Quero ser Duchovny

Sou só um otário com baixa autoestima, oh yea

                                     Offspring

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Saber lidar com a baixa autoestima é um processo complexo e que envolve etapas muito mais complexas que a autoindulgência e a comiseração. É praticamente tentar reverter o saldo negativo de experiências frustradas em algo que satisfaça um desejo do ego – e que, por tabela, atinja o hemisfério da admiração alheia.

Parece um papo filosófico, extremamente fundamentado em bases científicas, mas trata-se apenas de uma constatação rotineira ao qual eu me submeto todo dia. O espelho no quarto na parte da manhã e a porta do quarto no começo da noite acabam se tornando instrumentos de torturas que nem mesmo a equipe da inquisição pensaria em usar com bruxas e ciganas.

Meu complexo se estende muito além da escrita disléxica e da ilustração desproporcional. Também não se encaixa às três bandas que fiz parte, tampouco à minha atual inaptidão para exercer algo além da minha profissão. Estende-se pela forma como o talento se torna abstrato e intangível toda vez que tento pôr em prática alguma atividade.

Recentemente vi passando aquele filme ‘Quero ser John Malkovich’. Não tenho o mínimo embasamento cineasta e tampouco sei da trama; atrevo-me, inclusive, a dizer que não vi outro filme do cara que não seja R.E.D., mas, definitivamente, não tenho vontade de ser Malkovich.

Queria mesmo era ser Duchovny. O cara define o padrão de excelência ao qual eu queria piscar e esticar os dedos em formato de arminha toda manhã em frente ao espelho, a união perfeita entre o talento e o assédio moderado.

Duchovny me foi apresentado na época em que usava as calças do fodão Fox Mulder. Meu, o cara mantinha contato com alienígenas e solucionava casos absurdos da ufologia, coisa que poucos teriam a capacidade nesse mundo de fazer. Era o alto-grau da escala meritocrática astral, da qual enjoou e resolveu ser escritor. Protagonizou Hank Moody, a mistura ideal do tarado-beberrão Bukowski com a elegância e a classe macho alpha de Hemingway.
Um Fox Mulder garanhão e apaixonado, um Hank Moody que caçava aliens. Assim que a série caiu em desgraça, viu que não poderia salvar nada sozinho e resolveu mostrar o lado Duchovny.

Escreveu um livro que ingressou na coluna de best sellers do New York Times e, conforme noticiado durante essa semana, entrou em estúdio para gravar um álbum de rock, que pelas demos já nota-se a veia artística de um vocal muito semelhante ao de Mike Ness. Escorre a cada segundo aquela reunião de Fox, Hank e David mostrando como fazer você, mero espectador, reforçar aquele pensamento lá de cima de que o espelho se torna a tortura.

Dentro das minhas limitações, ainda percebi que não figurava no NY Times, nem pisei mais num estúdio desde os 19 anos. Só me restava esboçar um beiço elevado em tom de aprovação e inveja e bater palmas vagarosas em reverência a um mestre.

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