Quando a Barra Afunda.

Rotina é uma desculpa esfarrapada, travestida de estado de espírito, para quando a alma não tem vontade de fazer mais nada.

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Nos últimos quatro ou cinco meses a minha rotina já não me permitia mais acreditar nos conceitos de liberdade individual. Nada daquele falatório clássico e universal de viagens ao redor do mundo, desapego dos bens materiais ou então aproveitar duas horas da sua vida para ler ou curtir um bom filme.

Todos esses momentos eu perdia no trânsito entre a Paulista e o ABC; achava até que era uma questão de fazer as contas no caderno para ver quantos anos eu perdi da minha vida só sentado no meu carro, ouvindo o mesmo cd de sempre, com as mesmas buzinas de background.

Não era casado, mas tinha, há muito tempo, juntado as escovas com ela. Tínhamos nos conhecido no colegial e desde então assumimos o compromisso que fez com que a gente alugasse um apartamento perto da linha do trem de São Caetano do Sul. Ela tinha saído de seu emprego, descontente com a profissão, e eu continuava engolindo bosta apenas para manter as contas quitadas antes da data de validade.

Foi uma quinta-feira quando eu cheguei em casa às quatro horas da manhã que o que já era ruim começou a se tornar insuportável. Lidei com 10 horas diretas de trabalho, um pouco do trânsito na madrugada e uma batida policial na única entrada da cidade. Entrei no escuro sendo recebido pelo efusivo Max e uma saraivada de palavras ásperas e duras.

–       Obrigada por me deixar esperando até essa hora, de ter desmarcado nosso cinema, de não levar essa porcaria de animal pra dar uma volta.

–       Não tive outra opção, eles precisavam de mim.

O argumento foi em vão. E a pior coisa que você pode fazer ao chegar às quatro da manhã cansado, sem saber direito onde está pisando, é usar um argumento em vão. Verdade até que eu nunca fui bom em argumentos. Nunca ganhei uma discussão sobre futebol com meus amigos, nem ao menos consegui enfiar na cabeça daqueles caras na internet que achava Karl Marx um bundão. Nem consegui ao menos uma prova concreta a favor do meu humorista favorito, que desagradou uma galera com uma piada ruim. Não eram às quatro da manhã que eu teria argumento para discutir com ela.

–       Eu sei que você trabalhou até tarde, mas não é possível que seja todo dia. E eu, como fico?

–       Você fica em casa esperando eu chegar – disse batendo a porta do banheiro e sonhando com um pouco de água quente. Mas ela não ia desistir.

Eu não vou entrar em detalhes, nem reproduzir os diálogos e as ofensas que seguiram até umas sete horas, mais ou menos. Lembro-me apenas que depois de tudo, ela arrumou suas malas e me pediu que eu a levasse até a Barra Funda, de onde iria voltar para a casa dos pais. A rodoviária de São Caetano era ali perto e o trem também faria essa trajetória, mas para evitar mais discussões, preferi ceder e leva-la até lá.

Quatro ou cinco meses se passaram desde então e a rotina, claro, ainda não me permite mais viver como nos discursos espalhados pela internet e pelas revistas de moda feminina por aí. Mas a vantagem é que agora, mesmo perdendo parte da minha vida no trânsito e chegando em casa tarde, às quatro da manhã, o Max ainda tá feliz em me ver. Ah, ele é um vira-lata que eu achei abandonado na frente da agência, mas isso já é uma outra história.

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