Category: Conto

Lado A, Lado B

Turn the record over
Hey, I’ll see you on the flip side.
There you go, turn the key and engine over…
Let her go, let somebody else lay at her feet

“45” – The Gaslight Anthem

 

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Quando a lua deu seu primeiro sorriso no frio e insensível céu noturno, William esticou a folha em branco sobre a mesa da varanda, pegou a pena e o nanquim, se atrevendo a desenhar cautelosamente as palavras naquela carta que mandaria a Catherine. De dentro do quarto, atravessando a varanda, uma suave melodia dançava no ar, saindo da vitrola e do disco antigo, que em meio a cada nota mais grave, emitia um chiado como um lamento.

A pena era romântica, assim como os pensamentos que reservava para aquela jovem de pele morena e cabelos pretos que contrastavam com o branco marfim do sorriso dela naquela praia deserta que viajaram uma vez. E a cada suspiro que dava, lembrava de cada sorriso que ela dava na direção do mar, que parecia também ceder a seus encantos.

“Nessa noite a lua parece entender nossa distância. Ambas são crescentes e ambas tentam emanar uma luz em tom de despedida. Enquanto isso, minha cara Catherine, eu passo suavemente essa pena sobre uma página em branco, esperando que cada letra saia perfeita e simétrica, como o seu corpo e como a sua alma. No mais, apenas olho para o formato do satélite e comparo-o ao de seu sorriso, o qual me faz tanta falta.”

Assim, William escrevia em tom de saudades, esperando que cada descrição saísse perfeita naquela carta. Ela merecia toda aquela entrega de corpo e alma.

Ninguém jamais havia cativado aquele rapaz de uma forma tão intensa. E muitas tentaram. Tentaram à exaustão seduzir aquela nobre e pura alma que não cedia aos encantos, segundo ele, tão normais ou insignificantes; comuns que jamais serviriam tampouco para fazê-lo transitar entre a bipolaridade, esperando que um beijo curasse uma mágoa.

Mas com Catherine foi diferente. Talvez porque ela não tivesse a intenção, talvez porque ela não se preocupasse em tentar provar-lhe nada.

O som ainda dançava de acordo com os movimentos da mão direita do jovem e que a cada sibilar  da ponta da pena no papel espesso, parecia mais intenso e mais apaixonante. Era como se cada nota musical desenhasse o corpo de Catherine e como se cada tom traduzisse sua voz. Ele pensava mais e mais nela ao passo que a música tocava.

Do lado de dentro o quarto, uma moça, bem jovem e delicada, de pele branca como a neve e cabelos vermelhos como as flores do outono, esperava nua por uma resposta de William aos seus suspiros. Ela tentava brigar com a música, mas tudo que escutava era o frenesi da escrita de William naquele papel.

O som da pena parou e o papel foi dobrado e guardado. William adentrou ao quarto e possuiu a jovem que jazia em sua cama de forma intensa e sentimental , ao mesmo tempo em que não deixava seu cavalheirismo de lado. E foi assim a noite toda: o pensamento em Catherine e o corpo naquela jovem.  Ao fim do romance, a jovem vestiu-se rapidamente, beijou o rapaz e se despediu com rapidez, talvez com pressa de chegar a sua casa e evitar o olhar reprovador de um pai conservador. William assentiu, correspondeu e abriu a porta para a jovem, que saiu exatamente ao final do disco.

William caminhou em direção à vitrola e trocou o lado. Foi quando a sineta tocou.

Lá estava ela, de pele morena, cabelos negros e sorriso marfim, combinando com os trajes. Catherine se exibia naquela porta, esperando o convite para entrar.

William a recolheu para dentro de sua casa e a acompanhou até o quarto. Enquanto a moça se arrumava e deitava em sua cama, William se retirou para a varanda, esticou outro papel sobre a mesa, pegou a pena e o nanquim.

A lua deu seu segundo sorriso no frio e insensível céu noturno. De dentro do quarto, atravessando a varanda, uma suave melodia dançava no ar, saindo da vitrola e do disco antigo, que em meio a cada nota mais grave, emitia um chiado como um lamento.

William começou a escrever para sua amada, de pele branca como a neve e cabelo vermelho como o fogo. Jolene era seu nome.

“E enquanto o céu servir de fundo para aquele único sorriso no alto, meu pensamento estará em você. Deixarei que qualquer um deite ao seu pé esta noite, eu vejo você do outro lado do disco.”

E assim finalizou a carta e foi para a cama. O som parecia mais intenso e mais apaixonante a medida que seu corpo se aproximava de Catherine, mas o pensamento estava lá longe, em Jolene.

 

 

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Tatuagem de rosa

Respeite seu amor, sua família e suas crenças…depois tatue todas elas em uma rosa.


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O cenário era cinzento e melancólico e até mesmo as paredes do bar pareciam deprimidas – e um tanto nostálgicas – naquela noite. Enquanto isso, um copo de uísque era rodopiado com a ponta dos grossos dedos de Finnan, que olhava para o doce e suave giro da bebida, como se estivesse acompanhando uma pequena melodia que os irlandeses uma vez tocaram naquele porto.

Finnan apertou o copo com as duas mãos, baixou a cabeça e, num piscar de olhos, mandou aquela dose esquentar e consolar sua garganta. Pela janela, uma fria e fina chuva caia molhando todo o cais e a baía. Aquilo desceu queimando, como uma dose de remorso, que a cada gota tocava num ponto de sua memória e pelos tantos meses em alto mar pescando e trazendo peixes frescos para o distrito. Ao saborear a gota de sua última lamentação, um marujo mais novo, também descendente de irlandeses, se sentou ao lado de Finnan e pediu uma cerveja.

– Um pint para a nossa heroica travessia, Finnan – ele disse erguendo o copo para o experiente marinheiro, que levantou seu copo vazio em solenidade – finalmente poderei ir para casa matar saudades da Jane.

O jovem marujo ergue a manga revelando a tatuagem de uma rosa, com o nome de Jane escrito. Finnan olhou de canto, pediu mais uma dose e arregaçou também as mangas revelando uma rosa ainda maior, com três nomes femininos. Sorriu de volta para o garoto.

– Também vou para casa, garoto. Pretendo abraçar as mulheres da minha vida bem forte para compensar os meses em que lutamos contra as ondas.

– Deixe-me adivinhar: mãe, esposa e filha, nessa mesma ordem – disse o jovem tomando mais um gole de seu pint – muito bonita a rosa para todas elas.

O velho marinheiro sorriu com a dor tomando o canto de seus lábios. Talvez não conseguira nem convencer a si mesmo de que conseguiria mesmo abraçar todas as três. A esposa havia brigado com ele dias antes da viagem, conta de uma bebedeira, uma briga de bar e uma noitada no beco do pub. Aquilo era imperdoável para ela, a doce Carolyn, cujo primeiro nome ardia na pele de Finnan.

A filha era muito pequena e mal conhecia o pai beberrão e a mãe havia morrido durante a primeira semana de navegação. Finnan só tinha sido notificado minutos depois de botar o primeiro pé para dentro do bar.

Botou seu chapéu, ajeitou o casaco e preparou-se para se retirar. O jovem marujo o segurou pelo braço e olhou fundo nos olhos. O respeito que tinha com aquele barbudo de meia idade era indiscutível.

– O senhor não me engana, senhor Finnan. Eu sei que por trás desse olhar simpático há um quê de dor. O que aconteceu?

– Você jamais entenderia, garoto.

– Tente-me. O senhor não pode ter tanta certeza.

– Pois eu não tenho certeza, garoto. Apenas torço para que você chegue ao último dia de sua vida sem ter essa dor no peito. Pense que por mais forte que possamos ser, a ponto de aguentar uma agulha eternizando cada pequena letra do nome dela em nossa pele, tudo o que fazemos que parta um coração a dois dói mais do que páginas de um romance barato podem descrever – Finnan concluiu retribuindo o toque no ombro.

O jovem marujo deu um sorriso sincero. Deu um leve tapa no braço do velho e voltou-se para o seu copo.

– O mar mexeu muito com o senhor, senhor Finnan. Vá para casa, Carolyn deve star esperando você com muitas saudades.

Aquilo foi uma forte surpresa. Finnan apenas perguntou como o jovem sabia disso tudo.

– Eu apenas sei, senhor Finnan, eu apenas sei.

E com um sorriso assentido, Finnan saiu do bar ao encontro de Carolyn, enquanto o jovem marujo pagou sua bebida, colocou o casaco e viu que era hora de ir para os braços de sua doce Jane novamente.