Category: Crônica

O humor de Jenésio (sim, com jota)

Sooooooooorrrrriaaaaaa, meu bem, soooooorrriiiiiaaaa

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Um cabelo preto e ondulado lambuzado de gel e brilhantina, jogados para o lado esquerdo do rosto; um par de óculos de armação fina e lentes grossas e um sorriso bobo que ligava uma orelha a outra de sua face redonda. Nunca um personagem foi tão fácil de descrever como o Jenésio com jota.

Em uma quente manhã de quarta-feira, em fevereiro de 1942, um funcionário disléxico estava de ressaca após celebrar o noivado no bar do Seu Epaminondas. Com a combinação de mente desidratada e dificuldades com letras, Jenésio fora registrado com jota. Mas isso não ia abalar o seu humor, uma pérola entre todos os cidadãos que eu conheço.

Jenésio não perdia o bom humor por nada nesse mundo. Até quando flagrou a ex-mulher na cama com o vizinho, Jenésio sorriu. Sorriu porque, mesmo sendo negro, o pinto do seu vizinho era pequeno. Jenésio também não perdeu o bom humor nem quando foi demitido do emprego por trocar os contratos, pois disse que essas cagadas acontecem.

No auge de seus 72 anos, Jenésio dizia que ia receber a Dona Morte de braços abertos para um chá com leite e, antes de morrer, ia perguntar para ela se não tinha um método menos ortodoxo para levar as pessoas para o outro lado. Dizia que a foice era um símbolo muito comunista para ele, enquanto todos riam com o espírito brincalhão daquele velhinho simpático que tingia o cabelo e usava o mesmo penteado que achou fantástico em Clark Gable.

Cansado da rotina, resolveu pegar seu Chevete 70 e descer para a praia, desfrutar aquele belo horizonte cheio de areia, água e bundas – vontade que foi despertada quando flagrou o neto fumando maconha com os amigos, e ouvindo Sublime. Abasteceu o tanque, fez as malas com algumas camisas e uma bermuda, pegou sua fita da Clara Nunes e disparou estrada afora, com o sorriso que lhe era tradicional.

Quando seu Jenésio saiu de São Bernardo, pronto para pegar a Imigrantes, o carro começou a dar os primeiros sinais de problemas, dando trancos tão pesados quanto os da égua xucra que montou uma vez. Deu seta e se retirou para o acostamento quando uma Tucson branca, em alta velocidade, passou raspando pela lateral do Chevetão levando o retrovisor embora.

– Ora bolas! – Jenésio coçou a cabeça meio confuso, mas dando risada – Por pouco não foi outra coisa.

Depois de parar, desceu do carro, abriu o triângulo e ativou o pisca alerta. Assobiando, se debruçou sobre o banco de passageiros para pegar o celular na lateral da porta. Quando foi discar para o filho, polícia ou até mesmo o guincho, a bateria acabou. Jenésio – com jota – ficou ali parado,  sem reação, olhando para o aparelho, quando outro carro passou em alta velocidade o assustando. Jenésio gritou e jogou o celular para cima, que se espatifou no asfalto da rodovia e foi atropelado pelos próximos veículos que passaram por ali.

Sem perder o sorriso, pegou um lanche que tinha feito e sentou no guard rail. Desembrulhou o sanduíche com muito cuidado, ajeitou os ingredientes dentro e deu uma generosa mordida. O presunto vencido e o queijo estragado o fizeram cuspir tudo para o matagal e jogar o resto ali por perto.

Passaram-se quase três horas e ninguém se importava em ajudar aquele velho senhor a chamar um guincho, a polícia ou seu filho, até que um carro com três belas mulheres pararam. Jenésio, que não era bobo nem nada, resolveu levar seus dotes de galanteador para as moças, que o acharam repulsivo e bateram em retirada. Mais duas horas no acostamento quando um Gol rebaixado, com dois manos ouvindo Racionais bem alto, parou para ajudar o senhor.

– Fica frio aí, tio, que nóis vai ajudar o sinhor, firmeza? – um deles falou, em dialeto incompreensível para Jenésio, que apenas assentiu com a cabeça.

Foi quando um carro parou com fúria um pouco mais à frente. Dele, desceu um carinha franzino que entrou correndo no Gol, deu a partida e sumiu. Os manos ficaram loucos e começaram a xingar no acostamento.

Jenésio não aguentou e se pôs a rir. O nervosismo já era iminente em sua gargalhada, mas ele ainda não tinha perdido o bom humor.

Os dois amigos que tinham parado para ajudar Jenésio se irritaram e perderam a cabeça; desceram a surra no velho e se mandaram para o bairro ali próximo, enquanto Jenésio jazia ensanguentado e sorridente no acostamento. Foi quando a polícia chegou para acudi-lo, junto com uma ambulância.

Durante a operação, um dos policiais pediu a Jenésio a habilitação. O senhor, ainda com dor, procurou dentro do carro. Nada. O policial começou a perder a paciência, enquanto o senhor recuperava sua sobriedade e parecia ignorar a dor – agora, sem nenhum sorriso no rosto.

Jenésio estava sem os documentos e isso já era o suficiente para o que o senhorzinho desse entrada na cadeia logo depois de sair do hospital.

Algum tempo depois, Jenésio entrou no bar em que estávamos reunidos, tomando uma cerveja.

– Que é isso, seu Jenésio, que cara é essa? – um de nossos amigos indagou, com um sorriso que seu Jenésio já estava habituado.

– Ora, vai tomar no seu cu, meu jovem – seu Jenésio retrucou sério e saindo do bar.

E foi assim que aquele senhorzinho simpático, de cabelo preto e ondulado lambuzado de gel e brilhantina, jogados para o lado esquerdo do rosto; um par de óculos de armação fina e lentes grossas e um sorriso bobo que ligava uma orelha a outra de sua face redonda nunca mais sorriu.

Bom, a Dona Morte já estava acostumada com senhores mal-humorados.

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YOLO

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Acordei tarde naquele domingo com a luz do sol entrando por uma fresta da minha janela e o tic tac do relógio no criado mudo ao meu lado direito. Eram mais de onze horas da manhã, o que queria também dizer que eu tinha dormido por mais de doze horas ininterruptas.

Merda, eu odiava dormir. Por mais que eu acordasse cansado e desejando ficar mais tempo na cama, achava um desperdício enorme dedicar 12 horas da minha vida a um colchão e a um travesseiro.

Levantei calmamente e fui até o banheiro escovar meus dentes e dar uma mijava; depois disso, comecei a pensar, voltaria para o quarto, arrumaria a cama e trocaria de roupa. O tempo estimado para cumprir todas essas pequenas tarefas obrigatórias da manhã era de 10 minutos e eu já podia dizer que o domingo mal começara e eu já tinha perdido 12 horas e 10 minutos em atividades estúpidas ou 12 horas e 11 minutos, contando o minuto que eu perdi pensando em tudo isso. Terminei todas essas tarefas e fui para a cozinha para preparar o café, que levaria um tempo estimado de cinco ou sete minutos para ficar pronto, totalizando 12 horas e 18 minutos da minha vida, que eu poderia estar pulando de pára-quedas, fazendo uma viagem até o litoral norte, mas que eu estava gastando no domingo cedo.

Sentei-me à mesa com a xícara em mãos e comecei a gastar mais alguns minutos em pensamentos inúteis. Acredito que foi cerca de 15 minutos extasiado em meus próprios devaneios e epifanias, totalizando 12 horas e 23 minutos da minha vida. Eu sei que parece paranoico ficar contando o tempo dessa forma e que também soa como tortura pensar em outras coisas mais intensas que poderíamos fazer nesse tempo. Sei que soa também um pouco louco falar sobre tudo isso e continuar sentado com a xícara de café, sem fazer nada para que aquela manhã fosse diferente. Mas a verdade é essa, o tempo é como uma companheira insatisfeita e apressada, que vive tentando fazer você acompanhar o ritmo. Só que ela não para, ela não descansa. E você, cada vez que para e tenta recuperar o fôlego, acaba ficando mais para trás.

Eu nunca somei quantas horas nós temos de estimativa de vida, também nunca quis perder meu tempo fazendo essas contas. Eu já o perdia demais trabalhando por 40 horas semanais, dormindo por 56 horas semanais e assistindo televisão nos horários restantes.

Terminei o meu café e resolvi escrever um textinho sobre todo esse tempo no caderno, levando praticamente uns 20 minutos, depois mais uns 10 para passar a limpo no computador. Nesse meio tempo, gastei 3 minutos ouvindo Baby Blue, do Badfinger e depois mais 3 ouvindo de novo, perdendo a chance de ouvir uma música diferente.

Não importava qual decisão eu tomava naquele momento, eu sabia que ele ia me custar um tempo que eu não ia recuperar. Então, para não perder tempo pensando, eu preferia fazer por conta própria e sem pensar muito.

Terminei o texto de qualquer jeito, pouco me importando se ele estava legal ou não. O sol que me acordou brilhava bonito e eu pretendia gastar alguns minutos do domingo andando com meus cães. Afinal, mesmo que você só viva uma vez, é legal se sentir vivendo a cada minuto.

 

Quando a Barra Afunda.

Rotina é uma desculpa esfarrapada, travestida de estado de espírito, para quando a alma não tem vontade de fazer mais nada.

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Nos últimos quatro ou cinco meses a minha rotina já não me permitia mais acreditar nos conceitos de liberdade individual. Nada daquele falatório clássico e universal de viagens ao redor do mundo, desapego dos bens materiais ou então aproveitar duas horas da sua vida para ler ou curtir um bom filme.

Todos esses momentos eu perdia no trânsito entre a Paulista e o ABC; achava até que era uma questão de fazer as contas no caderno para ver quantos anos eu perdi da minha vida só sentado no meu carro, ouvindo o mesmo cd de sempre, com as mesmas buzinas de background.

Não era casado, mas tinha, há muito tempo, juntado as escovas com ela. Tínhamos nos conhecido no colegial e desde então assumimos o compromisso que fez com que a gente alugasse um apartamento perto da linha do trem de São Caetano do Sul. Ela tinha saído de seu emprego, descontente com a profissão, e eu continuava engolindo bosta apenas para manter as contas quitadas antes da data de validade.

Foi uma quinta-feira quando eu cheguei em casa às quatro horas da manhã que o que já era ruim começou a se tornar insuportável. Lidei com 10 horas diretas de trabalho, um pouco do trânsito na madrugada e uma batida policial na única entrada da cidade. Entrei no escuro sendo recebido pelo efusivo Max e uma saraivada de palavras ásperas e duras.

–       Obrigada por me deixar esperando até essa hora, de ter desmarcado nosso cinema, de não levar essa porcaria de animal pra dar uma volta.

–       Não tive outra opção, eles precisavam de mim.

O argumento foi em vão. E a pior coisa que você pode fazer ao chegar às quatro da manhã cansado, sem saber direito onde está pisando, é usar um argumento em vão. Verdade até que eu nunca fui bom em argumentos. Nunca ganhei uma discussão sobre futebol com meus amigos, nem ao menos consegui enfiar na cabeça daqueles caras na internet que achava Karl Marx um bundão. Nem consegui ao menos uma prova concreta a favor do meu humorista favorito, que desagradou uma galera com uma piada ruim. Não eram às quatro da manhã que eu teria argumento para discutir com ela.

–       Eu sei que você trabalhou até tarde, mas não é possível que seja todo dia. E eu, como fico?

–       Você fica em casa esperando eu chegar – disse batendo a porta do banheiro e sonhando com um pouco de água quente. Mas ela não ia desistir.

Eu não vou entrar em detalhes, nem reproduzir os diálogos e as ofensas que seguiram até umas sete horas, mais ou menos. Lembro-me apenas que depois de tudo, ela arrumou suas malas e me pediu que eu a levasse até a Barra Funda, de onde iria voltar para a casa dos pais. A rodoviária de São Caetano era ali perto e o trem também faria essa trajetória, mas para evitar mais discussões, preferi ceder e leva-la até lá.

Quatro ou cinco meses se passaram desde então e a rotina, claro, ainda não me permite mais viver como nos discursos espalhados pela internet e pelas revistas de moda feminina por aí. Mas a vantagem é que agora, mesmo perdendo parte da minha vida no trânsito e chegando em casa tarde, às quatro da manhã, o Max ainda tá feliz em me ver. Ah, ele é um vira-lata que eu achei abandonado na frente da agência, mas isso já é uma outra história.

Equilíbrio

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A consciência é que nem uma balança. Ela não serve para nada, a não ser para pesar os gestos, as atitudes e os pensamentos bons ou ruins. Na verdade, eu acho até que a consciência não é algo abstrato ou invisível. Ela é a nossa própria cabeça. O que a faz pesar de um lado ou de outro – nossos ombros, talvez – é saber quem é o mais gordo, o anjinho tocador de harpa, ou o capeta cavanhaque de galã mexicano.

Enfim, é por isso que a gente busca tanto o equilíbrio. Não se trata de metáforas ou conotações poéticas, é um equilíbrio real que não faz pesar – e pensar – sobre uma coisa ou outra. E equilíbrio era o que eu precisava naquele momento. Um passo em falso tudo desabava para um abismo afunilado.

Os olhos se abriram, mesmo com o peso, e a garganta deu um nó apertado, daqueles que normalmente só se viam atados a âncoras nos navios cargueiros.

Segurei firme o bastão e tentei mover os dedos dentro do tênis. A atmosfera era de expectativa, mas tudo que eu ouvia eram sons graves e débeis. Enquanto isso, a primeira gota de suor escorria da testa para o olho direito. Caralho, como arde…e como desconcentra.

Dei um berro dentro de mim, olhei pra cima e apertei o bastão mais forte. Precisava recobrar os sentidos e concentração que perdi há poucos segundos. Minha irmã falava sobre o nirvana, sobre o estado profundo de espírito. Droga, eu pensei numa música do Nirvana e lá se foi minha concentração de novo.

Dei um tapa no ar sobre cada lado do ombro. Sai pra lá, anjinho; vaza daqui, capeta. Eu preciso de equilíbrio, do ponto de anulação entre o meu bem e o meu mal. Não preciso nem escutar esses sons graves e lentos mandando eu atravessar, batendo palmas. Eu precisava primeiro do equilíbrio, depois do incentivo. E foi o que fiz. Olhei dessa vez em frente e me senti leve. Não ouvia mais nada, não prestava atenção em nada, apenas no que estava a minha frente.

Segurei firme o bastão e atravessei a corda. O espetáculo do circo foi, mais uma vez, um tremendo sucesso. Que venham êxitos e culpas agora.

Pastel de Moyashi

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Fazia um calor intenso naquela noite em que a colônia japonesa celebrava seus tantos anos de imigração. E o clima se tornava ainda mais abafado por conta das fumaças das panelas, fritadeiras e do grito caloroso dos descendentes vendendo seus pratos.

Sentado em frente a uma das barracas estava Alfredo, um cidadão médio e solitário que aproveitava os minutos depois do trabalho para apreciar um lámen acompanhado da queima de fogos e da tradicional cultura oriental. Continuava a comer enquanto se animava com aquele monte de gente feliz, idosos japoneses que choravam de alegria relembrando a Terra do Sol Nascente, e crianças que se penduravam no braço dos avôs, sem saber como era o lugar de onde herdaram seus olhinhos puxados e toda aquela disciplina que dava inveja a todos nós.

Foi quando ela se aproximou, parou ao seu lado e pediu alguma coisa. Ela não olhou para o lado, mas Alfredo parou tão instantâneo quanto o miojo para encarar seus cabelos loiros, quase brancos. Eles, sem dúvida alguma eram mais chamativos que os fogos.

Alfredo olhava de canto dos olhos enquanto ela sorria para um dos japoneses da barraca e recolhia suas fichas. Assim que ela percebeu, puxou a cadeira mais próxima, se sentou e olhou para ele. Suas bochechas coraram e ele passou a olhar para dentro da tigela.

– Olha, não precisa ter vergonha de mim – disse abrindo um sorriso.

– Mas…eu…não tô com vergonha. Nem sei de onde você tirou isso – ele respondeu ainda olhando para dentro da tigela.

– Ah, para de ladainha, amigo. Suas bochechas não iam ficar vermelhas de repente. Bem, quer dizer, a menos que tivesse pimenta nisso aí que você tá comendo.

– Não, não tem…

-…pimenta. Eu sei que não tem pimenta. Isso é vergonha, sim. E fica tranquilo, não vou te morder.

Timidez é uma merda. Timidez é um sentimento sem vergonha, em que sua própria explicação é tímida. Minha vó já dizia que só sofre de timidez quem não tem coragem de mostrar seus olhos para o mundo. E se existe algo que um ser humano deveria sentir vergonha é de esconder o seu olhar, ainda mais para quem realmente se interessa em reperá-lo, ver qual cor ele realmente é. Alfredo, assim como eu, era assim, tímido que só, com vergonha de mostrar o olhar e a gente já sabe que timidez e vergonha são dignas de pena. Ainda assim ele olhou. De cabeça baixa, mas olhou.

– Eu acho que te conheço de algum lugar – ela tentava ainda assim quebrar aquela barreira de bochechas coradas e olhares escondidos.

– É bem provável, eu vivo perambulando por aí.

– Cara, eu tô falando sério. Deixa eu ver seus olhos.

Alfredo se virou, pateticamente. O olhar de ambos se cruzaram, é verdade, mas o dela atravessou sua barreira como uma lança venenosa. Alfredo travou, assim como sua respiração que balbuciou por alguns instantes. Não conseguia mais se esconder, era tarde demais, já a havia olhado nos olhos. E sua timidez refratou naquele golpe, fazendo com que ele abaixasse a tigela e esboçasse um sorriso pateta.

A conversa durou quase o resto da feira inteira, debaixo de fogos e de gritos dos japoneses que ainda vendiam seus pratos. Entre um papo e outro, Alfredo ficava cada vez mais bobo, encontrava um pouco de si em cada palavra pronunciada, em cada história débil que compartilhavam. Ela estendeu um cartãozinho e disse para ligar um dia, eles podiam terminar essa conversa em outro lugar.

Ah, o fim da solidão. O fim dos julgamentos. O peso da timidez caiu, aliviando os ombros de Alfredo, que há tempos não havia se sentido tão bem daquele jeito. Chegou em casa cantando, o que não fazia há dias.

Ao se ver no espelho, antes do banho, teve a surpresa. Viu seu cabelo loiro, quase branco. Mas ao invés de ver sua imagem, viu a dela. O mesmo olhar, o mesmo sorriso.

Naquele instante Alfredo compreendeu. Se viu fisgado por si mesmo, por quem realmente era. Com exceção, talvez, dos defeitos que sempre fez prevalecer para si mesmo.

Uma canção para a liberdade

Chasing down some blue sky in my old truck
Tune the world out, turn the radio up
Sing along to my freedom song

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A roupa espalhada no chão do quarto, camisa após calça, meia após cueca, denunciavam o quanto aquela ducha iria lavar a alma de Frank depois de dois turnos seguidos. A luz do banheiro queimava, de maneira incandescente, enquanto o vapor da água tomava conta do ambiente. Bem de leve, ao fundo, ouvia-se baixinho um trecho do último hit do Blackberry Smoke.
O cheque de trezentos reais jazia no bolso de trás da calça e reluzia em contraste com o piso frio de ardósia na qual Frank pisava. Enxugou o rosto e suspirou firme antes de vê-lo chamando direto pelo piso. A música continuava tocando ao fundo.
Trezentos reais, Frank pensou. Uma rotina desgraçada em troca de um cheque, que ficaria quase que integralmente nas mãos da ex-mulher, aquela desgraçada. Sacudiu um pouco os cabelos grisalhos e olhou de novo para o cheque.
Como um ser humano comum e dotados de defeitos e pecados, um cifrão anotado próximo algumas centenas eram o suficiente para prenderem a sua atenção por um longo período. E esses mesmos defeitos e falhas seriam os suficientes para que, de uma hora pra outra, a insanidade saísse de sua mente. Tomado pelo desejo alimentado pelo dinheiro, Frank pegou o cheque e partiu em direção ao velho guarda-roupas.
Pegou a camiseta surrada do ZZ Top e aquela velha camisa flanelada que ganhara da vagabunda anos antes. Vestiu o boné de tela preto e branco, uma calça jeans gasta e as velhas botas caramelo. Trezentos reais e as chaves do caminhão eram tudo o que ele precisava para finalmente sair de casa. E era o que ia fazer.
Se a vida era organizada pelas noções de tempo e espaço, Frank agora colocaria mais algum valor numérico na equação. Não sabia para onde iria, nem quanto tempo planejava ficar fora. Iria para onde aqueles trezentos mangos – mais algumas economias – o pudessem levar.
Colocou Deus do lado direito do retrovisor e a filha ao esquerdo. Fez o último sinal da cruz e
pegou a estrada que dava sentido à sua nova vida. E, como sempre, a música nova do Blackberry Smoke tocando. Acelerou o velho Scania e seguiu pela faixa da direita, costurando alguns poucos amigos, que cumprimentava com a potente buzina. Todos saudavam em resposta alegre, como se concordassem com a decisão que havia tomado.
Quando Frank passou a fronteira entre São Paulo e Paraná, agarrou o cheque, picotou com as próprias mãos e jogou pela ponte. A vida era realmente manipulada pelo tempo e pelo espaço. Não ia ser agora que o dinheiro iria ditar quando e onde parar.
E se a ex-mulher também precisasse do dinheiro, Frank pensava, o que não faltavam na cidade que morava eram esquinas. E lá se foi Frank, numa estrada empoeirada, sozinho, com Deus e a filha no espelho e quatro barbudos no rádio. A vida faria sentido enquanto o Scania ainda quisesse percorrê-la.

Um cidadão médio, de vida média.

Foto aleatória que tirei em São Paulo

Foto aleatória que tirei em São Paulo

Um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer que as coisas não pareçam o que são.
Miguel de Cervantes

Sonho todas as noites que sou um escritor famoso, que autografo volumes e mais volumes em livrarias do país todo, que tiro foto com fãs de todas as regiões, que tenho minhas obras traduzidas em diversos idiomas, me tornando um expoente da literatura não mundial, mas universal.
Mas, ao contrário de grandes escritores, não consigo me imaginar protagonista de nada. Não suporto, por mais que já tenha tentado, me tornar o centro das atenções, não consigo nem ao menos achar que alguém se importaria em saber como cheguei a essa idade com tantos demônios fanfarrões na cabeça. E também, por mais que eu ainda queira realizar meu sonho de lançar um livro, não tenho a mínima paciência de começar a escrever um.
Nessas horas eu prefiro contos curtos. Personagens de um único problema, numa situação completamente absurda. Eles me tomam menos tempo de reclamação, deixando alguns minutos livres para eu tomar atitudes que mudem minha vida.
Essa é a história de um deles, que vou chamar aqui de Saulo Vilanova. Saulo era um estudante médio, de uma universidade média, um curso médio e exercia uma profissão média. Era um cidadão na média, por mais que se considerasse bem abaixo.
Saulo caminhava pela rua a passos curtos e cabeça baixa, sempre olhando sua autoconfiança na sola dos sapatos. Sabia que olhar para a frente só era necessário em alguns casos. Mãos no bolso, com os punhos cerrados, trazendo em cada um deles um pouco de depressão e ansiedade. Saulo continuava dividido em três: o que fora, o que achava que seria e o que o convencia de que nunca ia ser. Limitava-se por si só, buscava ficar cada vez menos visível em uma multidão que nunca se importou em vê-lo.
Foi quando levantou a cabeça e olhou para a frente na primeira vez do dia; precisava ver qual o lado da plataforma do metrô ele se encontrava, Tucuruvi ou Jabaquara. Olhou, baixou de novo a cabeça e ficou esperando atrás da linha amarela, como um cidadão médio faria numa situação média.
Fechou os olhos por alguns momentos e se concentrou na música que ouvia pelo fone. Recebeu um esbarrão que o deslocou exatos trinta e oito milímetros para a frente.
Saulo abriu os olhos e olhou para sua direita.
– Ai, moço, mil perdões.
– Tudo bem, senhor par de sapatos marrons
A moça riu. Foi a resposta mais estranha que recebeu em dias.
– Foi a resposta mais estranha que recebi em dias. – ela respondeu
Saulo imaginava como pares feios de sapatos marrons poderiam ter uma voz tão bonita. Olhou pela primeira vez para a frente de novo, na direção do muro da estação.
– Devo ter sido a pessoa mais estranha que você viu em dias. – respondeu.
– Muito provável.
O trem havia chegado segundos depois do hiato do diálogo. O par de sapatos marrom entrou. Saulo ficou para trás.
– Você não vai entrar? – ela perguntou já caminhando em direção a porta, numa São Paulo mais ou menos educada.
– Não. Vou esperar o próximo.
– Mas…isso é o metrô.
– Vou esperar o próximo – ele respondeu com o olhar ainda para baixo.
Ela deu de ombros, ainda sem entender a atitude dele. Ninguém entendia, essa era a verdade, nem o próprio Saulo.
Assim que o trem saiu, ele subiu a estação e voltou para a rua. Entrou em algum café ali por perto e sacou o celular. Passava das seis horas da manhã. Um som ensurdecedor começou a apitar forte por todos os lados, agoniando o ouvido a mente de Saulo.
Acordou em desespero na sua cama, com o despertador vibrando no criado-mudo.
Esse era Saulo Vilanova, estranho até no próprio sonho.