamente exageradas contra o que era submetido todos os dias.

Se Patrick Sabrino namorasse e fosse traído, à noite costurava as regiões – indevidas para o horário- da moça que fizesse isso com ele. Correto, generoso e… cruel; assim Patrick Sabrino se tornou quando resolveu pôr a máscara do justiceiro particular e promover seu ego à principal razão dos movimentos de rotação e translação da Terra. Patrick Sabrino mudara.

A intolerância aumentou tão gradativamente que a primeira pessoa que Patrick Sabrino resolveu se vingar foi um colega de escritório. Era simples o causo: Patrick Sabrino ralava que nem um jumento carregando carroças de cenoura nas fazendas e seu amigo que fora promovido dando a si mesmo os devidos créditos por uma operação milionária. Patrick Sabrino simplesmente grampeou as mãos de seu colega a cheques sem fundo, além de escrever com marcador de CDs as palavras “bom” e “trabalho” na testa do meliante.

Patrick Sabrino queria revanche, queria devolver cada troco em suas devidas moedas. Aquele amigo que roubou a namorada de Patrick Sabrino teve o que mereceu. Enquanto dormiam, Patrick Sabrino invadiu a casa e colou suas partes íntimas com Super Bonder. A risada maléfica tomou conta da personalidade de nosso (anti)herói; ele não sabia mais a diferença entre uma pequena brecha (como diríamos nós, paulistanos) e uma grande punhalada nas costas. O ódio cresceu e se espalhou por suas veias.

E assim Patrick Sabrino seguiu seus dias: desforrando uma a uma as insatisfações de sua vida, as dores provocadas pelos outros.

Eis que um dia, Patrick Sabrino se surpreendeu e se apaixonou. Era Malva Maria, que apesar do nome, também tinha boa índole, como Patrick, o Sabrino.

Sua vida voltou ao normal, pelo menos era como achava. Descobrira uma pessoa que sabia não ser capaz de traí-lo nunca, de prejudicá-lo jamais e casou-se.

No dia de seu casamento, Patrick não compareceu por questões pessoais e sombrias e deixou Malva Maria sozinha no altar da Igreja. Quando caiu em si, Patrick Sabrino percebeu-se, pela primeira vez prejudicando alguém.

Triste, deprimido e acabado, como grande culpado e sem um motivo de vingança, sentiu-se desnorteado e acabou por sofrer do coração.

Patrick Sabrino morreu; pelo menos foi o que disse minha vó.

Se eu acredito nessa história, você me pergunta? Bom, nem um pouco.