O xadrez


Ao termino do jogo, o rei e o peão voltam para a mesma caixa.
Provérbio italiano

Estavam em dois sentados à mesa, sob a luz vacilante pendurada naquele canto da sala. A mesa de madeira maciça, herança de gerações anteriores, era suporte para um tabuleiro de xadrez. Era a vez das peças pretas.
– Quais os seus maiores arrependimentos, Adolfo? – perguntou uma voz rouca ecoante, um tanto sinistra, enquanto movia a torre em direção a um pequeno peão branco, com a arma empunhada, crente que poderia derrubar o rei.
– Ter amado Matilde. – respondeu uma voz fraca e um pouco pigarrenta.
– Matilde? – questionou a voz sombria – Mas vocês nunca ficaram juntos durante esse tempo. O peão confiante havia sido fodido por uma torre. Que triste fim para a ilusão de um membro do mais baixo escalão das tropas.
– Por isso mesmo, meu caro – moveu agora um bispo pelas negras verticais esperando algum resultado; vingara a morte do peão – acabei casado 19 anos com a Evelyn.
– E não a amava? – a voz rouca moveu outra torre, direto para uma armadilha criada pela voz pigarrenta.
– Não. E você também não amava suas torres, não é? hu hu – a vozinha pigarrenta ria de forma suave e cativante.
– Maldição! – a voz sombria bradou, movendo dessa vez o bispo pela diagonal branca.
– Quem diria, você movendo um bispo. Desde quando põe a fé na Igreja para algum avanço? – a vozinha indagava com bom humor, desta vez levando o cavalo para o cemitério de peças negras.
– Às vezes busco na crucificação de um pontífice uma satisfação – a voz rouca disse já com tensão na voz.
– Deixe de ironia. Não justifique seus erros com ela.
– Não estamos aqui para falar dos meus erros, Adolfo – a voz sombria disse agora com uma entonação firme – vamos falar um pouco mais sobre os seus.
A partida de xadrez continuava com aquela luz vacilante e aquela atmosfera sinistra tomando conta da sala. Adolfo contava seus erros e problemas entre jogadas inteligentes e excepcionais que cercavam a voz sombria. Entre uma delas, encheu o peito com um ar que havia anos não tomava para falar:
– Xeque-mate.
As peças voaram, todas levantadas por uma brisa forte que saiu num gesto bravo da voz sombria. A luz oscilou, ameaçou se desligar, mas voltou ao seu normal. O tabuleiro havia voado longe.
– Maldição!
– Ora, deixe disso. Ganhei de você mais uma vez, isso significa que estou livre. – disse a vozinha rouca agora limpando a lente de seus óculos.
– Muito em breve, Adolfo, jogaremos de novo. Da próxima vez você vai seguir o mesmo caminho do seu rei.
– Posso só pedir um favor?
– Peça! – a voz sombria disse já mais calma.
– Espera mais uns dois anos. É que nesse prazo cai meu último cheque da pensão, assim posso comprar um presente legal para o meu neto. E sobra tempo para você treinar também.
– Como quiser. Nos vemos em breve.
A voz sombria se levantou, estirou sua mão esquelética para fora da roupa preta e apertou o cabo da foice. Puxou o capuz para cima e saiu pela porta. A luz da sala agora brilhava como se nunca estivesse mergulhada em trevas.
Adolfo pôs seus óculos e partiu recolher as peças do chão. Havia vencido a morte mais uma vez em seu próprio jogo. Queria curtir com aquela cervejinha dentro da geladeira.

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