Durante a noite

Deitou na cama, fechou os olhos e tentou dormir. Escutou barulhos vindos da sala do seu apartamento localizado no sétimo andar na Zona Sul de São Paulo.

“Mas que porra”, pensava enquanto calçava os chinelos. Levantou da cama, coçou a bunda e, com seu ridículo pijama listrado, foi para a sala.

Tinha em mãos seu taco de beisebol, comprado em Nova Iorque durante uma temporada em que fora aos Esteites. Seus olhos sonolentos estavam revezando as aberturas, num ritmo alucinógeno e ele via tudo embaçado. Nem acendeu as luzes, caminhou na ponta dos pés com aquele horrível pijama listrado, taco em punhos confiando na sua visão de raio x.

Ouviu-se um barulho de novo na cozinha, entre as panelas molhadas.

– Quem está aí, caralho? – gritou enquanto sacudia o bastão. Vup, vup, vup. Não acertava nada e nem ao menos obteve resposta. Deu mais alguns passos na bela cozinha americana que comprara com umas economias recentes. Era um lindo apartamento, mas aquele pijama ainda era ridículo.

Sentiu um vulto passando sobre ele. Congelou de medo. Quando recobrou os sentidos, balançou de novo o bastão no ar. Vup, vup, vup. Acertou o interfone, o copo com água em cima do balcão e o galão de água.

– Quem está aí?

Novamente ninguém respondeu. Caminhou atrás do vulto indo para a sala. Ah, que sala era aquela, toda linda, ampla, com uma vista fantástica para os prédios comerciais espelhados e para as vias. Aqueles sofás encapados de couro, a TV de plasma e aquele som novinho, além da coleção de bebidas que tinha um pequeno barzinho.

Caminhou devagar, apertando novamente os dedos no bastão. Escutou o barulho do gelo mexendo-se dentro de um copo de Jack Daniels. Balançou de novo o bastão. Vup, vup, vup. Acertou abajur, vasos caros e o quadro que continha a foto de sua falecida avó.

– Quem está aí? Mostre sua cara.

Novamente nada. Escutou o barulho do gelo de novo. Caminhou na direção da sacada e viu um senhor, de idade avançada, com cara simpática e uma barba aparada.

Seus olinhos eram fundos, mas continham uma expressão vívida e alegre. Segurava em sua mão o copo com whisky e gelo, estava apoiado na sacada e admirava a beleza paulistana. Novamente balançou o gelo dentro do copo, tomou um gole, virou-se para ele e disse:

– Oh, olá, filho.

– Quem é você? – Indagou o homem com o bastão em punhos.

– Eu sou sua consicência. Vim apenas pedir para que você jogue esse pijama ridículo no lixo. Ah, e muito bom esse seu whisky, filho, mas da próxima, deixa uma garrafinha de vinho pra mim, sim?

Bebeu tudo, deu o copo na mão do homem e desapareceu.

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