Tatuagem de rosa

Respeite seu amor, sua família e suas crenças…depois tatue todas elas em uma rosa.


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O cenário era cinzento e melancólico e até mesmo as paredes do bar pareciam deprimidas – e um tanto nostálgicas – naquela noite. Enquanto isso, um copo de uísque era rodopiado com a ponta dos grossos dedos de Finnan, que olhava para o doce e suave giro da bebida, como se estivesse acompanhando uma pequena melodia que os irlandeses uma vez tocaram naquele porto.

Finnan apertou o copo com as duas mãos, baixou a cabeça e, num piscar de olhos, mandou aquela dose esquentar e consolar sua garganta. Pela janela, uma fria e fina chuva caia molhando todo o cais e a baía. Aquilo desceu queimando, como uma dose de remorso, que a cada gota tocava num ponto de sua memória e pelos tantos meses em alto mar pescando e trazendo peixes frescos para o distrito. Ao saborear a gota de sua última lamentação, um marujo mais novo, também descendente de irlandeses, se sentou ao lado de Finnan e pediu uma cerveja.

– Um pint para a nossa heroica travessia, Finnan – ele disse erguendo o copo para o experiente marinheiro, que levantou seu copo vazio em solenidade – finalmente poderei ir para casa matar saudades da Jane.

O jovem marujo ergue a manga revelando a tatuagem de uma rosa, com o nome de Jane escrito. Finnan olhou de canto, pediu mais uma dose e arregaçou também as mangas revelando uma rosa ainda maior, com três nomes femininos. Sorriu de volta para o garoto.

– Também vou para casa, garoto. Pretendo abraçar as mulheres da minha vida bem forte para compensar os meses em que lutamos contra as ondas.

– Deixe-me adivinhar: mãe, esposa e filha, nessa mesma ordem – disse o jovem tomando mais um gole de seu pint – muito bonita a rosa para todas elas.

O velho marinheiro sorriu com a dor tomando o canto de seus lábios. Talvez não conseguira nem convencer a si mesmo de que conseguiria mesmo abraçar todas as três. A esposa havia brigado com ele dias antes da viagem, conta de uma bebedeira, uma briga de bar e uma noitada no beco do pub. Aquilo era imperdoável para ela, a doce Carolyn, cujo primeiro nome ardia na pele de Finnan.

A filha era muito pequena e mal conhecia o pai beberrão e a mãe havia morrido durante a primeira semana de navegação. Finnan só tinha sido notificado minutos depois de botar o primeiro pé para dentro do bar.

Botou seu chapéu, ajeitou o casaco e preparou-se para se retirar. O jovem marujo o segurou pelo braço e olhou fundo nos olhos. O respeito que tinha com aquele barbudo de meia idade era indiscutível.

– O senhor não me engana, senhor Finnan. Eu sei que por trás desse olhar simpático há um quê de dor. O que aconteceu?

– Você jamais entenderia, garoto.

– Tente-me. O senhor não pode ter tanta certeza.

– Pois eu não tenho certeza, garoto. Apenas torço para que você chegue ao último dia de sua vida sem ter essa dor no peito. Pense que por mais forte que possamos ser, a ponto de aguentar uma agulha eternizando cada pequena letra do nome dela em nossa pele, tudo o que fazemos que parta um coração a dois dói mais do que páginas de um romance barato podem descrever – Finnan concluiu retribuindo o toque no ombro.

O jovem marujo deu um sorriso sincero. Deu um leve tapa no braço do velho e voltou-se para o seu copo.

– O mar mexeu muito com o senhor, senhor Finnan. Vá para casa, Carolyn deve star esperando você com muitas saudades.

Aquilo foi uma forte surpresa. Finnan apenas perguntou como o jovem sabia disso tudo.

– Eu apenas sei, senhor Finnan, eu apenas sei.

E com um sorriso assentido, Finnan saiu do bar ao encontro de Carolyn, enquanto o jovem marujo pagou sua bebida, colocou o casaco e viu que era hora de ir para os braços de sua doce Jane novamente.

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