A crônica de merda, pt. 2

Existe uma grande divergência sobre o que é rotina e o que é costume. Mas, para quem já foi vítima dos dois, tanto faz quem bate na sua porta. Qualquer uma dessas companhias é péssima.

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A rotina. O nome que batiza com fervor o nome do meu maior carrasco.
Moro longe de onde trabalho, acordo cedo para realizar minhas tarefas. Costumo, aliás, sair tarde delas e chegar – como dito na gíria – em casa moído.
Sim, é Rotina – com R maiúsculo – o nome de quem me torna um escravo sem muitas chances de receber alforria. Entretanto, não basta ela acertar as chibatas em mim a cada instante. O pior dos castigos se esconde atrás da porta.
Chego em casa, jogo o a mochila que desliza pelo chão arremesso as chaves na mesa. Ergo os braços para o céu em louvor a Deus. Mal abro os lábios e a voz me atinge de súbito, com um golpe sinistro e doloroso:
– Vai tomar banho logo para sair com os cachorros.
Droga, eu penso, não foi dessa vez que escapei de mais uma das punições da Sra. Rotina.
– Mas…mas… – vacilante, minha voz não sai. No máximo um breve apito, agudo que só, tentando se defender. Em vão.
– Não quero saber. Faz uns quatro dias que eles não saem. E mais a mais: o que você tem de tão importante para fazer que não quer levar os cachorros para passear?
Abaixo os braços. Meu louvor é adiado para um momento em que possa ser usado. O cenho se fecha, os lábios se apertam e o punho treme. O sangue sobe à cabeça – a de cima – e eu parto em direção ao banheiro lamuriando.
– E não adianta reclamar – a voz ia ficando cada vez mais rude e mais ameaçadora – você tem a obrigação de levar os quatro para a rua. Você que quis cachorro.
– Mas eu só quis um! – brado em defesa. O chicote estala mais forte no peito:
– Mas sou eu quem trata o seu cachorro. Vai, anda logo antes que escureça.
E assim eu vou, caminhando e cantando sem seguir canção nenhuma, deixando cada peça de roupa jogada pelo corredor enquanto me dirijo ao chuveiro porcaria que sempre queima.
Enquanto a água quente desce pelo corpo, a cabeça lentamente vai esfriando. Talvez eu engula melhor a ideia de pegar a coleira e levar os quatro para passear. Sei que a Rotina vai querer falar comigo sobre os problemas que ela teve hoje. Então, uma caminhada para distrair.
Lentamente um sorriso de aceitação se forma eu meu rosto. Me enxugo, troco de roupa e pego as coleiras.
– ‘Bora? – indago
– Eu não vou – a Rotina me responde secamente.
– E por que não?
– Trabalhei muito hoje. Não fico na internet que nem você. Ah, e só pra avisar: nada de ir até a esquina. Pode andar bastante.
Era isso! Em câmera lenta o sorriso vai se desfazendo. O cenho se fecha, os lábios se apertam e os punhos tremem. O sangue sobe de novo à cabeça.
Viro as costas e saio lentamente seguido pela matilha. Ergo lentamente as mãos para o céu, mas não em louvor. Apenas um eufemismo para puta que me pariu.

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