Besteiras que dissemos

O fracasso e a falta de sorte teimam em se passar um pelo outro uma certa altura da vida. E é claro que nós, seres humanos imperfeitos e deslumbrados, tentamos criar uma teoria convincente que liste e destaque as principais diferenças entre um e outro. Pela minha experiência de vida, posso dizer que essa tentativa é a única que desmascara o fracasso contra a falta de sorte.

A questão em si é que, quando lidamos com esses pensamentos, que questionam a ferro e fogo, assumimos papeis de “um amigo de um amigo meu” para podermos relatar nossas frustrações, sem passarmos a vergonha e o olhar do julgamento do receptor. Ou mesmo daquele “puta merda, mas você é um fracassado”.

O Sandro não estava nos seus melhores momentos aos 25 anos. Tudo bem que ele tinha tudo que uma pessoa poderia querer nessa idade: contas de celular, contas de planos de internet com tv a cabo, faturas do cartão de crédito e um financiamento épico de um carro popular sem ar condicionado, mas nada disso chegava a melhorar sua autoestima em relação ao seu sucesso pessoal.

Seus principais passeios no final de semana era escolher o melhor petisco para acompanhar um episódio d’Os Simpsons e seu melhor amigo era um travesseiro velho, que se alimentava dos planos que Sandro fazia durante os sonhos.

Na última vez que havia saído, tinha reunido seus dois maiores amigos. Mas a falta de sorte começou a flertar de novo quando, numa mesa para quatro pessoas, a menina de um casal se sentou na cadeira ao lado da dele, passou a acariciar de maneira selvagem o namorado, sem ao menos se preocupar com os esbarrões que dava no moço enquanto ele tentava tomar sua Coca-Cola sem derramar na roupa. E para não reclamar de desgraça pouca, não tinha percebido que estava bem embaixo do ar condicionado.

A partir desse momento, a falta de sorte passou a ser uma companheira leal – e um pouco ciumenta – no dia a dia e, graças a ela, tudo passou a dar errado. Sandro começou a associar a atua fase com seu pensamento reprimido e falho de macho beta, associando o fracasso a um imã da falta de sorte.

Seu carro foi roubado com duzentas prestações pendentes e a fatura do cartão acumulava juros que ele nunca mais poderia pagar e isso o deixava cada vez mais desesperado. Não bebia por três anos, mas já era hora de pedir um uísque a um garçom qualquer.

Dentro do bar, sentou-se à mesa e percebeu que ela olhava do outro lado com seu cabelo que misturava os tons de castanho com os de loiro, jogados por sobre a armação dos óculos de intelectual. Lia alguma coisa do Bukowski que falava sobre porres, brigas, apostas em cavalos e um pouco de falta de sorte e fracasso.

Ela sorriu e ele s engasgou com o uísque, um bom truque do ciúmes da falta de sorte. Ele tossiu com as bochechas vermelhas e ela olhou assustada para aquela figura peculiar que estava quase morrendo.

Pulando todas as formalidades e os detalhes que não interessam, os dois passaram a conversar e sair juntos…para todos os lugares, qualquer hora do dia. E se falavam todo dia, sobre tudo e todos e até sobre si mesmos. Também tomavam porres e apostavam em cavalos, dividiam a falta de sorte e o fracasso. Foi assim por um tempo e, mesmo enciumada, a falta de sorte não conseguia chamar a atenção de Sandro.

Porra, os juros aumentavam, a companhia de internet cobrava a fatura sem mandar um técnico. E ainda tinha o carro roubado para pagar. Mas isso não importava enquanto o celular e os passeios se fizessem presentes no meio de tanta turbulência.

A vida era linda, assim como também era irônica. E em meio a tantas causas, efeitos, ações, reações e significados estudados por diversas ramificações da ciência – e também explicadas por todas as religiões do mundo – a falta de sorte teve sorte. Ao acaso, o fogo entre ambos cessou, deixando apenas cinzas e um pouco das saudades do pouco que viviam. Nem deu tempo de sentir saudades de algo maior, porque nunca foi além do nada que aquela relação se foi.

Desolado, Sandro apenas pensou se tudo aquilo era muita falta de sorte ou mais um fruto do fracasso. E nem sabia se era possível diferenciar um do outro. Apenas se calou, consentiu e jogou o celular fora. Tinha uma longa situação preta para contornar, causada pela sua falta de sorte. E se dependesse do fracasso, valia a adrenalina de saber se poderia resolver.

Essas são histórias que acontecem com amigos de amigos meus, que desejam muito algo que nunca vai passar do que é destinado a ser. E depois pode sentir falta mais de um ideal e de um pensamento do que de uma história em si.

E aí, quando a ficha cai, tudo à sua volta, ignorado por si mesmo, explodiu em montanhas de problemas que não têm mais como ser ignorados, apenas resolvidos. E nesse momento, você não sabe se tudo o que passou foi falta de sorte ou fracasso, mas se tentar justificar, vai entender que foi fracasso.

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