O humor de Jenésio (sim, com jota)

Sooooooooorrrrriaaaaaa, meu bem, soooooorrriiiiiaaaa

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Um cabelo preto e ondulado lambuzado de gel e brilhantina, jogados para o lado esquerdo do rosto; um par de óculos de armação fina e lentes grossas e um sorriso bobo que ligava uma orelha a outra de sua face redonda. Nunca um personagem foi tão fácil de descrever como o Jenésio com jota.

Em uma quente manhã de quarta-feira, em fevereiro de 1942, um funcionário disléxico estava de ressaca após celebrar o noivado no bar do Seu Epaminondas. Com a combinação de mente desidratada e dificuldades com letras, Jenésio fora registrado com jota. Mas isso não ia abalar o seu humor, uma pérola entre todos os cidadãos que eu conheço.

Jenésio não perdia o bom humor por nada nesse mundo. Até quando flagrou a ex-mulher na cama com o vizinho, Jenésio sorriu. Sorriu porque, mesmo sendo negro, o pinto do seu vizinho era pequeno. Jenésio também não perdeu o bom humor nem quando foi demitido do emprego por trocar os contratos, pois disse que essas cagadas acontecem.

No auge de seus 72 anos, Jenésio dizia que ia receber a Dona Morte de braços abertos para um chá com leite e, antes de morrer, ia perguntar para ela se não tinha um método menos ortodoxo para levar as pessoas para o outro lado. Dizia que a foice era um símbolo muito comunista para ele, enquanto todos riam com o espírito brincalhão daquele velhinho simpático que tingia o cabelo e usava o mesmo penteado que achou fantástico em Clark Gable.

Cansado da rotina, resolveu pegar seu Chevete 70 e descer para a praia, desfrutar aquele belo horizonte cheio de areia, água e bundas – vontade que foi despertada quando flagrou o neto fumando maconha com os amigos, e ouvindo Sublime. Abasteceu o tanque, fez as malas com algumas camisas e uma bermuda, pegou sua fita da Clara Nunes e disparou estrada afora, com o sorriso que lhe era tradicional.

Quando seu Jenésio saiu de São Bernardo, pronto para pegar a Imigrantes, o carro começou a dar os primeiros sinais de problemas, dando trancos tão pesados quanto os da égua xucra que montou uma vez. Deu seta e se retirou para o acostamento quando uma Tucson branca, em alta velocidade, passou raspando pela lateral do Chevetão levando o retrovisor embora.

– Ora bolas! – Jenésio coçou a cabeça meio confuso, mas dando risada – Por pouco não foi outra coisa.

Depois de parar, desceu do carro, abriu o triângulo e ativou o pisca alerta. Assobiando, se debruçou sobre o banco de passageiros para pegar o celular na lateral da porta. Quando foi discar para o filho, polícia ou até mesmo o guincho, a bateria acabou. Jenésio – com jota – ficou ali parado,  sem reação, olhando para o aparelho, quando outro carro passou em alta velocidade o assustando. Jenésio gritou e jogou o celular para cima, que se espatifou no asfalto da rodovia e foi atropelado pelos próximos veículos que passaram por ali.

Sem perder o sorriso, pegou um lanche que tinha feito e sentou no guard rail. Desembrulhou o sanduíche com muito cuidado, ajeitou os ingredientes dentro e deu uma generosa mordida. O presunto vencido e o queijo estragado o fizeram cuspir tudo para o matagal e jogar o resto ali por perto.

Passaram-se quase três horas e ninguém se importava em ajudar aquele velho senhor a chamar um guincho, a polícia ou seu filho, até que um carro com três belas mulheres pararam. Jenésio, que não era bobo nem nada, resolveu levar seus dotes de galanteador para as moças, que o acharam repulsivo e bateram em retirada. Mais duas horas no acostamento quando um Gol rebaixado, com dois manos ouvindo Racionais bem alto, parou para ajudar o senhor.

– Fica frio aí, tio, que nóis vai ajudar o sinhor, firmeza? – um deles falou, em dialeto incompreensível para Jenésio, que apenas assentiu com a cabeça.

Foi quando um carro parou com fúria um pouco mais à frente. Dele, desceu um carinha franzino que entrou correndo no Gol, deu a partida e sumiu. Os manos ficaram loucos e começaram a xingar no acostamento.

Jenésio não aguentou e se pôs a rir. O nervosismo já era iminente em sua gargalhada, mas ele ainda não tinha perdido o bom humor.

Os dois amigos que tinham parado para ajudar Jenésio se irritaram e perderam a cabeça; desceram a surra no velho e se mandaram para o bairro ali próximo, enquanto Jenésio jazia ensanguentado e sorridente no acostamento. Foi quando a polícia chegou para acudi-lo, junto com uma ambulância.

Durante a operação, um dos policiais pediu a Jenésio a habilitação. O senhor, ainda com dor, procurou dentro do carro. Nada. O policial começou a perder a paciência, enquanto o senhor recuperava sua sobriedade e parecia ignorar a dor – agora, sem nenhum sorriso no rosto.

Jenésio estava sem os documentos e isso já era o suficiente para o que o senhorzinho desse entrada na cadeia logo depois de sair do hospital.

Algum tempo depois, Jenésio entrou no bar em que estávamos reunidos, tomando uma cerveja.

– Que é isso, seu Jenésio, que cara é essa? – um de nossos amigos indagou, com um sorriso que seu Jenésio já estava habituado.

– Ora, vai tomar no seu cu, meu jovem – seu Jenésio retrucou sério e saindo do bar.

E foi assim que aquele senhorzinho simpático, de cabelo preto e ondulado lambuzado de gel e brilhantina, jogados para o lado esquerdo do rosto; um par de óculos de armação fina e lentes grossas e um sorriso bobo que ligava uma orelha a outra de sua face redonda nunca mais sorriu.

Bom, a Dona Morte já estava acostumada com senhores mal-humorados.

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