Category: Desaforos

Calma, cara, é só uma folha

Sabe qual a diferença entre um pedaço de papel e uma tela em branco no computador? Pois é, na folha, a vida parece que toma forma melhor e mais rápido.

Sei lá se é porque o computador nos dá a possibilidade de revisar a cada linha, de editar sempre que dá vontade ou de simplesmente apagar tudo, abrir o Facebook e perder tempo vendo piadas sem graça ao invés de arrancar, amassar e jogar a folha longe e começar de novo. A diferença talvez seja essa: quando você deleta no computador, você não sai do lugar; no caderno, uma folha a menos é um espaço a menos. É como se fosse uma semana, cujo cada dia mal escrito e jogado fora te deixa sempre com menos para tentar de novo.

Eu comecei a escrever isso na folha de papel. Desisti. Ainda fui covarde de correr o risco de arrancar uma folha e jogar longe com um mero erro ou desgosto. Um amigo meu investiu muito tempo montando esse caderno; outro também, orçando para produzi-lo. Seria muita falta de consideração tratar o caderno com tanto descaso assim, com tantas vidas se esforçando para dar vida a ele. Inclusive a minha.

Eu pensei nessa comparação do papel, do computador e da vida quando me flagrei pensando em como eu fazia com meus dias. Todo dia eu escrevia a mesma história, com um ou outro detalhe diferente. Depois eu ia dormir sem nada novo, e acordava no dia seguinte esperando mais do mesmo, tentando contar a mesma história.

Hoje eu abri o caderno e pensei nisso. No começo esbocei uma frase.Odiei, mas me recusei a arrancar a página; apenas fechei o caderno e corri para a zona de conforto da tela branca.

Mas ainda assim eu relutava. O texto não saia e eu apagava, apagava, editava e apagava. Até que eu larguei mão e resolvi vir até aqui.

Confesso a vocês que parei em diversos momentos. Fui refém do Facebook, fui refém dos sites de piadas. Fui refém até do whatsapp e do celular. Fiquei um bom tempo parado até voltar aqui e ter que ler tudo que havia escrito e tentar recuperar o fio da meada.

Voltei e comecei a pensar em quantas folhas de caderno eu já teria desperdiçado a essa altura. A sensação de que talvez fossem muitas foi estranha. O coração acelerou e o peito começou a doer, fiquei sufocado por um tempo. Nesse intervalo, me imaginei dentro um caixão daqui uns anos.

Não era ruim. O ruim era quando eu fazia o caminho inverso, tipo Benjamin Button. Comecei a me imaginar velho, depois meia idade, depois um pouco mais adulto. O aperto ficou mais intenso e só foi interrompido quando voltei a pensar no caderno e nas suas folhas jogadas.

Caralho, pensei, nunca imaginei que eu tinha emoções tão complexas e que saltariam na tela no começo de um texto. Parei de novo e voltei para a internet.

Fiquei espiando através de uma tela a rotina alheia. Depois no celular, mesma coisa. O pior era que eu falava sozinho, igual quando eu era mais novo e conversava com os desenhos.

Eu bradava algo, mas nunca tinha uma resposta. Era apenas eu, a fala e a tela. Eu não passava de um telespectador.

Desisti e resolvi acabar esse texto assim mesmo. Talvez eu dê continuidade a isso no papel ou talvez escreva algo novo. Mas a certeza é deque antes, eu vou jogar no papel sem medo de rasgar a folha e jogá-la para cima.

Antes isso com a do caderno do que com a do calendário.

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Besteiras que dissemos

O fracasso e a falta de sorte teimam em se passar um pelo outro uma certa altura da vida. E é claro que nós, seres humanos imperfeitos e deslumbrados, tentamos criar uma teoria convincente que liste e destaque as principais diferenças entre um e outro. Pela minha experiência de vida, posso dizer que essa tentativa é a única que desmascara o fracasso contra a falta de sorte.

A questão em si é que, quando lidamos com esses pensamentos, que questionam a ferro e fogo, assumimos papeis de “um amigo de um amigo meu” para podermos relatar nossas frustrações, sem passarmos a vergonha e o olhar do julgamento do receptor. Ou mesmo daquele “puta merda, mas você é um fracassado”.

O Sandro não estava nos seus melhores momentos aos 25 anos. Tudo bem que ele tinha tudo que uma pessoa poderia querer nessa idade: contas de celular, contas de planos de internet com tv a cabo, faturas do cartão de crédito e um financiamento épico de um carro popular sem ar condicionado, mas nada disso chegava a melhorar sua autoestima em relação ao seu sucesso pessoal.

Seus principais passeios no final de semana era escolher o melhor petisco para acompanhar um episódio d’Os Simpsons e seu melhor amigo era um travesseiro velho, que se alimentava dos planos que Sandro fazia durante os sonhos.

Na última vez que havia saído, tinha reunido seus dois maiores amigos. Mas a falta de sorte começou a flertar de novo quando, numa mesa para quatro pessoas, a menina de um casal se sentou na cadeira ao lado da dele, passou a acariciar de maneira selvagem o namorado, sem ao menos se preocupar com os esbarrões que dava no moço enquanto ele tentava tomar sua Coca-Cola sem derramar na roupa. E para não reclamar de desgraça pouca, não tinha percebido que estava bem embaixo do ar condicionado.

A partir desse momento, a falta de sorte passou a ser uma companheira leal – e um pouco ciumenta – no dia a dia e, graças a ela, tudo passou a dar errado. Sandro começou a associar a atua fase com seu pensamento reprimido e falho de macho beta, associando o fracasso a um imã da falta de sorte.

Seu carro foi roubado com duzentas prestações pendentes e a fatura do cartão acumulava juros que ele nunca mais poderia pagar e isso o deixava cada vez mais desesperado. Não bebia por três anos, mas já era hora de pedir um uísque a um garçom qualquer.

Dentro do bar, sentou-se à mesa e percebeu que ela olhava do outro lado com seu cabelo que misturava os tons de castanho com os de loiro, jogados por sobre a armação dos óculos de intelectual. Lia alguma coisa do Bukowski que falava sobre porres, brigas, apostas em cavalos e um pouco de falta de sorte e fracasso.

Ela sorriu e ele s engasgou com o uísque, um bom truque do ciúmes da falta de sorte. Ele tossiu com as bochechas vermelhas e ela olhou assustada para aquela figura peculiar que estava quase morrendo.

Pulando todas as formalidades e os detalhes que não interessam, os dois passaram a conversar e sair juntos…para todos os lugares, qualquer hora do dia. E se falavam todo dia, sobre tudo e todos e até sobre si mesmos. Também tomavam porres e apostavam em cavalos, dividiam a falta de sorte e o fracasso. Foi assim por um tempo e, mesmo enciumada, a falta de sorte não conseguia chamar a atenção de Sandro.

Porra, os juros aumentavam, a companhia de internet cobrava a fatura sem mandar um técnico. E ainda tinha o carro roubado para pagar. Mas isso não importava enquanto o celular e os passeios se fizessem presentes no meio de tanta turbulência.

A vida era linda, assim como também era irônica. E em meio a tantas causas, efeitos, ações, reações e significados estudados por diversas ramificações da ciência – e também explicadas por todas as religiões do mundo – a falta de sorte teve sorte. Ao acaso, o fogo entre ambos cessou, deixando apenas cinzas e um pouco das saudades do pouco que viviam. Nem deu tempo de sentir saudades de algo maior, porque nunca foi além do nada que aquela relação se foi.

Desolado, Sandro apenas pensou se tudo aquilo era muita falta de sorte ou mais um fruto do fracasso. E nem sabia se era possível diferenciar um do outro. Apenas se calou, consentiu e jogou o celular fora. Tinha uma longa situação preta para contornar, causada pela sua falta de sorte. E se dependesse do fracasso, valia a adrenalina de saber se poderia resolver.

Essas são histórias que acontecem com amigos de amigos meus, que desejam muito algo que nunca vai passar do que é destinado a ser. E depois pode sentir falta mais de um ideal e de um pensamento do que de uma história em si.

E aí, quando a ficha cai, tudo à sua volta, ignorado por si mesmo, explodiu em montanhas de problemas que não têm mais como ser ignorados, apenas resolvidos. E nesse momento, você não sabe se tudo o que passou foi falta de sorte ou fracasso, mas se tentar justificar, vai entender que foi fracasso.

Refugo

A dificuldade de começar um conto, uma crônica, um ensaio, um artigo ou até mesmo o desabafo é grande. E isso nem é por conta da folha em branco, conforme aqueles milhões de listas de criatividade pintam.

Folhas em branco não são vilãs, tampouco criam obstáculos para uma dificuldade que começa naturalmente e vai, dia após dia, tomando corpo até gerar um curto circuito nos seus neurônios. Bom, eu não sei você, mas eu sou daquele tipo de pessoa que mastiga pensamentos, sonhos e passados mentalmente.

Parte disso eu culpo minha vó. É, a vida inteira ela passou me olhando sentado largado no sofá sem nenhuma preocupação na vida e proferiu a sentença que iria me assombrar pelo resto da vida:

– Cabeça vazia é a oficina do diabo.

Eu tinha medo do diabo e até hoje tenho. Então, para que ele não comece a produzir tridentes em alta escala dentro da minha cabeça e abra uma multinacional, eu começo a pensar. Mas aí eu junto tudo numa massaroca só. Vai da ex-namorada até os quinze reais que gastei ontem e não devia. Vai da briga que eu não deveria ter entrado até o dia em que eu não deveria ter ficado quieto. E as engrenagens do meu cérebro vão girando, desgastando meus neurônios e criando uma barreira que separa a minha aptidão de escrever merda da folha de papel em branco.

Hoje eu quis fugir à regra e dei uma chance pro demo promover um workshop. Sentei na cadeira na grama e resolvi não pensar em nada. Desliguei meu cérebro da mesma forma que se desliga um aparelho barulhento e que já começa a ameaçar uma pane. Escutei até o barulho do silêncio quando arquivei todos aqueles momentos do passado que eu estava remoendo.

Ah, que alegria que era calar a boca para mim mesmo. Por um momento eu pretendia ficar alheio e perder alguns minutos da vida sem saber se existia. A cada ameaça de pensamento, eu agia por instinto com um tapão na própria cara. Com as bochechas vermelhas e doloridas, já havia conseguido me convencer a guardar tudo para depois, ia apenas observar e respirar.

Vi um menininho passando com camiseta amarela. Ignorei as possíveis histórias de sua vida até então, ignorei também os motivos para ele sorrir tanto em cima de uma bicicleta. Depois, vi uma senhora bem gorda descendo a rua e se equilibrando para não cair. Também ignorei as possíveis causas de seu peso e a alegria de mostrar pro netinho que ainda conseguia se equilibrar contra a gravidade a puxando ladeira abaixo. Ignorei também o cachorro que cheirou as plantas do muro de casa e o motivo pelo qual ele queria brigar com minha poodle no portão. O capiroto deveria estar construindo uma cabana na minha cabeça, mas eu nem conseguia ouvir o barulho das serras, apenas o da minha respiração.

Comecei a perceber que respirava errado e tentei controlar o ritmo, sem pensar nele. Apenas tentando fazê-lo ter sintonia com os batimentos do meu coração. Consegui e sorri sem saber o motivo do porque estava sorrindo. Nem sabia se eu piscava, nem quantos minutos estava ali fora. Eu havia gostado da ideia de tentar ficar sem pensar em nada.

Pouco a pouco eu sentia como se flutuasse.Sentia uma leveza que eu não poderia explicar nem em um zilhão de anos. Era como se eu ignorasse todas as leis da física e voasse milímetros do chão que ainda estava encostado na minha bunda.

A tentação era grande, mas eu tinha que evitar questionar tudo aquilo. Já havia questionado demais tudo, todos e até mesmo as coisas que eu achava que poderiam acontecer e não aconteceram. Fiquei com aquela sensação por mais um tempo que eu não sabia o quanto havia sido.

Respirei fundo e me preparei para formular o primeiro pensamento desde então. Única coisa que me veio à cabeça foi um palavrão, um palavrão que funcionou mais com uma algema se quebrando do que como uma ofensa gratuita ao mundo. Era libertador, mais até do que tentar fugir dos problemas, como eu e várias outras pessoas tentávamos fazer dia após dia.

Eu não conseguia remoer nada, não conseguia questionar nada e também nem sabia se precisava de uma razão para isso. Comecei a pensar na criança, na velha e no cachorro. Comecei a pensar se conseguiria agora passar da folha em branco.

Escrevi sobre as poucas coisas que me preocupei pensar. Deixei a tela do computador desligada e evitei contato com a exposição midiática que as pessoas fazem de si mesmas na internet. Não abri páginas de livros e revistas justamente para não alimentar meu senso crítico com mais opiniões e argumentos.

Precisei me libertar de mim mesmo para poder começar a pensar em mim e formular meus próprios pensamentos. No fim das contas, deixar a cabeça aberta prum demônio qualquer fazer um workshop não foi ruim.

O foda é que eu ainda tenho medo dele, então nem vou tocar mais nesse assunto.

Do domingo em que eu desisti de querer ser um alfa e me assumi mais um do bando.

Um pouco de crise existencial faz bem. Uma pessoa que não passa por uma crise pessoal nunca vai conseguir saber o tamanho da merda que está fazendo.

Beta

 Quem me conhece sabe que escrever em primeira pessoa nunca foi minha praia. Como um típico macho beta, inútil, insignificante e existente aos milhares, eu não acreditava nem por um segundo que haveria interesse em falar de mim mesmo para alguém. E ainda como um bom macho beta, eu errei de novo.

Falar um pouco de você é bom, mesmo que ninguém leia. Especialmente quando você tem o costume de falar sobre as suas manhãs e tardes de domingo, o dia mais beta entre todos os betas.

O domingo, por sinal, nem deveria ser considerado um dia da semana, mas sim um estado de espírito abatido.

– Hey, quanto tempo sem te ver. Como você anda?

– Ah, eu ando meio domingo..

Ando meio chato, parado, apático, questionador, entediado, mas não quero acabar. É, domingo seria um bom adjetivo para um ser humano normal e chateado. Um ser humano beta.

O problema de ser um beta não é o fato de você realmente ser um, mas o da busca implacável por se tornar um alfa. Mulheres alfa, carros alfa, trabalho de alfa e fama de alfa, todos objetivos buscado incansavelmente por seres humanos limitados que acreditam que cada elogio o transforma num ser imortal, onipotente e admirado.

Olha, “ele é o meu melhor amigo” ou “que belo texto você escreveu na semana passada” não deveriam fazer de você o Dr. Phil, tampouco o Hunter Thompson. E um problema entre o betas – de ambos os sexos e de todas as classes – é o de acreditar que sua obrigação como ser humano é uma oportunidade de mudar seu status quo.

Comigo foi assim, com muita gente é. Poucos dos betas são cientes de sua limitação e poucos, mas poucos mesmos, são contentes com sua atual situação. Somos todos um bando de Ícaros que ao ver uma pequena asa aparecer nas costas tenta chegar bem perto do sol. E adivinha? Não dá.

Por que você acha que os primeiros aplicativos ou aparelhos lançados por empresas de tecnologia recebem a mesma nomenclatura da nossa classificação natural? Porque é uma forma de demonstrar que, apesar de lançada, aquela versão ainda contem falhas, erros e psicoses que precisam ser arrumadas. Bem como nós.

Mas para nós, por outro lado, não há mudança. Podem falar o que quiser, que podemos mudar para melhor, que podemos ser diferentes e podemos sempre fazer coisas que não fazíamos antes. Cada uma dessas mudanças é relacionada a um fracasso pessoal, uma escolha errada de tentar ser um alfa – ou próximo a isso.

O aspecto da mudança, em geral, é pautado pelas falhas recorrentes. Logo, mudar não significa mudar de fato, mas abrir mão de uma tentativa inútil de ser quem você não é. E no fim é tudo voltado ao mesmo discurso: de ser quem você é.

Eu levei algum tempo para descobrir que não ia ser nada além o que eu era. Não em termos financeiros, profissionais ou de determinadas cobranças que são impostas a todos no berço. Eu não seria nada além do que eu sou pessoalmente.

Se realmente existe vida após a morte, que essa minha versão beta seja corrigida da melhor forma possível enquanto eu conserto, em vida, as falhas que meu aplicativo demonstra. E se eu errar, não tem problema. Para quem já cansou de errar, nada do que começar a tentar fazer as coisas da maneira certa.

 

Equilíbrio

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A consciência é que nem uma balança. Ela não serve para nada, a não ser para pesar os gestos, as atitudes e os pensamentos bons ou ruins. Na verdade, eu acho até que a consciência não é algo abstrato ou invisível. Ela é a nossa própria cabeça. O que a faz pesar de um lado ou de outro – nossos ombros, talvez – é saber quem é o mais gordo, o anjinho tocador de harpa, ou o capeta cavanhaque de galã mexicano.

Enfim, é por isso que a gente busca tanto o equilíbrio. Não se trata de metáforas ou conotações poéticas, é um equilíbrio real que não faz pesar – e pensar – sobre uma coisa ou outra. E equilíbrio era o que eu precisava naquele momento. Um passo em falso tudo desabava para um abismo afunilado.

Os olhos se abriram, mesmo com o peso, e a garganta deu um nó apertado, daqueles que normalmente só se viam atados a âncoras nos navios cargueiros.

Segurei firme o bastão e tentei mover os dedos dentro do tênis. A atmosfera era de expectativa, mas tudo que eu ouvia eram sons graves e débeis. Enquanto isso, a primeira gota de suor escorria da testa para o olho direito. Caralho, como arde…e como desconcentra.

Dei um berro dentro de mim, olhei pra cima e apertei o bastão mais forte. Precisava recobrar os sentidos e concentração que perdi há poucos segundos. Minha irmã falava sobre o nirvana, sobre o estado profundo de espírito. Droga, eu pensei numa música do Nirvana e lá se foi minha concentração de novo.

Dei um tapa no ar sobre cada lado do ombro. Sai pra lá, anjinho; vaza daqui, capeta. Eu preciso de equilíbrio, do ponto de anulação entre o meu bem e o meu mal. Não preciso nem escutar esses sons graves e lentos mandando eu atravessar, batendo palmas. Eu precisava primeiro do equilíbrio, depois do incentivo. E foi o que fiz. Olhei dessa vez em frente e me senti leve. Não ouvia mais nada, não prestava atenção em nada, apenas no que estava a minha frente.

Segurei firme o bastão e atravessei a corda. O espetáculo do circo foi, mais uma vez, um tremendo sucesso. Que venham êxitos e culpas agora.

Mundo e vício sem verso nem inverso.

Cuidado ao matar os seus demônios
O equilíbrio vive entre a virtude e o vício
E a gente nunca sabe qual é o defeito
Que sustenta esse nosso edifício

– Vespas Mandarinas

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         Nem ambição, nem ganância. Desde que o mundo é mundo, quem o faz se mover na velocidade que quer, nos movimentos em que faz questão, é o vício.
Não os vícios coletivos, como aqueles de beber vodka com energético, ou de começar uma redação de vestibular direto na folha de resposta e com caneta esferográfica azul, mas sim o vício individual. O indivíduo, sendo peculiar à sua maneira, é capaz de criar seu próprio mundo, enquanto faz uso de seu vício para decorá-lo como se fosse uma sala. No caso dele, o mundo era uma grande sala branca, com um quadro, um sofá desgastado e uma mesa de mármore meio velha, com um cinzeiro bem ao centro. E o seu vício era o de chegar, todos os dias às sete da noite, acender um cigarro e sentar na ponta no sofá.
Fechava as janelas, as portas e qualquer oportunidade de deixar o ar circular. Não tragava, nem ao menos ameaçava fazer isso. Apenas colocava o cigarro na boca, acendia-o com brasas e depois, lentamente, o apoiava no cinzeiro de vidro, lembrança do pai. Mantinha a televisão desligada e continuava a admirar o cigarro queimando sorrateiramente, como uma vida tediosa de um cidadão de classe média normal, que se desgasta sempre da mesma forma.
Enquanto a fumaça tomava conta da sala, ele ficava ali tossindo e escarrando, como um suicida paciente, gesticulando, gemendo e chorando com aquele monte de toxinas na cara. Mas, tudo bem: era seu vício, era o que fazia o seu mundo continuar girando.
Assim que o cigarro terminava, abria as janelas, se pendurava nela e tentava, finalmente, se desvencilhar do sufoco que ele mesmo provocava. Depois, era hora de ligar a TV e exterminar um pacote do salgadinho mais vagabundo.
No andar de cima, ela preferia se trancar no quarto, mesmo morando sozinha. Odiava Alanis, mas ligava o rádio sempre em alguma música dela, do CD que havia gravado. Pegava a vassoura, que se passava de violão, e cantava usando o cabide como microfone. Fazia isso durante quarenta minutos. Dançava, balançava a cabeça. Todos os gestos que dificilmente Alanis faria durante seu show.
A persiana ficava extremamente fechada durante aquele tempo, pois tinha medo de que alguém pudesse vê-la. E tinha razão. No prédio da frente, um outro rapaz sempre apontava um telescópio para a sua janela, esperando a persiana ser baixada. E ficava ali por horas, perdido em pensamentos obscenos, imaginando se estaria nua, se estaria fazendo algo que não deveria fazer com as janelas abertas. Quando ela subia a persiana de novo, ele sabia que era a hora de parar e ir para seu computador jogar seus jogos online.
Aquela era apenas uma das ruas do mundo em que as pessoas conviviam, cada qual com seu vício, cada qual com seu mundo. Enquanto isso, eu passava a observá-los, um a um, e listar cronologicamente seus atos durante o dia.
Afinal, como um bom indivíduo, peculiar que só eu, eu tinha meu vício e tinha meu mundo. Que um ditasse então como o outro deveria girar e se mover no vago universo em que eu habitava.

Às sete horas…

Eu preciso de um amigo pra achar minha mente danificada, antes que ela caia aos pedaços
– Billy Talent

Às sete horas da manhã, enquanto algumas famílias ainda se reuniam para tomar café, Jairo batia o cobertor na grade de ferro e esticava o papelão de volta na parede do antigo fórum. Acendeu o último cigarro que tinha, sentou no chão e esperou pela companhia do Adalberto, que vinha atravessando a rua com seu papelão e também com seu cobertor.
– Hoje esfriou, né, cumpadi? – disse Jairo, enquanto se encolhia no canto.
– É, hoje tá foda, amigo.
– Vai uma pinguinha aí?
– Ah, não, obrigado. Hoje eu tô sauve – Adalberto gemeu, esticando o papelão ao lado do amigo.
A praça Frei Baraúna era grande, mas os dois mendigos amigos faziam questão de ficarem, um ao lado do outro, sentados na parede de trás do antigo fórum. Pelo menos lá eles tinham uma vista melhor do comércio, dos carros e dos pequenos guardas, coisas que costumavam olhar com mais frequência no dia a dia. Jairo era um dos mais renomados jornalistas do sul do país, mas resolvera largar tudo depois que viu a esposa fugindo para a capital com um personal trainner. O seu companheiro, Adalberto, sempre viveu nas ruas atrás de um prato de comida.
– Lá vai o guarda gordinho de novo, Adalberto – Jairo apontou – me fala se não parece uma foca se debatendo.
Jairo mantinha carinho por Adalberto. Apesar de hoje viver na rua, foi o amigo quem o encontrou caído, bêbado, próximo da rodoviária. Não tinha um teto para dividir, mas funcionou para o amigo como uma clínica de reabilitação. Deu tão certo que Jairo se livrou dos três maiores vícios: a bebida, o apego ao passado promissor e a mania de ligar para a ex-mulher depois de umas duas garrafas de conhaques.
Eles riam do guarda gordo, que corria se debatendo atrás de um grupo de adolescentes com latas de tinta spray. “Foda-se o sistema”, eles pixavam nas paredes do antigo fórum. E que se fodesse mesmo o sistema, aquele que fodeu com Jairo e com Adalberto, mesmo que esse último talvez nem soubesse do que se tratava.
– Quantos anos você tem, Adalberto?
– Tenho 31. Fiz semana passada.
– Ah, é. Eu nem lembrava quantos anos eram, apenas que era seu aniversário. Me sinto um péssimo amigo.
– Imagina, Jairo. Você é o meu maior amigo.
Jairo fitou o amigo por mais alguns momentos. No auge dos seus 48 anos, voltou a sorrir de novo por entre aquela barba branca, comprida e suja.
– Vou aceitar a pinguinha agora – Adalberto se debruçava para pegar a moringa.
Ele fitava os movimentos descoordenados do amigo. Via ali o retrato de alguém que nunca teve nada na vida, nem carro, nem casa, nem graduação, nem os maiores prêmios que um dia fizeram parte da prateleira de Jairo. E ainda assim parecia feliz. Era impossível tirar algo de alguém que nunca teve nada, oposto ao que ele viveu: viu ser tirado dele tudo o que conseguira. E essa dor, ele entendia agora, teria que lidar com ela antes que ela o liquidasse.
Se levantou, pegou as últimas moedas e foi na direção do bar do chinês. Comprou uma coxinha fria, acendeu um fósforo e enfiou na comida. Entregou ao amigo.
– Feliz aniversário atrasado. A um grande homem que nunca teve nada na vida, além do essencial para um homem viver em paz.
– Poxa, Jairo, obrigado. E o que seria essa coisa? – Adalberto fitava a coxinha trêmulo e feliz.
– Caráter, meu amigo. Um grande caráter. Agora ali o gordo apanhando ha ha ha.
E dividiram a coxinha, a pinga e as risadas. O guarda gordinho tomava socos e chutes de todos os jovens. Era só mais uma tarde comum ali na Frei Baraúna.