Às sete horas…

Eu preciso de um amigo pra achar minha mente danificada, antes que ela caia aos pedaços
– Billy Talent

Às sete horas da manhã, enquanto algumas famílias ainda se reuniam para tomar café, Jairo batia o cobertor na grade de ferro e esticava o papelão de volta na parede do antigo fórum. Acendeu o último cigarro que tinha, sentou no chão e esperou pela companhia do Adalberto, que vinha atravessando a rua com seu papelão e também com seu cobertor.
– Hoje esfriou, né, cumpadi? – disse Jairo, enquanto se encolhia no canto.
– É, hoje tá foda, amigo.
– Vai uma pinguinha aí?
– Ah, não, obrigado. Hoje eu tô sauve – Adalberto gemeu, esticando o papelão ao lado do amigo.
A praça Frei Baraúna era grande, mas os dois mendigos amigos faziam questão de ficarem, um ao lado do outro, sentados na parede de trás do antigo fórum. Pelo menos lá eles tinham uma vista melhor do comércio, dos carros e dos pequenos guardas, coisas que costumavam olhar com mais frequência no dia a dia. Jairo era um dos mais renomados jornalistas do sul do país, mas resolvera largar tudo depois que viu a esposa fugindo para a capital com um personal trainner. O seu companheiro, Adalberto, sempre viveu nas ruas atrás de um prato de comida.
– Lá vai o guarda gordinho de novo, Adalberto – Jairo apontou – me fala se não parece uma foca se debatendo.
Jairo mantinha carinho por Adalberto. Apesar de hoje viver na rua, foi o amigo quem o encontrou caído, bêbado, próximo da rodoviária. Não tinha um teto para dividir, mas funcionou para o amigo como uma clínica de reabilitação. Deu tão certo que Jairo se livrou dos três maiores vícios: a bebida, o apego ao passado promissor e a mania de ligar para a ex-mulher depois de umas duas garrafas de conhaques.
Eles riam do guarda gordo, que corria se debatendo atrás de um grupo de adolescentes com latas de tinta spray. “Foda-se o sistema”, eles pixavam nas paredes do antigo fórum. E que se fodesse mesmo o sistema, aquele que fodeu com Jairo e com Adalberto, mesmo que esse último talvez nem soubesse do que se tratava.
– Quantos anos você tem, Adalberto?
– Tenho 31. Fiz semana passada.
– Ah, é. Eu nem lembrava quantos anos eram, apenas que era seu aniversário. Me sinto um péssimo amigo.
– Imagina, Jairo. Você é o meu maior amigo.
Jairo fitou o amigo por mais alguns momentos. No auge dos seus 48 anos, voltou a sorrir de novo por entre aquela barba branca, comprida e suja.
– Vou aceitar a pinguinha agora – Adalberto se debruçava para pegar a moringa.
Ele fitava os movimentos descoordenados do amigo. Via ali o retrato de alguém que nunca teve nada na vida, nem carro, nem casa, nem graduação, nem os maiores prêmios que um dia fizeram parte da prateleira de Jairo. E ainda assim parecia feliz. Era impossível tirar algo de alguém que nunca teve nada, oposto ao que ele viveu: viu ser tirado dele tudo o que conseguira. E essa dor, ele entendia agora, teria que lidar com ela antes que ela o liquidasse.
Se levantou, pegou as últimas moedas e foi na direção do bar do chinês. Comprou uma coxinha fria, acendeu um fósforo e enfiou na comida. Entregou ao amigo.
– Feliz aniversário atrasado. A um grande homem que nunca teve nada na vida, além do essencial para um homem viver em paz.
– Poxa, Jairo, obrigado. E o que seria essa coisa? – Adalberto fitava a coxinha trêmulo e feliz.
– Caráter, meu amigo. Um grande caráter. Agora ali o gordo apanhando ha ha ha.
E dividiram a coxinha, a pinga e as risadas. O guarda gordinho tomava socos e chutes de todos os jovens. Era só mais uma tarde comum ali na Frei Baraúna.

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