Paola e seu presságio para a ruína

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– Se eu pedir o de fraldinha eles trazem o bebê junto?
Foi a última piada que ele fez quando notou meu semblante se fechando. Baixei lentamente o cardápio e, com os olhos fundos, prontos para criar estática com o olhar dele, recriminei aquela atitude. Ele, claro, se espantou com isso e, ao contrário de mim, escondeu-se atrás da piada ridícula e do prato que ele escolheu tirar sarro.
Naquele momento as palavras de meu pai passearam em minha mente, como nunca haviam feito antes. Paola, preste atenção, gracejos são divisores de águas, ele dizia. O problema não está em rir delas, muito pelo contrário: quando uma delas não for mais capaz de fazer você feliz, é porque uma pequena fissura surgiu. Um presságio para a ruína que, quando chega, torna difícil correr contra a direção que as rochas deslizam.
Fazia muito sentido agora. Continuei olhando para ele, agora já com o olhar mais vago, enquanto ele ainda parecia se esconder atrás do cardápio como uma criança com medo de um cachorro bravo.
– Que bosta de piada, heim? – questionei tentando soar simpática, sem saber que acabara sendo mais rude que de costume.
– Desculpa. Achei que seria engraçada. Achei que pelo menos você acharia engraçada.
Pelo menos eu acharia engraçada, ele disse. A partir do momento que uma pessoa faz uma piada sem graça para você, isso pode servir como a prova de um alto grau de confiança, o famoso quebra gelo. Mas quem ele achava que era para julgar que pelo menos eu acharia aquela piada engraçada? Troquei meu inconformismo pelos primeiros sintomas da raiva. Já não conseguia vê-lo com o mesmo olhar de quando nos encontramos antes de vir para cá.
Meu Deus, eu pensava, o que será que aquilo queria dizer? Seria mesmo que eu estava sendo capaz de deixar aquela fissura se abrir em um relacionamento que estava a poucos momentos de completar seu décimo aniversário? Não era possível.
– Você está bem, Paola?
Ora, é claro que eu estou bem. Quer dizer, eu sei que eu estou, ou que eu estava. Mas e nós? Nós estávamos tão bem quanto achávamos? Fechei lentamente o cardápio sem me preocupar em fazer um pedido, debruçando minhas mãos sobre a capa de couro. Uma lágrima sem graça planejava escapar do meu olhar.
– Foi por que eu falei em bebê? Não quis dizer que era para termos um.
Ele ainda não entendia. Meu olhar continuava vago, como se tentasse fitar o olhar da piada que ele disse. Ela era engraçada, pelo menos para mim…ou deveria ser, e já não era.
Lutei contra a ideia, meu olhar já se perdendo cada vez mais em meio a tantas luzes, velas, talheres e pessoas.
– VOCÊ É UM CRETINO E EU TE ODEIO! – levantei da mesa com as lágrimas já desmanchando toda a maquiagem. Saí correndo pelo restaurante na direção do primeiro táxi que pudesse ver.
– Espera, Paola, pelo amor de Deus, me espera! – ele gritou correndo atrás de mim.
A fissura ficava cada vez maior. Eu sabia que quanto mais eu corresse dele, mais tentasse ficar longe, mais ela se rasgaria como a um papel num pequeno movimento.
Desde então, não lembro o que aconteceu em nossa última conversa. Ela não foi uma piada, nem mesmo aquela sem gracinha que nos mantinha um ao lado do outro. Pousei a caneta sobre a prancheta e olhei na direção da fonte do parque.
Tinha escrito numa página do diário o quanto uma piada sem graça podia dividir momentos, podia dividir a relação…podiam dividir nós dois. E fizeram tudo isso. Não me sentia mais a mesma Paola desde então, e não sabia se daria risada de uma piada sem graça novamente. Aliás, esse era meu maior medo, já que o momento mais triste de uma piada sem graça é quando ela já não tem graça mais.

Presságio para a ruína é uma minissérie, dividida em dois textos. A outra parte você pode ler no Charme de Outrora.

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