Faz frio.

I can’t lose, I can’t win
livin in the middle once again
can’t stand the pain

O ônibus balançava de maneira desorganizada, quase que nauseante. Sentado no banco da frente e mexendo no celular, o garoto apenas engolia em seco para evitar que seu café da manhã se rebelasse, num ato legitimo de protesto, contra a exploração do opressor balanço daquele cacareco de quatro rodas e 50 assentos.

Seus dedos passavam pela tela como um pequeno pincel dava vida a uma tela séculos atrás e a tosse seca cortava o silêncio constrangedor entre todas aquelas pessoas. Fazia mais de 40 minutos que estava ali sentado e fuçando no celular sem que uma mensagem de oi, alô ou que horas você chega pipocasse na tela. Com um suspiro deprimido, travou a tela e guardou o aparelho na mochila, enquanto aumentava o volume do seu radinho.

O balanço nauseante começava a cessar à medida que se aproximavam da entrada da Marginal e, ao som de Georgia Satelittes, ele olhava para o rio sujo contendo a ansiedade de mexer de novo no celular que não havia recebido uma única mensagem.

– Bilhões de pessoas nesse mundo- ele disse baixinho, -e nenhuma delas perguntou se eu esqueci a blusa.”

– Pelo menos o motorista é mais sincero  – continuou – ele não quer que falem com ele, a menos que seja o necessário. – disse em voz alta, provocando uma certa estranheza nas pessoas que viajavam com ele.

Esticou de novo o olhar pela janela e viu que a cidade já estava começando a ficar parada no asfalto, como era de costume.

– Pois eu também esqueci a blusa – disse o motorista – mas ninguém achou essencial perguntar para mim.

E soltou uma gargalhada do volante. O garoto sorriu de volta, mais porque achou estranho que alguém que estivesse dirigindo um troço daquele tamanho, àquela hora, teria bom humor para encarar uma conversa com um adolescente meio solitário.

– O senhor esqueceu a blusa também? Mas dizem que São Paulo esfria algumas horas.

– Ah, isso é só durante o inverno. E outra, é tanta gente na rua respirando que você se aquece, talvez você nem pense na blusa…nem em quem não perguntou se você a esqueceu.

– Hmm… – ele assentiu, mais feliz – acho que a gente não deveria falar sobre isso, não é um assunto indispensável.

– Tem razão. Vai descer no Tietê?
– Barra Funda.

E aumentou o som dos Satellites, olhando de novo no celular. O motorista teria que fazer aquela viagem mais umas três vezes naquele dia.

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s