Amor de tinta.

Um dos maiores questionamentos da humanidade é a existência ou não de Deus, ou de alguma entidade superior. O outro é porque o escritor capixaba Jean-Jacques se chamava Jean-Jacques.

Alguns questionavam se tinha a ver com Rousseau, mas muitos duvidavam que seus pais, por não saberem nem quem era colunista na revistinha local, saberiam quem era Rousseau, autor d’O Contrato Social. O fato é que ele era Jean-Jacques, de Vitória, e não se importava com os questionamentos do mistério do seu nome, apenas que era escritor.

Seguia o estereótipo solitário, melancólico e escrevia poesias e contos de amor não correspondido, todos ao embalo das tristes cantigas de Chris Isaak e sua sombria lamúria de que o mundo estaria em fogos e somente ela poderia lhe salvar.

Autor de linhas e mais linhas sobre este, então chamado amor platônico, porém pouco divulgado, Jean-Jacques abria suas garrafas de vinho, acendia a luz da vela e carregava a pena da caneta. Começava então a escrever.

Em seus últimos instantes sentado à mesa, começou a escrever sobre a bela Catarina, loira apaixonante que, além de levar o nome do lindo estado de Santa Catarina, tinha os traços da famosa mulher catarinense. Jean-Jacques se apaixonou de imediato por aquele sorriso sulista que o encantaria logo pela primeira vez. Da primeira vez que se encontraram foi numa praia durante uma viagem. Ah, aquela viagem maravilhosa ao Rio de Janeiro no Carnaval. O que fariam um capixaba e uma catarinense no Rio de Janeiro em pleno Carnaval? Admirariam a beleza da Cidade Maravilhosa esperando também encontrarem outras coisas maravilhosas. Encontraram.

Jean-Jacques encontrou-a sentada no quiosque tomando um suco, talvez fosse de abacaxi, e buscou uma cadeira próxima pedindo o mesmo que o da moça sem saber, apenas para puxar assunto. Surpresa mesmo foi saber que a linda moça quem puxara conversa.

– Vejo que também gosta de abacaxi.

– Eu adoro abacaxi.

– Eu não. Mas é porque eu preciso de algo um pouco azedo no meu paladar. Ando muito feliz, sabe – completou passando os lábios pelo canudo.

Jean-Jacques engoliu em seco. Não sabia o que responder, era bom apenas nas respostas de suas personagens e não suportava a ideia de ter que se considerar uma naquela resposta.

– O meu nome é Catarina, a propósito.

– Como o doce….

-…Como o doce e encantador estado ao Sul, sim – ela completou as palavras de sua boca.

– Eu sou Jean; Jean-Jacques, é francês…

– Como Rousseau?

– Dizem que sim. É um mistério. Assim como essa história dos elétrons também.

– Não ligo para elétrons. Eles são muitos negativos.

Riram juntos da piada idiota que ela acabara de contar sob a sombra das palhas que compunham o telhado do quiosque; o barman olhava com uma cara de reprovação, mas eles nem se importavam.

Jean-Jacques continuava a história de sua musa, aos goles do seu vinho e do som de Isaak que já cantava novamente que o mundo estava em chamas e ninguém poderia salvá-lo, a não ser ela.

Traço a traço de cada letra, designada com maestria pela mente apaixonada de Jean-Jacques, a história sobre Catarina desenrolara um romance que o sugava de corpo e alma papel adentro.

Narrou as passagens pela sua cidade. Pelas sujas praias do litoral paulista, pelos belos morros mineiros e até pela gélida Patagônia, por onde foram juntos quando prometeram fugir ao fim do mundo.

Jean-Jacques já não conseguia viver sem Catarina, sem sua doce imagem na lembrança. Não conseguia ficar sem descrever seu majestoso corpo e todo o circular formato de seu quadril. Estava hipnotizado e já a ouvia chamar.

– Jean-Jacques, seja meu.

– Sou seu, meu amor.

– Seja meu…

– Sou seu – respondia enquanto escrevia.

– De corpo e alma, Jean-Jacques

– De corpo e…

O disco pulara da vitrola. Isaak tinha cansado de ser salvo do mundo em chamas.

Por falar em chamas, a vela se apagara e tudo o que sobrara naquele quarto foram as manchas da tinta da pena no delicado papel, manchas curiosas que não hesitavam em mostrar um malicioso e sedutor sorriso feminino.

Quanto a Jean-Jacques, bem, dizem que a melhor história que qualquer escritor pode contar é ele mesmo.

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