Calma, cara, é só uma folha

Sabe qual a diferença entre um pedaço de papel e uma tela em branco no computador? Pois é, na folha, a vida parece que toma forma melhor e mais rápido.

Sei lá se é porque o computador nos dá a possibilidade de revisar a cada linha, de editar sempre que dá vontade ou de simplesmente apagar tudo, abrir o Facebook e perder tempo vendo piadas sem graça ao invés de arrancar, amassar e jogar a folha longe e começar de novo. A diferença talvez seja essa: quando você deleta no computador, você não sai do lugar; no caderno, uma folha a menos é um espaço a menos. É como se fosse uma semana, cujo cada dia mal escrito e jogado fora te deixa sempre com menos para tentar de novo.

Eu comecei a escrever isso na folha de papel. Desisti. Ainda fui covarde de correr o risco de arrancar uma folha e jogar longe com um mero erro ou desgosto. Um amigo meu investiu muito tempo montando esse caderno; outro também, orçando para produzi-lo. Seria muita falta de consideração tratar o caderno com tanto descaso assim, com tantas vidas se esforçando para dar vida a ele. Inclusive a minha.

Eu pensei nessa comparação do papel, do computador e da vida quando me flagrei pensando em como eu fazia com meus dias. Todo dia eu escrevia a mesma história, com um ou outro detalhe diferente. Depois eu ia dormir sem nada novo, e acordava no dia seguinte esperando mais do mesmo, tentando contar a mesma história.

Hoje eu abri o caderno e pensei nisso. No começo esbocei uma frase.Odiei, mas me recusei a arrancar a página; apenas fechei o caderno e corri para a zona de conforto da tela branca.

Mas ainda assim eu relutava. O texto não saia e eu apagava, apagava, editava e apagava. Até que eu larguei mão e resolvi vir até aqui.

Confesso a vocês que parei em diversos momentos. Fui refém do Facebook, fui refém dos sites de piadas. Fui refém até do whatsapp e do celular. Fiquei um bom tempo parado até voltar aqui e ter que ler tudo que havia escrito e tentar recuperar o fio da meada.

Voltei e comecei a pensar em quantas folhas de caderno eu já teria desperdiçado a essa altura. A sensação de que talvez fossem muitas foi estranha. O coração acelerou e o peito começou a doer, fiquei sufocado por um tempo. Nesse intervalo, me imaginei dentro um caixão daqui uns anos.

Não era ruim. O ruim era quando eu fazia o caminho inverso, tipo Benjamin Button. Comecei a me imaginar velho, depois meia idade, depois um pouco mais adulto. O aperto ficou mais intenso e só foi interrompido quando voltei a pensar no caderno e nas suas folhas jogadas.

Caralho, pensei, nunca imaginei que eu tinha emoções tão complexas e que saltariam na tela no começo de um texto. Parei de novo e voltei para a internet.

Fiquei espiando através de uma tela a rotina alheia. Depois no celular, mesma coisa. O pior era que eu falava sozinho, igual quando eu era mais novo e conversava com os desenhos.

Eu bradava algo, mas nunca tinha uma resposta. Era apenas eu, a fala e a tela. Eu não passava de um telespectador.

Desisti e resolvi acabar esse texto assim mesmo. Talvez eu dê continuidade a isso no papel ou talvez escreva algo novo. Mas a certeza é deque antes, eu vou jogar no papel sem medo de rasgar a folha e jogá-la para cima.

Antes isso com a do caderno do que com a do calendário.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s