Pastel de Moyashi

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Fazia um calor intenso naquela noite em que a colônia japonesa celebrava seus tantos anos de imigração. E o clima se tornava ainda mais abafado por conta das fumaças das panelas, fritadeiras e do grito caloroso dos descendentes vendendo seus pratos.

Sentado em frente a uma das barracas estava Alfredo, um cidadão médio e solitário que aproveitava os minutos depois do trabalho para apreciar um lámen acompanhado da queima de fogos e da tradicional cultura oriental. Continuava a comer enquanto se animava com aquele monte de gente feliz, idosos japoneses que choravam de alegria relembrando a Terra do Sol Nascente, e crianças que se penduravam no braço dos avôs, sem saber como era o lugar de onde herdaram seus olhinhos puxados e toda aquela disciplina que dava inveja a todos nós.

Foi quando ela se aproximou, parou ao seu lado e pediu alguma coisa. Ela não olhou para o lado, mas Alfredo parou tão instantâneo quanto o miojo para encarar seus cabelos loiros, quase brancos. Eles, sem dúvida alguma eram mais chamativos que os fogos.

Alfredo olhava de canto dos olhos enquanto ela sorria para um dos japoneses da barraca e recolhia suas fichas. Assim que ela percebeu, puxou a cadeira mais próxima, se sentou e olhou para ele. Suas bochechas coraram e ele passou a olhar para dentro da tigela.

– Olha, não precisa ter vergonha de mim – disse abrindo um sorriso.

– Mas…eu…não tô com vergonha. Nem sei de onde você tirou isso – ele respondeu ainda olhando para dentro da tigela.

– Ah, para de ladainha, amigo. Suas bochechas não iam ficar vermelhas de repente. Bem, quer dizer, a menos que tivesse pimenta nisso aí que você tá comendo.

– Não, não tem…

-…pimenta. Eu sei que não tem pimenta. Isso é vergonha, sim. E fica tranquilo, não vou te morder.

Timidez é uma merda. Timidez é um sentimento sem vergonha, em que sua própria explicação é tímida. Minha vó já dizia que só sofre de timidez quem não tem coragem de mostrar seus olhos para o mundo. E se existe algo que um ser humano deveria sentir vergonha é de esconder o seu olhar, ainda mais para quem realmente se interessa em reperá-lo, ver qual cor ele realmente é. Alfredo, assim como eu, era assim, tímido que só, com vergonha de mostrar o olhar e a gente já sabe que timidez e vergonha são dignas de pena. Ainda assim ele olhou. De cabeça baixa, mas olhou.

– Eu acho que te conheço de algum lugar – ela tentava ainda assim quebrar aquela barreira de bochechas coradas e olhares escondidos.

– É bem provável, eu vivo perambulando por aí.

– Cara, eu tô falando sério. Deixa eu ver seus olhos.

Alfredo se virou, pateticamente. O olhar de ambos se cruzaram, é verdade, mas o dela atravessou sua barreira como uma lança venenosa. Alfredo travou, assim como sua respiração que balbuciou por alguns instantes. Não conseguia mais se esconder, era tarde demais, já a havia olhado nos olhos. E sua timidez refratou naquele golpe, fazendo com que ele abaixasse a tigela e esboçasse um sorriso pateta.

A conversa durou quase o resto da feira inteira, debaixo de fogos e de gritos dos japoneses que ainda vendiam seus pratos. Entre um papo e outro, Alfredo ficava cada vez mais bobo, encontrava um pouco de si em cada palavra pronunciada, em cada história débil que compartilhavam. Ela estendeu um cartãozinho e disse para ligar um dia, eles podiam terminar essa conversa em outro lugar.

Ah, o fim da solidão. O fim dos julgamentos. O peso da timidez caiu, aliviando os ombros de Alfredo, que há tempos não havia se sentido tão bem daquele jeito. Chegou em casa cantando, o que não fazia há dias.

Ao se ver no espelho, antes do banho, teve a surpresa. Viu seu cabelo loiro, quase branco. Mas ao invés de ver sua imagem, viu a dela. O mesmo olhar, o mesmo sorriso.

Naquele instante Alfredo compreendeu. Se viu fisgado por si mesmo, por quem realmente era. Com exceção, talvez, dos defeitos que sempre fez prevalecer para si mesmo.

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