Sem nenhum pingo de carinho, para uma grande companheira.

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Dizem que o homem, durante a vida, possui três grandes amigos: o whiksey, o dinheiro e a barriga. O whiskey eu não tinha. O dinheiro tampouco. Mas a barriga – a boa e velha barriga – parecia ser mais fiel do que muita namorada de sétima série.
Eu ainda não conseguia explicar, nem mesmo entender, o que acontecia desde minha infância que refletia direto naquela pequena figura côncava que meu corpo projetava. Eu não praticava exageros, também não havia comido nenhuma das bolas de capotão que ganhei durante meus 20 anos. Era algo inexplicável do ponto da engenharia e da biologia.
Lembro-me muito bem quando tinha quatro anos e corria pela varanda da casa da minha avó só de bermuda, sem camisa e com cabelo tigelinha. Por viver intensamente brincadeiras idiotas, como me jogar no chão imitando personagens de desenho, estar com as mãos sempre sujas e não ter um pingo de higiene, minha vó, lá da mesa de mármore da cozinha, formulava a primeira teoria.
– É verme – ela dizia, socando o punho na mesa.
Por muito pouco não virei garoto propaganda do Licor de Cacau Xavier. Todos os dias eu tomava aquilo, com a mesma cara feia, com a mesma tentativa inútil de resistência. Mas eu sempre era pego pelas autoridades, que enfiavam aquele troço amargo na minha garganta. Foi assim durante alguns anos, creio que uns 2 ou 3. Nunca dei adeus para nenhuma tênia no vaso sanitário.
O tempo passou – e eu sofri calado – e eu já me encontrava com sete anos. Eu era bonitinho, era o queridinho da sala de aula. Mas para me acompanhar durante todos os momentos, lá estava a pequena pancinha.
As aulas de educação física se tornavam um terror. Ainda mais com aquele bando de crianças caipiras maldosas que estudavam comigo. Formávamos uma linha, tipo paredão de fuzilamento. O professor ordenava posição de sentido e nos fazia cantar o hino nacional antes de sair chutando bolas e canelas pela quadra, com dois times pré-selecionados.
– Aranha, isso não tem graça. Tira a bola de futebol da camiseta.
As risadas se alastravam pela quadra na mesma velocidade que meu rosto corava. Era cruel. Mas a barriga não ligava.
Na adolescência era pior ainda.
– Ô gordinho! Cala a boca e presta atenção na aula – um professor de dois metros de diâmetro se referia a mim.
E ao final do colegial, a sátira voltada à minha região circular abdominal se tornava mais grave ainda.
– Saindo daqui a gente pode ir pra minha casa. Meus pais foram viajar.
– Pra que ir na sua casa? Não, eu já faço pilates durante a semana.
Minha mãe resolveu seguir a tradição de curandeira da minha vó e formulou a segunda teoria:
– Diz aqui o Portal que barriga grande é querer abraçar o problema das pessoas.
– Mas, mãe, eu quero mais que as pessoas se fodam!
– É querer abraçar o problema das pessoas.
E lá ia eu, quase dois dias por semana na terapia em função do meu quê pelos problemas alheios. Eu saí de lá ainda mais desapegado ao mundo, mas a barriga parecia cada vez mais ligada a mim.
Eu já estava cansado e sabia que deveria tomar uma atitude. Apelei para regimes, exercícios e dietas radicais. Saia fazer caminhada e até fazia abdominais após o banho. Essas opções surtiram tanto efeito quanto o Licor de Cacau Xavier e as terapias. A barriga continuava ali.
Recentemente, acordei no meio da noite com o barulho da chuva. Ao fundo, bem baixinho, eu conseguia ouvir algumas celebridades falando algo sem sentido na TV. Abri os olhos bem devagar e vi que a tigela de salgadinhos ainda estava equilibrada na minha barriga.
Quando finalmente acordei de vez, olhei para baixo. Minha barriga mantinha a tigela ainda de pé, como se me oferecesse um salgadinho.
Levantei e fui até a geladeira, peguei uma cerveja e brindei com a pança. Ainda não tinha o whiskey, nem o dinheiro, mas sabia que minha terceira grande amiga não queria ir embora por mais um bom tempo.

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