The Invisible Man

A cidade era São Paulo e o clima era frio. Não chovia, mas ainda assim a umidade no ar, junto com a brisa que assoprava era o suficiente para deixar qualquer entusiasta de praias com os pêlos arrepiados.
Era um frame de filme certeiro para um palpiteiro se levantar da cadeira, apontar o dedo para a tela e gritar “vai acontecer um crime”. Bom, tratava-se de São Paulo e algum crime poderia acontecer mesmo naquele minuto. Entretanto, nosso herói, apesar de possuir super poderes de invisibilidade, nada poderia fazer para resolvê-los.
Talvez porque suas habilidades não eram tão literais assim. Invisibilidade não passava de uma conotação para o que Gabriel Mosca sabia fazer, mesmo sem saber que o fazia.
Gabriel era invisível para as pessoas e nem ele, nem ninguém, sabia o porquê. Tudo começou num dia de verão, no recreio; no pátio do colégio, sentados na escadaria, Gabriel viu seu grupo de amigos cogitar uma breve ida para a praia. Eles haviam comentado Guarujá, lugar que há tempos ele queria ir, especialmente pelo restaurante que soubera existir na praia da Enseada.
O sinal bateu e todos voltaram para a sala. Gabriel nunca mais ouvira nenhum dos seus amigos comentar com ele sobre a viagem, mas viu todas as fotos nas redes sociais dos amigos.
Deveria estar invisível na hora errada e não sabia. E como ele não tomava conhecimento de seu poder, não havia entendido por que não estava com todos aqueles que durante 10 anos de colégio, viveu junto, sorrindo, se divertindo e, claro, estudando.
Chateado, Gabriel tomou o metrô sozinho para casa no dia seguinte às fotos. Não queria nenhuma companhia porque precisava de um tempo para pensar.
Olhou para suas mãos e viu que elas estavam ali; aproveitou e tocou o braço, o peito e o rosto. Tudo estava lá, tudo era palpável e tudo era visto.
Entrou em casa, cumprimentou a mãe, que não respondeu. Foi direto para o quarto, ligou o computador e colocou em uma música qualquer.
Quando deitou na cama, escutou seu celular vibrar. Era um de seus amigos.
Abriu o sorriso e leu a mensagem. Seu sorriso dissolveu-se como um torrão de açúcar se dissolve no café.
“Cara, revisa o trampo de história pra mim? Vou sair com uma mina e não vai dar tempo. Valeu” leu em voz baixa e entristecida. Respondeu, ainda que simpático, com quem o amigo ia sair. Queria mostrar interesse pela alegria.
Não obteve mais resposta, apesar da visualização. Encostou o celular na cômoda e continuou deitado, até que adormeceu.
No dia seguinte, a caminho do colégio, sentou-se no ônibus deixando um lugar vago ao seu lado. Atrás dele estava um homem mal encarado e aterrorizante que o deixou preocupado.
A cada ponto, o ônibus ia ficando cada vez mais cheio, as cadeiras lotadas e as pessoas de pé. Havia sobrado apenas dois lugares livres: um ao seu lado, outro ao lado do homem.
Poucos minutos depois e uma mulher entrou e sentou-se ao lado do homem. O ônibus continuou o caminho até, que pouco a pouco as pessoas foram descendo.
Perto do último ponto, quando o homem mal encarado desceu, a mulher percebeu que havia sido furtada. Entrou em desespero, choro e foi consolada por algumas pessoas, enquanto o banco ao lado de Gabriel continuava vago.
Levantou-se e desceu do ônibus. Olhou de novo para as mãos e viu que elas estavam lá, ainda palpáveis, ainda visíveis.
Chegou na escola e encontrou os amigos comentando sobre o interclasses. Recebeu o comentário do amigo da mesma forma que Evander Holyfield recebeu a mordida de Tyson.
“Putz, cara! Você joga! Porra, foi mal”
Fora do time. Tudo bem, ele podia lidar com aquilo, mesmo que ficasse triste.
Desde então, o tempo foi passando e Gabriel foi crescendo. Entrou na faculdade, onde ficou por alguns anos, sempre fora dos grupos de trabalho e vagando solitário pelos corredores do centro.
Nas entrevistas de emprego era a mesma coisa, isso quando as conseguia. Normalmente seus e-mail nunca eram respondidos, tampouco selecionados.
Um dia, cansado de tudo, Gabriel olhou de novo para as mãos. Elas estavam ali, palpáveis e visíveis.
Olhou para trás e viu que, além de um homem, havia uma moça se aproximando, distraída com o celular. Assim que ela passou, Gabriel chutou sua bunda.
A moça, inconformada, se virou brava. Gabriel encolheu-se todo pronto para a bronca.
Irritada a moça começou a gritar…mas com o homem atrás dele. Gabriel interrompeu a conversa e disse que havia sido ele.
A mulher e o homem fitaram-no, aguardaram um segundo e voltaram a discutir. Gabriel foi embora para casa olhando as mãos, visíveis e palpáveis.
Nem ligou para os dois trombadinhas armados com canivete à sua frente. Eles não podiam ver o Homem-Invisível mesmo.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s