Mundo e vício sem verso nem inverso.

Cuidado ao matar os seus demônios
O equilíbrio vive entre a virtude e o vício
E a gente nunca sabe qual é o defeito
Que sustenta esse nosso edifício

– Vespas Mandarinas

6tag_310813-114315[1]

         Nem ambição, nem ganância. Desde que o mundo é mundo, quem o faz se mover na velocidade que quer, nos movimentos em que faz questão, é o vício.
Não os vícios coletivos, como aqueles de beber vodka com energético, ou de começar uma redação de vestibular direto na folha de resposta e com caneta esferográfica azul, mas sim o vício individual. O indivíduo, sendo peculiar à sua maneira, é capaz de criar seu próprio mundo, enquanto faz uso de seu vício para decorá-lo como se fosse uma sala. No caso dele, o mundo era uma grande sala branca, com um quadro, um sofá desgastado e uma mesa de mármore meio velha, com um cinzeiro bem ao centro. E o seu vício era o de chegar, todos os dias às sete da noite, acender um cigarro e sentar na ponta no sofá.
Fechava as janelas, as portas e qualquer oportunidade de deixar o ar circular. Não tragava, nem ao menos ameaçava fazer isso. Apenas colocava o cigarro na boca, acendia-o com brasas e depois, lentamente, o apoiava no cinzeiro de vidro, lembrança do pai. Mantinha a televisão desligada e continuava a admirar o cigarro queimando sorrateiramente, como uma vida tediosa de um cidadão de classe média normal, que se desgasta sempre da mesma forma.
Enquanto a fumaça tomava conta da sala, ele ficava ali tossindo e escarrando, como um suicida paciente, gesticulando, gemendo e chorando com aquele monte de toxinas na cara. Mas, tudo bem: era seu vício, era o que fazia o seu mundo continuar girando.
Assim que o cigarro terminava, abria as janelas, se pendurava nela e tentava, finalmente, se desvencilhar do sufoco que ele mesmo provocava. Depois, era hora de ligar a TV e exterminar um pacote do salgadinho mais vagabundo.
No andar de cima, ela preferia se trancar no quarto, mesmo morando sozinha. Odiava Alanis, mas ligava o rádio sempre em alguma música dela, do CD que havia gravado. Pegava a vassoura, que se passava de violão, e cantava usando o cabide como microfone. Fazia isso durante quarenta minutos. Dançava, balançava a cabeça. Todos os gestos que dificilmente Alanis faria durante seu show.
A persiana ficava extremamente fechada durante aquele tempo, pois tinha medo de que alguém pudesse vê-la. E tinha razão. No prédio da frente, um outro rapaz sempre apontava um telescópio para a sua janela, esperando a persiana ser baixada. E ficava ali por horas, perdido em pensamentos obscenos, imaginando se estaria nua, se estaria fazendo algo que não deveria fazer com as janelas abertas. Quando ela subia a persiana de novo, ele sabia que era a hora de parar e ir para seu computador jogar seus jogos online.
Aquela era apenas uma das ruas do mundo em que as pessoas conviviam, cada qual com seu vício, cada qual com seu mundo. Enquanto isso, eu passava a observá-los, um a um, e listar cronologicamente seus atos durante o dia.
Afinal, como um bom indivíduo, peculiar que só eu, eu tinha meu vício e tinha meu mundo. Que um ditasse então como o outro deveria girar e se mover no vago universo em que eu habitava.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s