Fuckin’ september (o texto é meu, ponho em inglês se quiser)

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Entre todos os fatores que contribuem de maneira a beneficiar as relações humanas, certamente a escrita figura no pódio entre as mais importantes. Há quem discorde, mas eu sempre acreditei que um texto, seja em um livro ou algum outro lugar, fazia qualquer episódio insignificante da vida de alguém se tornar curioso ao resto dos outros. Amigos são aqueles que sabem fingir melhor o interesse nas conquistas boçais que você tem no dia a dia, como achar exatamente o valor da passagem do busão no bolso da calça. Quanto ao resto, a falta da intimidade ainda é um escudo, uma barreira à prova de assuntos mais banais

Há quem use com primor o recurso da escrita e sabe transformar aquele diálogo idiota com a menina que veio fazer entrevista para estágio no banco em uma obra-prima do questionamento da vida em um lugar ou outro. O mesmo vale para os sonhos; quem mais se interessaria em saber aquele seu sonho com militares russos sem escrúpulos a não ser você mesmo? Pois é, um texto bem escrito faz cada um desses aspectos se tornar interessante.

Eu pensei nisso enquanto via gotas e mais gotas de chuva caírem na minha cara, enquanto eu tentava fugir de cada uma delas na frágil e precária cobertura do ponto de ônibus. Era quase fim de setembro e eu estava há duas semanas me torturando numa rotina fora da que eu estava acostumado. Havia estraçalhado o carro no começo do mês e, desde então, lutava para achar as moedas que sempre me faltavam. Eu sabia que aquele acidente – se assim podemos dizer a imprudência de dirigir cansado – seria o presságio para uma onda de má sorte e perturbações. Nunca tive razão de nada, apenas para visões pessimistas.

Meu carro tinha previsão de duas semanas de reparo, contanto que o mecânico começasse; quanto a isso, infelizmente ainda não havia previsão. Só me restava tentar o conforto em coisas irrelevantes como gostar de correr atrás de um veículo mais rápido que eu, acessar redes sociais pelo 3G – aprender a gostar de fuçar os recursos de um smartphone foi uma readaptação do estilo de vida – e gostar de ouvir duas mulheres com perfil de ‘carolas’ reclamarem uma para a outra sobre seus filhos, maridos, empregos e vizinhos.

A falta do carro doía, nem tanto pelo privilégio de ir e voltar a hora que eu quisesse, mas por poder seguir meus impulsos de ir a qualquer lugar a qualquer hora. Passei a depender mais de quem eu menos queria, e que aproveitava cada situação para me condenar, me provocar e continuar apontando o dedo na minha cara como o responsável por toda a miséria que ele mesmo fez de sua vida.

Setembro foi passando, como uma lesma atravessa uma varanda. A passos lentos, via em câmera lenta a má fase dando seus primeiros sinais de quem estava de volta, como um parente persona non grata quando chega de repente na sua casa naquele domingo de manhã.

Eu ainda estava fugindo da chuva debaixo daquele ponto de ônibus e o 3G se negava a me permitir uma distração. O livro não dava para ser aberto por conta da água e o ônibus, bem, ele me dizia, em segredo, que eu deveria aprender a conviver com os horários dos outros e não com os meus. Eu continuava ali pensando no carro, na besteira, na burrice e no cretino que nunca me estendeu uma mão. Setembro ainda estava no final, mas como todo bom final, quanto mais se aproxima do fim, mais longe parece.

E por não ser um primor na escrita, nem mesmo o momento mais decepcionante que tive no ano se tornou interessante para alguém. Tudo bem, uma hora a chuva passa.

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