Pobre Geraldo.

Manhã. 14 de Abril de 2013. Sol. Ardido. Bem quente.
Isso era tudo o que Geraldo conseguia pensar repetidamente antes de chegar no ponto de ônibus com seu paletó de brechó e uma pasta velha comprada no segunda mão. A calçada parecia imitar a chapa da padaria em que comera um pão com manteiga, e a sola de seus sapatos, dois pedaços de bife que borbulhavam gordura naquele calor infernal.
Chegou na pequena e miserável sombra que o toldo do ponta projetava no chão, respirou fundo e abriu a maleta. Organizava os documentos enquanto esperava pelo busão. Número um, número dois, número três eram folheados enquanto o número 65 passava sentido Zona Sul.
Merda, pensou, lá se ia o primeiro ônibus vazio. Geraldo balançou negativamente a cabeça e se acomodou no ponto. Ajeitou a maleta, limpou o suor da testa e bateu a ponta dos dedos no couro vagabundo da mala. Bem, que se dane – pensou consigo – hoje nada vai tirar meu bom humor.
Acomodado com sua bunda gorda na cadeira de ferro do ponto – obra solícita e bem pensada do departamento de urbanização da cidade – Geraldo começou a cantarolar o bom, velho e enterrado Sinatra enquanto dois garotos se aproximavam com um celular, mesclando aquele breve jazz improvisado com algum soluço que, milagrosamente, servia como ritmo para uma gralha falar algo sobre sua buceta.
Isso realmente chocou Geraldo. Uma gralha falante, pornográfica, se esgoelando enquanto um pobre rapaz soluçava freneticamente um tchutcha ic tchutcha. Deveria ser o tal do funk.
Meio incomodado, Geraldo ajeitou o paletó e pediu gentilmente aos jovens que usassem um fone:
– FILHOS DA PUTA!
– Ih, coé, tio?
O segundo 65 do dia se aproximava, a música continuava, o calor aumentava e Geraldo se estressava.
Entrou no ônibus seguido pelos dois garotos que ainda ouviam a mesma – se é possível assim dizer – música.
– Aí, tio, saca só o Catra.
A música mudou para algo ainda mais pornô. Geraldo, homem de igreja, engoliu os lábios e torceu o topete em espanto. O calor lá fora aumentava.
Meia hora depois desceu em seu ponto e caminhou até o trabalho. Pulei direto para cá porque não estava a fim de falar sobre suas reações no ônibus. Odeio funk, então fiz questão de colocar meu fone de ouvido.
Só pude acompanhar aquele homem gordinho caminhando. Seu bom humor voltara ao normal, mas era repentinamente trocado por um tique nos olhos quando, ao cantarolar seu Sinatra, era interrompido pela cantarolagem da gralha e do homem com soluço.
Pobre Geraldo. Naquele calor, de paletó.

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