Um cidadão médio, de vida média.

Foto aleatória que tirei em São Paulo

Foto aleatória que tirei em São Paulo

Um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer que as coisas não pareçam o que são.
Miguel de Cervantes

Sonho todas as noites que sou um escritor famoso, que autografo volumes e mais volumes em livrarias do país todo, que tiro foto com fãs de todas as regiões, que tenho minhas obras traduzidas em diversos idiomas, me tornando um expoente da literatura não mundial, mas universal.
Mas, ao contrário de grandes escritores, não consigo me imaginar protagonista de nada. Não suporto, por mais que já tenha tentado, me tornar o centro das atenções, não consigo nem ao menos achar que alguém se importaria em saber como cheguei a essa idade com tantos demônios fanfarrões na cabeça. E também, por mais que eu ainda queira realizar meu sonho de lançar um livro, não tenho a mínima paciência de começar a escrever um.
Nessas horas eu prefiro contos curtos. Personagens de um único problema, numa situação completamente absurda. Eles me tomam menos tempo de reclamação, deixando alguns minutos livres para eu tomar atitudes que mudem minha vida.
Essa é a história de um deles, que vou chamar aqui de Saulo Vilanova. Saulo era um estudante médio, de uma universidade média, um curso médio e exercia uma profissão média. Era um cidadão na média, por mais que se considerasse bem abaixo.
Saulo caminhava pela rua a passos curtos e cabeça baixa, sempre olhando sua autoconfiança na sola dos sapatos. Sabia que olhar para a frente só era necessário em alguns casos. Mãos no bolso, com os punhos cerrados, trazendo em cada um deles um pouco de depressão e ansiedade. Saulo continuava dividido em três: o que fora, o que achava que seria e o que o convencia de que nunca ia ser. Limitava-se por si só, buscava ficar cada vez menos visível em uma multidão que nunca se importou em vê-lo.
Foi quando levantou a cabeça e olhou para a frente na primeira vez do dia; precisava ver qual o lado da plataforma do metrô ele se encontrava, Tucuruvi ou Jabaquara. Olhou, baixou de novo a cabeça e ficou esperando atrás da linha amarela, como um cidadão médio faria numa situação média.
Fechou os olhos por alguns momentos e se concentrou na música que ouvia pelo fone. Recebeu um esbarrão que o deslocou exatos trinta e oito milímetros para a frente.
Saulo abriu os olhos e olhou para sua direita.
– Ai, moço, mil perdões.
– Tudo bem, senhor par de sapatos marrons
A moça riu. Foi a resposta mais estranha que recebeu em dias.
– Foi a resposta mais estranha que recebi em dias. – ela respondeu
Saulo imaginava como pares feios de sapatos marrons poderiam ter uma voz tão bonita. Olhou pela primeira vez para a frente de novo, na direção do muro da estação.
– Devo ter sido a pessoa mais estranha que você viu em dias. – respondeu.
– Muito provável.
O trem havia chegado segundos depois do hiato do diálogo. O par de sapatos marrom entrou. Saulo ficou para trás.
– Você não vai entrar? – ela perguntou já caminhando em direção a porta, numa São Paulo mais ou menos educada.
– Não. Vou esperar o próximo.
– Mas…isso é o metrô.
– Vou esperar o próximo – ele respondeu com o olhar ainda para baixo.
Ela deu de ombros, ainda sem entender a atitude dele. Ninguém entendia, essa era a verdade, nem o próprio Saulo.
Assim que o trem saiu, ele subiu a estação e voltou para a rua. Entrou em algum café ali por perto e sacou o celular. Passava das seis horas da manhã. Um som ensurdecedor começou a apitar forte por todos os lados, agoniando o ouvido a mente de Saulo.
Acordou em desespero na sua cama, com o despertador vibrando no criado-mudo.
Esse era Saulo Vilanova, estranho até no próprio sonho.

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One comment

  1. Paulo H.

    ‘ Não suporto, por mais que já tenha tentado, me tornar o centro das atenções, não consigo nem ao menos achar que alguém se importaria em saber como cheguei a essa idade com tantos demônios fanfarrões na cabeça. E também, por mais que eu ainda queira realizar meu sonho de lançar um livro, não tenho a mínima paciência de começar a escrever um.’

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