A teoria do cocô na cara e outras brincadeiras com o ego

Será possível que um dia, nem que seja num remoto dia, o ser humano conseguirá entender que até no cúmulo mais absurdo de seu otimismo, se conformar com o fracasso trata-se de um sucesso pessoal?

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Há de se dizer que o ser humano tem a tendência de chegar ao fundo do poço e, não contente, continuar cavando.
Atrevo-me até a dizer que poderia facilmente ir contra ao famoso poema da pedra no meio do caminho. Faria minha versão, num estilo mais metafórico e menos inteligente, dizendo algo como no fundo do poço havia um cara, havia um cara no fundo do poço.
Mas o mais difícil de quando você chega lá não é subir de volta. É você ter vontade de subir de volta.
Prova disso é a síndrome do mal necessário. Não tem nada a ver com medicina, psicologia ou metafísica. Tampouco possui teorias absurdas, como aquelas em torno da semiótica. É algo que nós, meros ignorantes, sabemos que é verdade, mas não queremos perder tempo pensando sobre. Sentir já é necessário.
Existe um pensamento antigo de que, se você pegar uma pessoa e criá-la desde pequena ao costume de receber cagalhões na cara, ela pode crescer achando aquilo divertido. Aplicando isso a um contexto mais denotativo e menos asqueroso, exemplificamos que uma pessoa acostumada a viver com fracasso não lida bem com pequenos surtos de sucesso. A recíproca é verdadeira, claro, mas pensar ao contrário não dá aquele choque na medula e em cada pequeno tendão do corpo.
Já não fazia muito tempo que B. não conseguia sair da faculdade. Nem guardar dinheiro por causa dela. Alguns se atreviam a dizer que se tratava de incompetência ou falta de capacidade, mas era mero fruto de uma relação comercial. Aqueles malditos reitores precisavam sortear um entre milhares de aluno para ser o Cristo de lá. Bem, era ele.
Foram tantos anos na batalha que, sair de lá e evitar o desgaste emocional, não pareciam situações plausíveis. Aliás, B. sentia que era utópico, como o comunismo. Essa aceitação abriu um espaço em sua alma, como um imã para novas desgraças.
Com ela, vieram abalos sísmicos na família, no trabalho e nas amizades. B. não estava nem aí; aquilo era bom para sua rotina, mesmo sendo nociva ao ego e à alma.
De certa forma, essa contínua aceitação da maré de azar fizeram dele um cara positivo: nada poderia ser pior, nada poderia mais afetá-lo. Se convivesse em paz com aquilo, as merdalhadas seriam apenas itens simbólicos do dia a dia, meros ossos do ofício.
Isso até o dia em que, num final de expediente, B. saiu do trabalho e viu seu carro aberto. Sabia que não havia deixado escancarado, muitos menos que tentaria estourar a fechadura para algo. Tinha a chave.
Aquilo mexeu com ele, deixou sua alma perturbada. Os mais estudiosos – entenda como os que perdem tempo buscando explicações para o que não conseguem entender – chamariam aquilo de retrocesso. Ainda no exemplo da pessoa recebendo cagalhões na cara, antes de se acostumar àquilo, ela se sentiria desconfortável. Mas, em qualquer etapa do processo de alienação moral, ela poderia ter essas sensações de início de programa.
A fechadura arrombada e seu carro revirado tinham sabor de primeira merda na fuça. Financeiramente, algo que prejudicaria mais ainda sua formação.
Aquele mero miolo estourado era o início de uma bola de neve maior que a frustração de um cara que pouco sentiu o sucesso nas mãos – e que nem queria.
B. deixou uma lágrima escorrer seu rosto. Porra, ladrão, ao menos quebrasse o vidro para isso. Com certeza isso influenciaria muito menos na avaliação de preço do carro na concessionária.

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