Cigarro molhado.

Já era mais de quatro horas da tarde e chovia muito por aquelas bandas.

Ele ajeitou a bunda no duro banco do ponto de ônibus, acendeu mais um cigarro e folheou o livro. Já estava na página 50 de um romance qualquer, desses que se compra na banca de jornal, por R$9,90, e você pergunta se realmente aquele escritor existe. Devem pertencer ao mundo tralfamador de Kurt Vonnegut, mas existem.

– Oh, abrace-me, querida. Prometo que Cláudio Nóbrega Cruz de Manoel nunca estragará nosso romance novamente

ele lia com cara de asco enquanto tomava chuva na cara e fumava o exclusivo cigarro d’água que tinha.

O vento batia forte e jogava a água contra sua face. Ele cuspia, esfregava a palma da mão macia sobre o rosto e grunhia algumas lástimas. Baixou a aba do chapéu, cobriu o rosto com a capa e enfiou o livro no bolso interno do terno – interno do terno, que feio, né?

Estava sozinho entre as milhares de pessoas que passavam por ali. Nenhuma sentara-se ao seu lado até então. Foda-se, não tinha lugar mesmo.

Admirava as pessoas correndo na chuva enquanto ele continuava sentado no ponto de ônibus, desistindo de fumar, transformando seu cigarro num chiclete de fumo e filtro. Mascava-o todo molhado. Não era tão nojento quanto a fala da personagem do livro de banca que lera há pouco.

Admirava-se o ver painéis de publicidade, carros passando com tudo nas avenidas, pessoas com fones de ouvido, mesmo com aquela chuva.

– Porra, como podem correr na chuva enquanto eu tento a todo custo me cobrir? – riu com descaso enquanto amassava o que sobrara do cigarro e pegando outro – ó, olá, melhor amigo número dois.

Tentou acendê-lo de novo, mas a chuva continuava torrencial. Com a cara toda molhada, franziu o cenho, mordeu com força o filtro do cigarro, baixou os braços recostando as mãos no joelho e olhou fixamente o nada. Tinha ódio da chuva.

Levantou-se e foi jogar o maço vazio fora; a chuva apertou de tal maneira que voltara e vira seu banco todo molhado.

“Catzo” passou pela sua encharcada cabeça coberta por um chapéu anos 50. Permaneceu em pé mascando o cigarro molhado versão dois. As pessoas e os carros continuavam; ele ainda estava por lá, sem companhia, sem quem conversar, apenas com seu chapéu favorito e o último chiclé de nicotina que restara.

Cansou, caminhou cinco metros e entrou na sua casa. A rua não era mais legal que sua sala.

p.s: Se você pensou “como cigarro molhado se ele tá aceso na foto”, parabéns, você é um chato.

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