Sobre a vida, dinheiro e um pouco do mês de agosto.

Uma hora na vida, cedo ou tarde, você descobre que não tem como chegar ao fundo do poço. Você parte dele rumo ao topo por uma escadinha de pau podre. Uma verdadeira porcaria.
Aí você escala, escala e escala. Só fica esperto que, se o degrau quebrar, vai cair de costas num monte de merda.

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O dia 16 de agosto certamente deve trazer uma maldição. Bom, pelo menos até eu saber a verdadeira data de nascimento de Millôr e se ele realmente sofria da mesma apatia pela vida e pelo mundo, creio que Bukowski possa servir de parâmetro para eu me justificar.
Tanto eu quanto o velho safado dividimos o dia de nascimento, a queixa constante pela imbecilidade alheia, a falta de sentido da vida e, claro, a pindaíba. Entretanto, Buk sempre se queixava de seu emprego, ganhava mal, mas vivia bêbado – se não estivesse assim, provavelmente estaria de ressaca. Mas, tirando os fatores óbvios com a vida no primeiro mundo e a época em que tudo era mais barato, me reservo ao direito de poder reclamar mais do que ele.
Mas antes que você me entenda mal, eu amo meu trabalho e não tenho o que me queixar em relação ao quanto ganho. Mas o governo se queixa, porque poderia sugar mais do meu salário com seus altos impostos – ou com os aumentos constantes.
Mas, fora ele, me deparo com uma fila de pedintes para lá de chatos me cutucando. É bem assim: eu recebo e eu já tomo uma dedada no cu e outra no olho. Enquanto me queixo do incômodo, parte dele já foi tomado por faculdade, carro e até por algumas dívidas que eu assumo e que nem minhas são. Parte da vida.
Hoje eu peguei a estrada de volta para casa. Não era dia de pagamento, mas era dia de acertos. Aproveitei minha carona e começamos um debate. Juro que ninguém conversa melhor sobre crises da vida do que a consciência; aí já tinha valido a pena separar a carona para ela.
– Afinal, qual o sentido da vida? – perguntei. Ela me olhou erguendo a sobrancelha, confusa.
Olhei para ela pelos meus óculos Ray Ban, que não me pagou um centavo pela porra do merchan, e sorri. A Rádio Rock, que também não me pagou pelo merchan, provavelmente tocava Black Keys.
– Veja – continuei, ela com os ouvidos atentos – a gente trabalha, trabalha e trabalha; e quanto mais a gente ganha, mais a gente paga. O que é a vida se não viver para sustentar outras pessoas? Seria o sentido da vida não ter sentido algum?
Dito isso, pressionei a buzina e mostrei o dedo do meio para um apressadinho que me fechou. Provavelmente com pressa para achar que ia viver mais e melhor que eu.
– Não sei – a consciência me disse abaixando o vidro do carro – talvez o sentido dela seja você achar que precisa do dinheiro para viver. Pensa em quantas pessoas são ricas mas não são felizes.
– Mas e se você não tem dinheiro e é infeliz?
Ela parou para coçar a cabeça. Sua confusão aumentou e ela se viu forçada a concordar comigo.
– Talvez a felicidade seja você quitar todas as dívidas sem ficar no vermelho. Pensa, vejo mais pessoas felizes quando puxam o extrato em azul no final do mês do que aquelas que compram um almoço no restaurante mais caro da cidade.
– Nunca me senti feliz puxando o extrato. Zero também é azul e significa que você não tem nada.
– Então, talvez, o sentido da vida seja você achar alguém que vai dedicar a vida a te sustentar, como faz com a sua no dia a dia. Sei lá.
Cheguei em casa. Conversar com a consciência tinha sido bom, apesar de ambos ficarmos sem chegar a lugar algum. A conclusão sobre a vida e sobre o dinheiro era muito além do que o ser humano poderia explicar. Talvez isso seja uma vertente do agnosticismo.
Eu acredito no dinheiro mas não consigo explicá-lo. Apenas sei que ele tá lá. Ou então não acredito nele, mas não me interessa provar que ele não tá lá. E do outro lado, uma massa de pessoas que que acredita nele, o adora, o endeusa, vivem para lavar os seus pecados – muitas vezes cometidos em virtude dele. Já a vida, bem, ela é apenas algum manuscrito ridículo do Evangelho segundo o capitalismo, talvez assinado numa folha de cheque.
Confuso e chateado, cheguei em casa e olhei minha cara de caco em frente ao espelho. Minha vontade era de pôr um ponto final em tudo, cometer suicídio. Eis que puxei o extrato do bolso e vi o zero bem redondo e gordo no fim da folha.
Chorei. Aquilo era apenas uma vírgula. Não tinha dinheiro nem para as pílulas, quem me dera para um trabuco. Cheguei sozinho à conclusão que até se matar custa caro e só serve ao propósito de sustentar o dono da farmácia.

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