No meio da noite.

Está frio demais para um fim de setembro
O vento do outono já vem chegando
O sol do verão já levantou acampamento e se foi faz tempo
Há muitas despedidas acontecendo
                                                         – Bon Jovi, “Whole lot of Leaving”
 
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               Era mais de meia noite. Em outras palavras, um horário inoportuno para que um tijolo atravessasse a janela do apartamento de Franco.

                Assim veio o bloco de barro, a uma velocidade não muito rápida, mas com o suficiente para estilhaçar o vidro e se estatelar no chão de ardósia. Ventava muito e a cortina já balançava como duas vidas inteiras frente a uma despedida.

                Ele se levantou ainda com a respiração acelerada do susto e foi verificar o objeto que se intrometeu em sua leitura no meio da noite. Havia um pequeno bilhete nele.

                “Desculpe a abordagem, mas era a única forma que eu tinha de fazer seu coração bater mais rápido por minha culpa. Novamente, me desculpe”

                Não estava assinado, mas ele reconhecia pela letra. Era dela, seu maior fantasma, de dez ou doze anos atrás. Ainda era a mesma pessoa, era totalmente imprevisível e ao mesmo tempo errada, do jeito que ele se apaixonou por ela naquele circo que se instalou na cidade que cresceram. Seu coração bateu mais forte pela segunda vez. Achou até que seriam seus últimos suspiros e seus últimos minutos.

                Fechou o livro e puxou o zíper da blusa da Adidas. Caminhou em direção à janela, olhando cretinamente para a calçada. Viu uns médios fios de cabelo loiro balançando ao vento, cobertos simbolicamente por uma toquinha a lá francesa. O coração bateu pela terceira vez.

                Ela acenou para a janela já se preparando para tomar seu caminho.

                – Desculpa o vidro. – ela gritou lá de baixo apertando o sobretudo contra o peito, tentando se proteger do gélido frio paulistano.

                – Porra, isso vai me ferrar quando acabar o contrato. – ele gritou de volta, mas com o sorriso tomando forma. Havia muito tempo que achava que não a veria de novo.

                – Eu tô voltando pra casa. Fiquei uns dias e descobri onde você tava morando.

                – Por que não me disse antes que estava por aqui? Mandasse um inbox no Facebook. – ele gritava de sua janela. Os vizinhos já começavam a se incomodar com a situação.

                – Achei que você não iria dar a mínima. Mas depois decidi vir e te ver uma última vez antes de voltar.

                – Espere um pouco, eu vou descer – ele continuava gritando.

                Colocou um gorro na cabeça, calçou seu tênis surrado e saiu em disparada pelo corredor do andar. Apertava desesperadamente o botão do elevador na esperança que ele viesse mais rápido. Não veio.

                Desceu mesmo pelas escadas, atropelando todas as portas da saída de incêndio. Esbarrou a porta do hall e desbravou calçada afora. Ela não estava mais lá.

                Começou a desviar seu olhar por todos os lados; desenhou a rosa dos ventos com a retina. A tristeza tomou seu olhar, enquanto esperava mais um pouco debaixo do frio.

                Frustrado subiu devagar para seu apartamento. O frio já não fazia diferença para ele, que tirou a blusa e o gorro enquanto subia as escadas.

                Nunca fora bom com despedidas, ela tampouco e isso, ele sabia, era fruto de seus maiores defeitos. Ambos eram imprevisíveis e errados, e a chuva de despedidas que passou pela relação nunca os deixou dizer adeus direito.

                Franco entrou em seu apartamento e viu um bilhete em cima da mesa. O frio voltou a fazer diferença, mas agora era bem mais forte que antes.

                Avançou na direção da velha mesinha suja de madeira e abriu o pedaço de papel, que dizia:

                “Desculpa ser breve, eu não podia ficar muito mais tempo. Mas, leve o tempo que precisar até você resolver suas coisas, eu estarei te esperando. Não sou boa para despedidas, então deixo um singelo até breve…”

                Ele guardou o bilhete bastante perplexo, havia se assustado com a mensagem. Abriu seu laptop e acessou a internet.

                Na página do Facebook dela, inúmeras lamentações e desamparos, todos desejando a ela que descansasse em paz e fosse com Deus.

                As lágrimas tomaram conta de seus olhos. Para quem nunca acreditou em nada, aquele adeus parecia ser bem real.

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