O nosso adeus

“Os cães são o nosso elo com o Paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde, é voltar ao Éden onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz.”

– Milan Kundera

Minha querida,

Eu queria começar essa carta aberta de uma forma sutil e que eu sei que você adorava: histórias longas, bonitinhas e que faziam você deitar bem pertinho, respirar fundo, e então dormir quietinha.  Ah, que saudade de você ali naquele sofá…mas enfim, as pessoas não sabem como foi.

Explico:

Era janeiro; o ano era 2000. Eu tinha 10 anos e você, acabado de nascer. Éramos dois seres daquela geração sobrevivente ao bug do milênio, mas acho que você nunca soube e nem se importou com o que isso significava.

Filha de mãe solteira e de pai vagabundo, vi você pela primeira vez entre seus 10 irmãos, todos machos e bem maiores que você. Faziam de tudo para chamar a atenção, mas você ficava ali na sua, sem encher ninguém.

Até comentaram que você era parecida com a minha mãe, porque além de pequena, rosnava para todo mundo – a família inteira riu, menos minha mãe, claro.

Foi amor à primeira vista, ainda que você não demonstrasse de cara. Tudo bem, era o seu jeito, e aprendemos isso com anos e anos de convivência.

Trouxemos você para essa casa no meio de dois cães imensos, que faziam qualquer poodle sentir medo.Qualquer um, menos você, que saiu correndo para o quintal se apresentar.
Daquele tempo em diante, você entrou de vez para a nossa família. Eu fui crescendo e celebrando cada aniversário seu.

Você viu quando eu voltei de São Caetano para morar com meus pais aos 12 e viu também quando saí de novo para morar com as vós em Sorocaba. Aliás, você costumava ficar lá de tempos em tempos.

Viu eu terminando a oitava série e morrer de medo do colegial. Viu também eu saindo da escola, em lágrimas, comemorando a passagem para a universidade. Você viu tudo, acompanhou tudo e esteve lá.

Quando aqueles seus amigos se foram, você se comprometeu a assumir a casa. Nem se abalou tanto e mostrou pela primeira vez o quanto era forte. De lá para cá, vários vieram e se foram e você sempre os recebeu e cuidou de cada um.

Da mesma forma que amou incondicionalmente, odiou com toda a sua alma. Você se pegava a tapas com a Thalia, lembra? Mas quando ela se foi, você foi a primeira a ficar triste.
Era casca grossa, mas tinha o coração bom. O tempo continuou passando e você foi envelhecendo cada vez mais forte . Lembro que no mesmo mês precisei levar todo mundo pro veterinário…você, NUNCA. Juro por Deus que nunca vi cão mais forte que você.

Chegou aos 12, aos 13 e aos 14 anos sem perder um dente, sem pegar uma gripe e muito menos sem perder o apetite. Ainda assim, você tinha o seu jeitão isolada e comedida.

Um pouco desconfiada do mundo, mas nunca agressiva a ele. E o que a gente mais ria era que todos os outros cães, ora um, ora outro, alimentavam birras e discussões. Mas todos te amavam.

Você virou a vovózona, a matriarca dos vira-latas.

Mas enfim, além da faculdade, você viu meu primeiro emprego. Viu a alegria que foi chegar em casa e contar do segundo. Fiz até festa para vocês, trazendo um monte de bifinho e porcaria canina para vocês se divertirem.
E ano passado você me viu, finalmente, sair da faculdade. Foram 15 anos que eu cresci e você cresceu junto ali, do lado, em silêncio, apenas com o rabinho abanando e um chorinho chato pedindo pra ir pra rua.

Você sempre esteve ali. Agora já não mais.

Hoje, uma década e meia depois, você decidiu que era hora de ir. Porra, como eu chorei, e como ainda choro enquanto escrevo. E o pior foi que nem deu para nos despedirmos.

No mês passado eu perdi um dos meus melhores amigos, que ficou apenas seis meses comigo. Imagina a dor que é lembrar que, depois de 15 anos, foi a sua vez.
Eu questiono porque vocês ficam tão pouco tempo com a gente e sei que a resposta é porque é o tempo suficiente para nos encher de amor e alegria.

Se essa era a sua missão, você a concluiu com mais êxito do que se possa imaginar, minha cara. E eu, da mesma forma que sinto tristeza por ver aquele sofá vazio, fico feliz por saber que agora, exatamente agora, você está bem. E que eu vou rezar por você, da mesma forma que rezo por todos.

Eu sei que essa despedida ficou longe de perfeita, mas é que o cérebro e o coração tão desconversando muito por isso. Peço desculpas.

Muita gente vai perguntar porque eu escrevo para vocês quando vocês se vão, sabendo que vocês não sabem ler. E eu vou sempre dizer que é porque, nessa casa, os corpos se vão, mas o amor sempre fica.
Vá em paz, vá com Deus, e obrigado por todos os momentos ao meu lado. A gente ainda vai se encontrar mais vezes.

Mesmo que muitos não acreditem, eu acredito.

WP_20150105_013

Meg

* 05/01/2000
+ 23/04/2015

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