Do domingo em que eu desisti de querer ser um alfa e me assumi mais um do bando.

Um pouco de crise existencial faz bem. Uma pessoa que não passa por uma crise pessoal nunca vai conseguir saber o tamanho da merda que está fazendo.

Beta

 Quem me conhece sabe que escrever em primeira pessoa nunca foi minha praia. Como um típico macho beta, inútil, insignificante e existente aos milhares, eu não acreditava nem por um segundo que haveria interesse em falar de mim mesmo para alguém. E ainda como um bom macho beta, eu errei de novo.

Falar um pouco de você é bom, mesmo que ninguém leia. Especialmente quando você tem o costume de falar sobre as suas manhãs e tardes de domingo, o dia mais beta entre todos os betas.

O domingo, por sinal, nem deveria ser considerado um dia da semana, mas sim um estado de espírito abatido.

– Hey, quanto tempo sem te ver. Como você anda?

– Ah, eu ando meio domingo..

Ando meio chato, parado, apático, questionador, entediado, mas não quero acabar. É, domingo seria um bom adjetivo para um ser humano normal e chateado. Um ser humano beta.

O problema de ser um beta não é o fato de você realmente ser um, mas o da busca implacável por se tornar um alfa. Mulheres alfa, carros alfa, trabalho de alfa e fama de alfa, todos objetivos buscado incansavelmente por seres humanos limitados que acreditam que cada elogio o transforma num ser imortal, onipotente e admirado.

Olha, “ele é o meu melhor amigo” ou “que belo texto você escreveu na semana passada” não deveriam fazer de você o Dr. Phil, tampouco o Hunter Thompson. E um problema entre o betas – de ambos os sexos e de todas as classes – é o de acreditar que sua obrigação como ser humano é uma oportunidade de mudar seu status quo.

Comigo foi assim, com muita gente é. Poucos dos betas são cientes de sua limitação e poucos, mas poucos mesmos, são contentes com sua atual situação. Somos todos um bando de Ícaros que ao ver uma pequena asa aparecer nas costas tenta chegar bem perto do sol. E adivinha? Não dá.

Por que você acha que os primeiros aplicativos ou aparelhos lançados por empresas de tecnologia recebem a mesma nomenclatura da nossa classificação natural? Porque é uma forma de demonstrar que, apesar de lançada, aquela versão ainda contem falhas, erros e psicoses que precisam ser arrumadas. Bem como nós.

Mas para nós, por outro lado, não há mudança. Podem falar o que quiser, que podemos mudar para melhor, que podemos ser diferentes e podemos sempre fazer coisas que não fazíamos antes. Cada uma dessas mudanças é relacionada a um fracasso pessoal, uma escolha errada de tentar ser um alfa – ou próximo a isso.

O aspecto da mudança, em geral, é pautado pelas falhas recorrentes. Logo, mudar não significa mudar de fato, mas abrir mão de uma tentativa inútil de ser quem você não é. E no fim é tudo voltado ao mesmo discurso: de ser quem você é.

Eu levei algum tempo para descobrir que não ia ser nada além o que eu era. Não em termos financeiros, profissionais ou de determinadas cobranças que são impostas a todos no berço. Eu não seria nada além do que eu sou pessoalmente.

Se realmente existe vida após a morte, que essa minha versão beta seja corrigida da melhor forma possível enquanto eu conserto, em vida, as falhas que meu aplicativo demonstra. E se eu errar, não tem problema. Para quem já cansou de errar, nada do que começar a tentar fazer as coisas da maneira certa.

 

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