Malditos olhos. (Baseado numa mentira real)

Os seus olhos são as janelas da sua alma. Infelizmente, algumas pessoas querem ficar pulando pra dentro e pra fora.

Semana passada eu recebi um Award por reclamações sobre o transporte coletivo em geral. Quando me entregou, minha mãe jurou por tudo que havia naquela sala que ela se divertia com minhas histórias diárias a respeito daquilo que eu enfrentava no balance do ônibus velho que me levava ao trabalho.

Pois bem, homenageado que fiquei com o prêmio pensei que poderia passar minha vida inteira só reclamando de ônibus e fazendo as pessoas rirem; mas aí eu lembrei que quero ficar rico e, para me enquadrar no quesito de rico, andar de ônibus seria um dos itens que eu deveria riscar dessa lista de afazeres.

Mas, para não prolongar muito, vamos nos centrar no que eu queria relatar. Ultimamente o ônibus tem parecido o Carnival of Sins, ou próximo a isso. A quantidade de gente extravagante (e que eu faço questão de me considerar uma exceção) que entra por aquelas portas nos faz desacreditar no conceito de normalidade.

Conheci um tiozinho que deveria estar com tuberculoso ou algo próximo a isso. Tossiu o trajeto todo e, para cada cófe, ele realizava uma coreografia. Se eu pudesse ilustrar nesse texto, garanto que o seu prazer de ler até o final seria maior, mas como não posso deixo já de lição de casa um treino para sua mente.

Ele balançava de um lado para o outro, como um daqueles figurantes do clipe da Ke$ha, só que tossindo. E aquilo, assumo, tirava minha atenção do livro e enquanto ele tossia, eu continuava no “entrei de mansinho pela porta e…” – COFF! – “…entrei de mansinho pela porta e…” – COFF . Ok, fechei o livro esperei que ele cessasse a execução de seu pulmão, o que não aconteceu, já que ele desceu em seu ponto tossindo.

Agarrei novamente meu livro, abri onde tinha parado e dei continuidade ao detetive. “Desculpe, Lew Archer¹. Por favor, prossiga sua história a partir da entrada da porta”, o que ele atendeu com maestria ao meu requerimento. Enquanto os meus olhos corriam pelas páginas do exemplar, percebi um clarão correndo pela minha frente.

Olhei de canto e não vi nada suspeito naquele momento. Centrei minhas atenções novamente no livro quando o mesmo clarão de repente percorreu meu rosto. Mas que Diabo de porra era aquela? Olhei novamente e me deparei com a cena mais amedrontadora do que um palhaço de monociclo segurando uma cabeça recém-decapitada: uma criança estranha me encarando.

Encurtei as pálpebras, torci o pâncreas evitando uma reação e olhei fundo naqueles olhos demoníacos. Eles me encaravam com certo fanatismo.

“Mas, heim?!” pensei apertando com força meu livro, pedindo que Lew Archer desse um jeito de me ajudar. Mas ele não me ajudaria e aqueles olhos esbugalhados continuavam me fitando como se eu tivesse, de certa forma, defecado e fétido.

Reabri calmamente meu livro e pensei comigo mesmo que nada iria acontecer. Comecei a ler, mas a minha atenção não conseguia terminar a página 80. Eles estavam atraídos pelos pólos negativos e positivos daqueles grandes olhos de um amedrontador garoto de 10 anos.

Ele fitou-me nos olhos. “Estou cego”, pensei e apertei os olhos. Reabri calmamente e percebi que nada acontecera. Ufa. Mas ele continuava me fitando.

Assim passou-se mais de 40 minutos e ele me encarava. O ônibus ia se esvaziando, as pessoas passavam a catraca e desciam e os assentos ficavam vagos; ele não saia do meu lado.

Enfim meu ponto chegou. Guardei minhas coisas, fechei o livro, puxei a cordinha e me preparei para descer.

Nisso eu escutei uma voz infantil rouca e assustadora sussurrando:

– Moço.

Ignorei. Talvez se eu ignorasse, eu evitasse uma catástrofe.

– Moço – prosseguiu. Comecei a tremer e parei em frente a porta. Nada ia acontecer, era só ignorar.

O ônibus parou e a porta se abriu.

– Moço.

Virei para trás, olhei aqueles olhões e disse:

– O que?

– Não é o recepcionista o assassino.

Um choque correu em minhas veias e eu perdi a reação. Desci do ônibus com aquela voz repercutindo na minha cabeça, como se fosse vazia: “não é o recepcionista o assassino.”

Frustrado, passei por uma senhora e entreguei o livro a ela. Não queria ter pesadelos com aqueles olhos, aquela voz ou até mesmo aquele recepcionista.

¹: Menção a Lew Archer, detetive dos romances noir de Ross MacDonald

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