Doce sabor da minha (quente) cerveja

Um copo de cerveja numa mão, as poucas moedas que restavam pro passe na outra. Já eram mais de cinco horas de tarde e corpos bêbados jaziam no quintal da chácara; churrasco da turma do quarto ano de direito.

Tomei mais um gole daquele chá de cevada, fervido naturalmente aos raios solares e fiz a tradicional careta do “essa porra tá quente demais”. Recoloquei meus óculos escuros, baixei a manga da camiseta do Dead Kennedys para esconder a tatuagem, aconcheguei a bunda na pedra e comecei a contar um, dois, três…até então 15 cadáveres sorrindo bobamente, deitados em seus próprios vômitos sem nem saber de onde eles saiam naquele exato momento.

A carona não vinha, então eu continuei meu belo passatempo aos fortes ultravioletas. Caralho, quanta gente bêbada, enquanto eu aproveitava ainda meu primeiro copo durante toda a festa.

A vida é assim, meu amigo. Em dias de Open Bar, ou você fica na fila para pegar uma breja, ou vai aproveitar a festa diante do calor humano. Nas que não são, ou você se torna um Donald Trump, cheio das moedas nos bolsos furados, ou não vai conseguir nada além de uma alma caridosa, que te considera pra caralho, depois de todo aqueles cinco minutos de amizade eterna para te pagar uma Brahma. É, uma Brahma. É onde vai o sacrifício humano por um gole daquele treco apaixonantemente amarelo.

O sol apertava cada vez mais devido ao forte sol das cinco horas no horário de verão. Os 15 cadáveres que eu havia contado ainda jaziam abobalhados – verdadeiros zumbis regados a demência e bons shots de tequila com vodka com whisky com pitú e com a coca que a gente dava para cada um melhorar, mentindo que tinha rum dentro. Jaziam sem serem donos do próprio destino naquele exato momento. Foi então que vi uma legging preta, empinada para a direção das nuvens. Cabelos morenos corriam por sobre a legging, fazendo uma oscilação ondulatória, seguindo apenas o fluxo daquela bunda que falava comigo. Ela dizia: o céu é ali em cima. Eu olhei para ela, tomei um gole e concordei – o sol estava realmente ali em cima, azul como um pássaro raro, refletindo os fortes raios do sol.

A conversa estava boa, até. Ela insistia que o céu estava ali em cima e eu bebia e concordava, com a mesma careta que fazia quando ingeria aquele troço quente. Ao final, levantei-me da pedra e caminhei rumo ao norte, cantarolando aquela bela canção de J Mascis. Dei um leve tapa na minha nova amiga, aquela incontestável bunda apontando pro céu e me despedi: minha carona havia chegado.

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5 comments

  1. Brunno Lopez

    Havia me esquecido de como funcionavam as festas antigas. Gostei da definição ‘garota da legging’. Acho que vou dissertar sobre essa atmosfera mais tarde. Hehe…

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