Numa cidade não tão distante daqui…

A gangue era inseparável desde a segunda série. Tinham 20 anos já, mas toda vez que ficavam juntos, pareciam que ainda tinham os 8 anos de quando se conheceram.

Era Maria Lúcia, Winston, Macedinho, Marabela e Luís Antonio, o terror daquela pacata vizinhança no interior de São Paulo. O esporte favorito deles era pisar no rabo dos gatos da Dona Afélia, velha de 80 anos que não conseguia correr atrás deles. Além disso, estouravam caixas de correio com bombinhas, colocavam massinhas de modelar no pára-brisa do carro de Arcádio, jogavam pares de tênis na fiação de telefone de Maricota, a rainha dos quitutes da feira de quarta.

Marabela era a menina mais linda da vizinhança daquela cidade do interior. Quando o pessoal da capital alugava chácara na temporada, todos queriam convidá-la para as festas para tentar um algo mais, um ronca e fuça, ou rala e enrola com a moça.

Desistiam quando viam a peste em forma de bunda e peitos que Marabela era. Winston era apaixonado por ela, e também colaborava para o azar da trupe. Sempre arrumava uma peraltice contra o pessoal da capital.

Enfim, Arcádio não aguentava mais as zombarias dos meninos e decidiu botar sua linda casa à venda. Nem esperou mais. Contatou a imobiliária e picou a mula da cidadezinha.

Eles ficaram abatidos. Não tinham mais o alvo fácil.  Afélia morrera e, conseqüentemente, seus gatos não aguentaram o fato e morreram junto. Maricota estava de cadeira de rodas em virtude de um acidente causado pela gangue. Ainda era chacota, mas era a única.

Eis que chegou o paquitão da cidade grande querendo sossego. Arrematou a casa de Arcadio por 120 mil reais e instalou-se na redondeza.

A trupe foi dar as boas vindas. Um de cada vez e cada uma com sua pegadinha. O rapaz não se afetava pelsa brincadeiras, nem um pouco.

E toda semana eles tentavam algo novo para deixar o novato abatido.

Mês passado ligaram em minha residência para contar que não tinham mais notícias da gangue. A polícia estava acionada e iria interrogar os moradores da vila.

– Não vi mais, não, seu guarda. Graças ao bom pai esses moleques deram uma trégua.

– Também não vi mais, seu guarda.

– Eu muito menos. Tô até instranhando esse sussego, meu chapa.

A polícia tentou a casa do novato.

– Podemos entrar?

– Claro, por que não?

– Tem conhecimento dos garotos?

– Não seu guarda, nunca mais os vi. Eram tão simpáticos. Gostaria de um café?

– Aceitaria. É uma bela casa que o senhor tem. – disse o guarda.

– Muito obrigado – respondeu o rapaz.

– Essa decoração é meio macabra, não acha? Essas pinturas vermelhas, quadros de monstros e esses animais mortos. Me dá aflição. E esses crânios na mesa.

– Ah, não liga, não, seu guarda. São de marfins. Ganhei de uma garotada muito simpática.

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