Uma canção para a liberdade

Chasing down some blue sky in my old truck
Tune the world out, turn the radio up
Sing along to my freedom song

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A roupa espalhada no chão do quarto, camisa após calça, meia após cueca, denunciavam o quanto aquela ducha iria lavar a alma de Frank depois de dois turnos seguidos. A luz do banheiro queimava, de maneira incandescente, enquanto o vapor da água tomava conta do ambiente. Bem de leve, ao fundo, ouvia-se baixinho um trecho do último hit do Blackberry Smoke.
O cheque de trezentos reais jazia no bolso de trás da calça e reluzia em contraste com o piso frio de ardósia na qual Frank pisava. Enxugou o rosto e suspirou firme antes de vê-lo chamando direto pelo piso. A música continuava tocando ao fundo.
Trezentos reais, Frank pensou. Uma rotina desgraçada em troca de um cheque, que ficaria quase que integralmente nas mãos da ex-mulher, aquela desgraçada. Sacudiu um pouco os cabelos grisalhos e olhou de novo para o cheque.
Como um ser humano comum e dotados de defeitos e pecados, um cifrão anotado próximo algumas centenas eram o suficiente para prenderem a sua atenção por um longo período. E esses mesmos defeitos e falhas seriam os suficientes para que, de uma hora pra outra, a insanidade saísse de sua mente. Tomado pelo desejo alimentado pelo dinheiro, Frank pegou o cheque e partiu em direção ao velho guarda-roupas.
Pegou a camiseta surrada do ZZ Top e aquela velha camisa flanelada que ganhara da vagabunda anos antes. Vestiu o boné de tela preto e branco, uma calça jeans gasta e as velhas botas caramelo. Trezentos reais e as chaves do caminhão eram tudo o que ele precisava para finalmente sair de casa. E era o que ia fazer.
Se a vida era organizada pelas noções de tempo e espaço, Frank agora colocaria mais algum valor numérico na equação. Não sabia para onde iria, nem quanto tempo planejava ficar fora. Iria para onde aqueles trezentos mangos – mais algumas economias – o pudessem levar.
Colocou Deus do lado direito do retrovisor e a filha ao esquerdo. Fez o último sinal da cruz e
pegou a estrada que dava sentido à sua nova vida. E, como sempre, a música nova do Blackberry Smoke tocando. Acelerou o velho Scania e seguiu pela faixa da direita, costurando alguns poucos amigos, que cumprimentava com a potente buzina. Todos saudavam em resposta alegre, como se concordassem com a decisão que havia tomado.
Quando Frank passou a fronteira entre São Paulo e Paraná, agarrou o cheque, picotou com as próprias mãos e jogou pela ponte. A vida era realmente manipulada pelo tempo e pelo espaço. Não ia ser agora que o dinheiro iria ditar quando e onde parar.
E se a ex-mulher também precisasse do dinheiro, Frank pensava, o que não faltavam na cidade que morava eram esquinas. E lá se foi Frank, numa estrada empoeirada, sozinho, com Deus e a filha no espelho e quatro barbudos no rádio. A vida faria sentido enquanto o Scania ainda quisesse percorrê-la.

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