~Le TAC

Começou assim:

Acordara lá pelas sete e tantas da madrugada e, com o mesmo ritmo do banho pegou o ônibus para o trabalho. Chegou às nove, mas só funcionou às 10.

Isso normalmente é o que acontece com máquinas sobrecarregadas. Não sabia ao certo se era do trabalho; talvez fosse a mera ilusão do quanto aquela cidade que ficava há poucos minutos, levava duas horas de percurso. Talvez o tempo fosse realmente relativo, um literal-relativo, se é que existe.

De qualquer forma, chegou, deu um tapinha na bunda pra limpar a poeira da charrete coletiva, ajeitou sua calejada bunda na cadeira com rodinhas e iniciou a trilha sonora do dia. TAC TAC TAC. Tocava teclado – e muito bem, diga-se de passagem.

Mas a cabeça girava num louco movimento de translação. Em menos de 10 minutos tocando sua sinfonia de as, de bês e éfes, desligou-se novamente. Não, minto…ficou em standby.

E lá seguia, mecanicamente a sua rotina de 2305 horas diárias com aquela sinfônica batida clássica, a música favorita dos workaholics. TAC TAC TAC.

Calculou, da mesma forma mecânica quantos livros poderia ter escrito. Nenhum, não sabia nem usar a porra da vírgula – como alguns tradicionais usuários de redes sociais.

E quanto mais TAC TAC, mais TOC TOC na cabeça. Uma voz que parecia um murro numa esquadria de madeira pegou na mente, como um fist fuck num panda. Aquela sensação estranha despertou Alfredo de um transe profundo, talvez aqueles cem anos de solidão que roubaram do Garcia Marquez.

– ALFREEEEEEEEEEEEEDO!

– Oi. – aquele oi bizarro, igual que você responde quando interrompem seu episódio favorito de Glee.

– ESTOU CHECANDO OS SEUS *TOC*AFAZERES*TOC* – esse era o murro na porta, na porta do Alfredo.

– Sim.

O grande irmão estava ali de olho nele. Tudo bem, faltavam apenas umas 2302 horas para ele sair de lá.

Enquanto isso, deixou sua mente em standby, semi-cerrou seus olhos novamente e continuou aquela doce sinfonia em conjunto com as outras células da empresa.

Tinham uma banda, o tal do The TAC TAC TAC Group.

Advertisements

4 comments

  1. Isah Sanson

    Ai, chorei baixinho porque tô no mesmo barco, mermão. Com a diferença de que eu não expressaria tão bem em texto (até porque a máquina está sobrecarregada pra caralho).
    Mandou bem, como sempre.

  2. Brunno Lopez

    Ah, os tão capciosos ‘movimentos de translação’. Gostaria que os membros dessa banda tivessem humildade de reconhecer que alguns músicos também sabem tocar bem o instrumento que escolheram. Que não se escondessem em melodias antigas e tentassem empurrar aos nossos ouvidos as sinfonias antiquadas que lotavam teatros anos luz atrás.

    O TAC TAC Group poderia excursionar sob um repertório menos clichê e saudosista.

    Por essas e outras mestre, acho que tem muito TAC TAC em palco principal que não funcionaria nem como banda de abertura.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s