Me amem

Ambiente escuro. Apenas uma luz sendo emitida de um corpo retangular e o único som que se ouvia eram as batidas do teclado e algum zunido que saia do fone de ouvido, devido ao volume alto da música.

Ele parou de digitar, agarrou o copo e deu um gole generoso na Pepsi, que sempre deu preferência em relação à rival Coca-Cola. A descrição se encaminhava para uma coisa triste e estapafúrdia de um roteiro de quinta categoria, mas se tratava apenas da rotina de um garoto aspirante a escritor, mas que estava longe de ter talento para isso.

O primeiro barulho de notificação chegou. O coração bateu mais rápido e a respiração hesitou por um breve instante. Com o olhar de admiração, via que a primeira pessoa havia se manifestado. Não deu tempo nem de clicar para ver quem era, os avisos pipocavam no canto esquerdo da tela, anunciando que várias outras pessoas tinham achado sua piada fenomenal. Sorriu, estralou os dedos, gemeu de dor e deu mais um gole na Pepsi. Outra notificação.

O universo era dele. Sua piada sobre gatinhos e um trocadilho esperto haviam se tornado a ponte que o faria atravessar entre o anonimato e exclusão para a fama e as cartas de amor que receberia das milhares de fãs.

“Como você é engraçado, Diogo, conte uma piada no meu ouvidinho”, ou então: “nossa, Diogo, conta de novo aquela piada para mim antes de nos enfiarmos debaixo das cobertas para longas travessuras de amor.” A vida era boa e todas as fantasias eram com loiras de lingerie vermelha.

Os apitos continuavam. Várias pessoas riam, comentavam e curtiam a piada. O som da música já era interrompido por tantos e mais tantos barulhos da rede social. O sorriso de satisfação já estava dando lugar a uma expressão demoníaca e obsessiva, acompanhada de um fio de baba que escorria pelo canto esquerdo dos lábios de Diogo.

Ele queria mais. Ele clicava sem parar. Ele apertava F5 para ver se o Facebook não se esquecia de notificar alguém ou algum comentário. Já se passavam dos 125 likes, mas ele queria mais. Seu sonho agora envolvia um share de humoristas famosos. Ele esperava a interação de alguém com influência. Ele queria ser printado – como eles adequaram a palavra print para um verbo – e exposto entre os mais fenomenais da internet.

Foi quando a porta do quarto pareceu vir abaixo, seguido de um berro:

– VAI PRA CAMA, MOLEQUE!

Diogo nem ligava. Aos olhos do mundo moderno, ele era importante demais agora para seguir uma ordem.

Pelo menos é o que ele achava.

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