Pequenas Aventuras de Kid Ben Watts #1

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Consumindo a energia das vivas almas que caminhavam por aquele deserto, o Sol Escaldante era cruel, intenso e sádico. O jovem viajante e seu cavalo mirrado se arrastavam pela areia a poucos metros de seu destino: o Condado de Goose.

O garoto enterrou a cara na areia, exausto. Seu cavalo, por outro lado, anunciou com alegria que havia visto pequenos prédios se estendendo no horizonte. Bem levantou a cara da areia e, um pouco atônito, correu na direção do bagageiro que estava pendurado no lombo do animal.

– Puxa, você viu o mesmo que eu? Tem uma cidade logo ali.
O cavalo respondeu. Não com palavras, mas respondeu. Bem abriu o bagageiro e começou a revirar as tralhas que havia estocado ali dentro desde que saiu de Buffalo Breath. Uma toalha, algumas roupas, um cantil sem água e, finalmente, sua Magnum calibre 44, com a única bala dentro.

Agarrou a arma e colocou no coldre. Fechou o bagageiro e voltou à caminhada junto de seu cavalo. Kid Ben Watts, como era conhecido, não gostava muito de andar a cavalo; carregava em seu código de conduta de bolso que o animal não tinha obrigação alguma de aguentar seu peso, tampouco de servir de transporte. O cavalo, claro, adorava aquilo e já até ficara mal acostumado com a ideia.

Chegaram no Saloon do Condado de Goose. Era estranho para todos aqueles fora-da-lei ver um garoto entrando ali tanto quanto era para o narrador saber que o primeiro lugar que Kid Bem entrava era sempre o saloon. Entrou com cavalo e tudo, ignorando todos os avisos.

– Uma salsaparilla pra mim e uma dose de uísque pro meu amigo aqui.

Ninguém entendeu nada. O cavalo apenas batia o casco, como se exigisse da moça do balcão que apenas o fizesse e rápido.

Foi nesse meio tempo que um homem forte, de chapéu preto, se levantou de sua mesa, ajeitou suas armas no coldre e caminhou em direção garoto. Parou ao seu lado, meteu a mão em suas costas o agarrando pela camiseta e sem manter contato visual, disse:

– Pela sua arma, presumo que seja o garoto que deixou Johnny Três-Dedos inconsciente em Buffalo Breath. E que fugiu logo depois, correto?!

O garoto balbuciou e engoliu seu drinque em seco. Retrucou com voz trêmula:

– Não senhor. Eu meti uma bala no meio dos seus olhos – era um blefe.

– Você não em engana, garoto. Você só tem uma bala, de uma arma que nem é fabricada mais.

Então, empunhou a arma, engatilhou a bala e apoiou na nuca do menino. Solicitou que se dirigisse até o lado de fora do saloon.

Kid Bem não era valente, nem exímio lutador. Saiu com as pernas mais trêmulas que vara verde. O homem saiu pela porta principal e atirou o menino pela terra.

No reflexo, Kid Bem sabia que deveria blefar de novo. Virou-se, tirando a arma do coldre, engatilhando sua única bala e apontando para o homem.

– Eu vou atirar, seu paspalho, só por essa!

O homem pôs-se a rir. Ria e muito, sabendo que não passava de um blefe. Enfurecido, Kid Bem encostou a mão no gatilho. O som estourou pela rua, enquanto uma bala atravessou a testa daquele homem.

Kid Ben se assustou, porque não havia puxado o gatilho. Olhou para a frente, ajeitou o chapéu e viu o corpo sem vida do cowboy bem à sua frente.

Do outro lado da rua, o dono da loja de armas blasfemava:

– Mas que porcaria de arma. Não sabia que esta merda estava carregada.

Assoprou a fumaça que saia do cano e pôs-se para dentro. O menino, sem saber de nada, também.

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The Invisible Man

A cidade era São Paulo e o clima era frio. Não chovia, mas ainda assim a umidade no ar, junto com a brisa que assoprava era o suficiente para deixar qualquer entusiasta de praias com os pêlos arrepiados.
Era um frame de filme certeiro para um palpiteiro se levantar da cadeira, apontar o dedo para a tela e gritar “vai acontecer um crime”. Bom, tratava-se de São Paulo e algum crime poderia acontecer mesmo naquele minuto. Entretanto, nosso herói, apesar de possuir super poderes de invisibilidade, nada poderia fazer para resolvê-los.
Talvez porque suas habilidades não eram tão literais assim. Invisibilidade não passava de uma conotação para o que Gabriel Mosca sabia fazer, mesmo sem saber que o fazia.
Gabriel era invisível para as pessoas e nem ele, nem ninguém, sabia o porquê. Tudo começou num dia de verão, no recreio; no pátio do colégio, sentados na escadaria, Gabriel viu seu grupo de amigos cogitar uma breve ida para a praia. Eles haviam comentado Guarujá, lugar que há tempos ele queria ir, especialmente pelo restaurante que soubera existir na praia da Enseada.
O sinal bateu e todos voltaram para a sala. Gabriel nunca mais ouvira nenhum dos seus amigos comentar com ele sobre a viagem, mas viu todas as fotos nas redes sociais dos amigos.
Deveria estar invisível na hora errada e não sabia. E como ele não tomava conhecimento de seu poder, não havia entendido por que não estava com todos aqueles que durante 10 anos de colégio, viveu junto, sorrindo, se divertindo e, claro, estudando.
Chateado, Gabriel tomou o metrô sozinho para casa no dia seguinte às fotos. Não queria nenhuma companhia porque precisava de um tempo para pensar.
Olhou para suas mãos e viu que elas estavam ali; aproveitou e tocou o braço, o peito e o rosto. Tudo estava lá, tudo era palpável e tudo era visto.
Entrou em casa, cumprimentou a mãe, que não respondeu. Foi direto para o quarto, ligou o computador e colocou em uma música qualquer.
Quando deitou na cama, escutou seu celular vibrar. Era um de seus amigos.
Abriu o sorriso e leu a mensagem. Seu sorriso dissolveu-se como um torrão de açúcar se dissolve no café.
“Cara, revisa o trampo de história pra mim? Vou sair com uma mina e não vai dar tempo. Valeu” leu em voz baixa e entristecida. Respondeu, ainda que simpático, com quem o amigo ia sair. Queria mostrar interesse pela alegria.
Não obteve mais resposta, apesar da visualização. Encostou o celular na cômoda e continuou deitado, até que adormeceu.
No dia seguinte, a caminho do colégio, sentou-se no ônibus deixando um lugar vago ao seu lado. Atrás dele estava um homem mal encarado e aterrorizante que o deixou preocupado.
A cada ponto, o ônibus ia ficando cada vez mais cheio, as cadeiras lotadas e as pessoas de pé. Havia sobrado apenas dois lugares livres: um ao seu lado, outro ao lado do homem.
Poucos minutos depois e uma mulher entrou e sentou-se ao lado do homem. O ônibus continuou o caminho até, que pouco a pouco as pessoas foram descendo.
Perto do último ponto, quando o homem mal encarado desceu, a mulher percebeu que havia sido furtada. Entrou em desespero, choro e foi consolada por algumas pessoas, enquanto o banco ao lado de Gabriel continuava vago.
Levantou-se e desceu do ônibus. Olhou de novo para as mãos e viu que elas estavam lá, ainda palpáveis, ainda visíveis.
Chegou na escola e encontrou os amigos comentando sobre o interclasses. Recebeu o comentário do amigo da mesma forma que Evander Holyfield recebeu a mordida de Tyson.
“Putz, cara! Você joga! Porra, foi mal”
Fora do time. Tudo bem, ele podia lidar com aquilo, mesmo que ficasse triste.
Desde então, o tempo foi passando e Gabriel foi crescendo. Entrou na faculdade, onde ficou por alguns anos, sempre fora dos grupos de trabalho e vagando solitário pelos corredores do centro.
Nas entrevistas de emprego era a mesma coisa, isso quando as conseguia. Normalmente seus e-mail nunca eram respondidos, tampouco selecionados.
Um dia, cansado de tudo, Gabriel olhou de novo para as mãos. Elas estavam ali, palpáveis e visíveis.
Olhou para trás e viu que, além de um homem, havia uma moça se aproximando, distraída com o celular. Assim que ela passou, Gabriel chutou sua bunda.
A moça, inconformada, se virou brava. Gabriel encolheu-se todo pronto para a bronca.
Irritada a moça começou a gritar…mas com o homem atrás dele. Gabriel interrompeu a conversa e disse que havia sido ele.
A mulher e o homem fitaram-no, aguardaram um segundo e voltaram a discutir. Gabriel foi embora para casa olhando as mãos, visíveis e palpáveis.
Nem ligou para os dois trombadinhas armados com canivete à sua frente. Eles não podiam ver o Homem-Invisível mesmo.

O nosso adeus

“Os cães são o nosso elo com o Paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde, é voltar ao Éden onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz.”

– Milan Kundera

Minha querida,

Eu queria começar essa carta aberta de uma forma sutil e que eu sei que você adorava: histórias longas, bonitinhas e que faziam você deitar bem pertinho, respirar fundo, e então dormir quietinha.  Ah, que saudade de você ali naquele sofá…mas enfim, as pessoas não sabem como foi.

Explico:

Era janeiro; o ano era 2000. Eu tinha 10 anos e você, acabado de nascer. Éramos dois seres daquela geração sobrevivente ao bug do milênio, mas acho que você nunca soube e nem se importou com o que isso significava.

Filha de mãe solteira e de pai vagabundo, vi você pela primeira vez entre seus 10 irmãos, todos machos e bem maiores que você. Faziam de tudo para chamar a atenção, mas você ficava ali na sua, sem encher ninguém.

Até comentaram que você era parecida com a minha mãe, porque além de pequena, rosnava para todo mundo – a família inteira riu, menos minha mãe, claro.

Foi amor à primeira vista, ainda que você não demonstrasse de cara. Tudo bem, era o seu jeito, e aprendemos isso com anos e anos de convivência.

Trouxemos você para essa casa no meio de dois cães imensos, que faziam qualquer poodle sentir medo.Qualquer um, menos você, que saiu correndo para o quintal se apresentar.
Daquele tempo em diante, você entrou de vez para a nossa família. Eu fui crescendo e celebrando cada aniversário seu.

Você viu quando eu voltei de São Caetano para morar com meus pais aos 12 e viu também quando saí de novo para morar com as vós em Sorocaba. Aliás, você costumava ficar lá de tempos em tempos.

Viu eu terminando a oitava série e morrer de medo do colegial. Viu também eu saindo da escola, em lágrimas, comemorando a passagem para a universidade. Você viu tudo, acompanhou tudo e esteve lá.

Quando aqueles seus amigos se foram, você se comprometeu a assumir a casa. Nem se abalou tanto e mostrou pela primeira vez o quanto era forte. De lá para cá, vários vieram e se foram e você sempre os recebeu e cuidou de cada um.

Da mesma forma que amou incondicionalmente, odiou com toda a sua alma. Você se pegava a tapas com a Thalia, lembra? Mas quando ela se foi, você foi a primeira a ficar triste.
Era casca grossa, mas tinha o coração bom. O tempo continuou passando e você foi envelhecendo cada vez mais forte . Lembro que no mesmo mês precisei levar todo mundo pro veterinário…você, NUNCA. Juro por Deus que nunca vi cão mais forte que você.

Chegou aos 12, aos 13 e aos 14 anos sem perder um dente, sem pegar uma gripe e muito menos sem perder o apetite. Ainda assim, você tinha o seu jeitão isolada e comedida.

Um pouco desconfiada do mundo, mas nunca agressiva a ele. E o que a gente mais ria era que todos os outros cães, ora um, ora outro, alimentavam birras e discussões. Mas todos te amavam.

Você virou a vovózona, a matriarca dos vira-latas.

Mas enfim, além da faculdade, você viu meu primeiro emprego. Viu a alegria que foi chegar em casa e contar do segundo. Fiz até festa para vocês, trazendo um monte de bifinho e porcaria canina para vocês se divertirem.
E ano passado você me viu, finalmente, sair da faculdade. Foram 15 anos que eu cresci e você cresceu junto ali, do lado, em silêncio, apenas com o rabinho abanando e um chorinho chato pedindo pra ir pra rua.

Você sempre esteve ali. Agora já não mais.

Hoje, uma década e meia depois, você decidiu que era hora de ir. Porra, como eu chorei, e como ainda choro enquanto escrevo. E o pior foi que nem deu para nos despedirmos.

No mês passado eu perdi um dos meus melhores amigos, que ficou apenas seis meses comigo. Imagina a dor que é lembrar que, depois de 15 anos, foi a sua vez.
Eu questiono porque vocês ficam tão pouco tempo com a gente e sei que a resposta é porque é o tempo suficiente para nos encher de amor e alegria.

Se essa era a sua missão, você a concluiu com mais êxito do que se possa imaginar, minha cara. E eu, da mesma forma que sinto tristeza por ver aquele sofá vazio, fico feliz por saber que agora, exatamente agora, você está bem. E que eu vou rezar por você, da mesma forma que rezo por todos.

Eu sei que essa despedida ficou longe de perfeita, mas é que o cérebro e o coração tão desconversando muito por isso. Peço desculpas.

Muita gente vai perguntar porque eu escrevo para vocês quando vocês se vão, sabendo que vocês não sabem ler. E eu vou sempre dizer que é porque, nessa casa, os corpos se vão, mas o amor sempre fica.
Vá em paz, vá com Deus, e obrigado por todos os momentos ao meu lado. A gente ainda vai se encontrar mais vezes.

Mesmo que muitos não acreditem, eu acredito.

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Meg

* 05/01/2000
+ 23/04/2015

Quero ser Duchovny

Sou só um otário com baixa autoestima, oh yea

                                     Offspring

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Saber lidar com a baixa autoestima é um processo complexo e que envolve etapas muito mais complexas que a autoindulgência e a comiseração. É praticamente tentar reverter o saldo negativo de experiências frustradas em algo que satisfaça um desejo do ego – e que, por tabela, atinja o hemisfério da admiração alheia.

Parece um papo filosófico, extremamente fundamentado em bases científicas, mas trata-se apenas de uma constatação rotineira ao qual eu me submeto todo dia. O espelho no quarto na parte da manhã e a porta do quarto no começo da noite acabam se tornando instrumentos de torturas que nem mesmo a equipe da inquisição pensaria em usar com bruxas e ciganas.

Meu complexo se estende muito além da escrita disléxica e da ilustração desproporcional. Também não se encaixa às três bandas que fiz parte, tampouco à minha atual inaptidão para exercer algo além da minha profissão. Estende-se pela forma como o talento se torna abstrato e intangível toda vez que tento pôr em prática alguma atividade.

Recentemente vi passando aquele filme ‘Quero ser John Malkovich’. Não tenho o mínimo embasamento cineasta e tampouco sei da trama; atrevo-me, inclusive, a dizer que não vi outro filme do cara que não seja R.E.D., mas, definitivamente, não tenho vontade de ser Malkovich.

Queria mesmo era ser Duchovny. O cara define o padrão de excelência ao qual eu queria piscar e esticar os dedos em formato de arminha toda manhã em frente ao espelho, a união perfeita entre o talento e o assédio moderado.

Duchovny me foi apresentado na época em que usava as calças do fodão Fox Mulder. Meu, o cara mantinha contato com alienígenas e solucionava casos absurdos da ufologia, coisa que poucos teriam a capacidade nesse mundo de fazer. Era o alto-grau da escala meritocrática astral, da qual enjoou e resolveu ser escritor. Protagonizou Hank Moody, a mistura ideal do tarado-beberrão Bukowski com a elegância e a classe macho alpha de Hemingway.
Um Fox Mulder garanhão e apaixonado, um Hank Moody que caçava aliens. Assim que a série caiu em desgraça, viu que não poderia salvar nada sozinho e resolveu mostrar o lado Duchovny.

Escreveu um livro que ingressou na coluna de best sellers do New York Times e, conforme noticiado durante essa semana, entrou em estúdio para gravar um álbum de rock, que pelas demos já nota-se a veia artística de um vocal muito semelhante ao de Mike Ness. Escorre a cada segundo aquela reunião de Fox, Hank e David mostrando como fazer você, mero espectador, reforçar aquele pensamento lá de cima de que o espelho se torna a tortura.

Dentro das minhas limitações, ainda percebi que não figurava no NY Times, nem pisei mais num estúdio desde os 19 anos. Só me restava esboçar um beiço elevado em tom de aprovação e inveja e bater palmas vagarosas em reverência a um mestre.

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Faz frio.

I can’t lose, I can’t win
livin in the middle once again
can’t stand the pain

O ônibus balançava de maneira desorganizada, quase que nauseante. Sentado no banco da frente e mexendo no celular, o garoto apenas engolia em seco para evitar que seu café da manhã se rebelasse, num ato legitimo de protesto, contra a exploração do opressor balanço daquele cacareco de quatro rodas e 50 assentos.

Seus dedos passavam pela tela como um pequeno pincel dava vida a uma tela séculos atrás e a tosse seca cortava o silêncio constrangedor entre todas aquelas pessoas. Fazia mais de 40 minutos que estava ali sentado e fuçando no celular sem que uma mensagem de oi, alô ou que horas você chega pipocasse na tela. Com um suspiro deprimido, travou a tela e guardou o aparelho na mochila, enquanto aumentava o volume do seu radinho.

O balanço nauseante começava a cessar à medida que se aproximavam da entrada da Marginal e, ao som de Georgia Satelittes, ele olhava para o rio sujo contendo a ansiedade de mexer de novo no celular que não havia recebido uma única mensagem.

– Bilhões de pessoas nesse mundo- ele disse baixinho, -e nenhuma delas perguntou se eu esqueci a blusa.”

– Pelo menos o motorista é mais sincero  – continuou – ele não quer que falem com ele, a menos que seja o necessário. – disse em voz alta, provocando uma certa estranheza nas pessoas que viajavam com ele.

Esticou de novo o olhar pela janela e viu que a cidade já estava começando a ficar parada no asfalto, como era de costume.

– Pois eu também esqueci a blusa – disse o motorista – mas ninguém achou essencial perguntar para mim.

E soltou uma gargalhada do volante. O garoto sorriu de volta, mais porque achou estranho que alguém que estivesse dirigindo um troço daquele tamanho, àquela hora, teria bom humor para encarar uma conversa com um adolescente meio solitário.

– O senhor esqueceu a blusa também? Mas dizem que São Paulo esfria algumas horas.

– Ah, isso é só durante o inverno. E outra, é tanta gente na rua respirando que você se aquece, talvez você nem pense na blusa…nem em quem não perguntou se você a esqueceu.

– Hmm… – ele assentiu, mais feliz – acho que a gente não deveria falar sobre isso, não é um assunto indispensável.

– Tem razão. Vai descer no Tietê?
– Barra Funda.

E aumentou o som dos Satellites, olhando de novo no celular. O motorista teria que fazer aquela viagem mais umas três vezes naquele dia.

 

Calma, cara, é só uma folha

Sabe qual a diferença entre um pedaço de papel e uma tela em branco no computador? Pois é, na folha, a vida parece que toma forma melhor e mais rápido.

Sei lá se é porque o computador nos dá a possibilidade de revisar a cada linha, de editar sempre que dá vontade ou de simplesmente apagar tudo, abrir o Facebook e perder tempo vendo piadas sem graça ao invés de arrancar, amassar e jogar a folha longe e começar de novo. A diferença talvez seja essa: quando você deleta no computador, você não sai do lugar; no caderno, uma folha a menos é um espaço a menos. É como se fosse uma semana, cujo cada dia mal escrito e jogado fora te deixa sempre com menos para tentar de novo.

Eu comecei a escrever isso na folha de papel. Desisti. Ainda fui covarde de correr o risco de arrancar uma folha e jogar longe com um mero erro ou desgosto. Um amigo meu investiu muito tempo montando esse caderno; outro também, orçando para produzi-lo. Seria muita falta de consideração tratar o caderno com tanto descaso assim, com tantas vidas se esforçando para dar vida a ele. Inclusive a minha.

Eu pensei nessa comparação do papel, do computador e da vida quando me flagrei pensando em como eu fazia com meus dias. Todo dia eu escrevia a mesma história, com um ou outro detalhe diferente. Depois eu ia dormir sem nada novo, e acordava no dia seguinte esperando mais do mesmo, tentando contar a mesma história.

Hoje eu abri o caderno e pensei nisso. No começo esbocei uma frase.Odiei, mas me recusei a arrancar a página; apenas fechei o caderno e corri para a zona de conforto da tela branca.

Mas ainda assim eu relutava. O texto não saia e eu apagava, apagava, editava e apagava. Até que eu larguei mão e resolvi vir até aqui.

Confesso a vocês que parei em diversos momentos. Fui refém do Facebook, fui refém dos sites de piadas. Fui refém até do whatsapp e do celular. Fiquei um bom tempo parado até voltar aqui e ter que ler tudo que havia escrito e tentar recuperar o fio da meada.

Voltei e comecei a pensar em quantas folhas de caderno eu já teria desperdiçado a essa altura. A sensação de que talvez fossem muitas foi estranha. O coração acelerou e o peito começou a doer, fiquei sufocado por um tempo. Nesse intervalo, me imaginei dentro um caixão daqui uns anos.

Não era ruim. O ruim era quando eu fazia o caminho inverso, tipo Benjamin Button. Comecei a me imaginar velho, depois meia idade, depois um pouco mais adulto. O aperto ficou mais intenso e só foi interrompido quando voltei a pensar no caderno e nas suas folhas jogadas.

Caralho, pensei, nunca imaginei que eu tinha emoções tão complexas e que saltariam na tela no começo de um texto. Parei de novo e voltei para a internet.

Fiquei espiando através de uma tela a rotina alheia. Depois no celular, mesma coisa. O pior era que eu falava sozinho, igual quando eu era mais novo e conversava com os desenhos.

Eu bradava algo, mas nunca tinha uma resposta. Era apenas eu, a fala e a tela. Eu não passava de um telespectador.

Desisti e resolvi acabar esse texto assim mesmo. Talvez eu dê continuidade a isso no papel ou talvez escreva algo novo. Mas a certeza é deque antes, eu vou jogar no papel sem medo de rasgar a folha e jogá-la para cima.

Antes isso com a do caderno do que com a do calendário.

Lado A, Lado B

Turn the record over
Hey, I’ll see you on the flip side.
There you go, turn the key and engine over…
Let her go, let somebody else lay at her feet

“45” – The Gaslight Anthem

 

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Quando a lua deu seu primeiro sorriso no frio e insensível céu noturno, William esticou a folha em branco sobre a mesa da varanda, pegou a pena e o nanquim, se atrevendo a desenhar cautelosamente as palavras naquela carta que mandaria a Catherine. De dentro do quarto, atravessando a varanda, uma suave melodia dançava no ar, saindo da vitrola e do disco antigo, que em meio a cada nota mais grave, emitia um chiado como um lamento.

A pena era romântica, assim como os pensamentos que reservava para aquela jovem de pele morena e cabelos pretos que contrastavam com o branco marfim do sorriso dela naquela praia deserta que viajaram uma vez. E a cada suspiro que dava, lembrava de cada sorriso que ela dava na direção do mar, que parecia também ceder a seus encantos.

“Nessa noite a lua parece entender nossa distância. Ambas são crescentes e ambas tentam emanar uma luz em tom de despedida. Enquanto isso, minha cara Catherine, eu passo suavemente essa pena sobre uma página em branco, esperando que cada letra saia perfeita e simétrica, como o seu corpo e como a sua alma. No mais, apenas olho para o formato do satélite e comparo-o ao de seu sorriso, o qual me faz tanta falta.”

Assim, William escrevia em tom de saudades, esperando que cada descrição saísse perfeita naquela carta. Ela merecia toda aquela entrega de corpo e alma.

Ninguém jamais havia cativado aquele rapaz de uma forma tão intensa. E muitas tentaram. Tentaram à exaustão seduzir aquela nobre e pura alma que não cedia aos encantos, segundo ele, tão normais ou insignificantes; comuns que jamais serviriam tampouco para fazê-lo transitar entre a bipolaridade, esperando que um beijo curasse uma mágoa.

Mas com Catherine foi diferente. Talvez porque ela não tivesse a intenção, talvez porque ela não se preocupasse em tentar provar-lhe nada.

O som ainda dançava de acordo com os movimentos da mão direita do jovem e que a cada sibilar  da ponta da pena no papel espesso, parecia mais intenso e mais apaixonante. Era como se cada nota musical desenhasse o corpo de Catherine e como se cada tom traduzisse sua voz. Ele pensava mais e mais nela ao passo que a música tocava.

Do lado de dentro o quarto, uma moça, bem jovem e delicada, de pele branca como a neve e cabelos vermelhos como as flores do outono, esperava nua por uma resposta de William aos seus suspiros. Ela tentava brigar com a música, mas tudo que escutava era o frenesi da escrita de William naquele papel.

O som da pena parou e o papel foi dobrado e guardado. William adentrou ao quarto e possuiu a jovem que jazia em sua cama de forma intensa e sentimental , ao mesmo tempo em que não deixava seu cavalheirismo de lado. E foi assim a noite toda: o pensamento em Catherine e o corpo naquela jovem.  Ao fim do romance, a jovem vestiu-se rapidamente, beijou o rapaz e se despediu com rapidez, talvez com pressa de chegar a sua casa e evitar o olhar reprovador de um pai conservador. William assentiu, correspondeu e abriu a porta para a jovem, que saiu exatamente ao final do disco.

William caminhou em direção à vitrola e trocou o lado. Foi quando a sineta tocou.

Lá estava ela, de pele morena, cabelos negros e sorriso marfim, combinando com os trajes. Catherine se exibia naquela porta, esperando o convite para entrar.

William a recolheu para dentro de sua casa e a acompanhou até o quarto. Enquanto a moça se arrumava e deitava em sua cama, William se retirou para a varanda, esticou outro papel sobre a mesa, pegou a pena e o nanquim.

A lua deu seu segundo sorriso no frio e insensível céu noturno. De dentro do quarto, atravessando a varanda, uma suave melodia dançava no ar, saindo da vitrola e do disco antigo, que em meio a cada nota mais grave, emitia um chiado como um lamento.

William começou a escrever para sua amada, de pele branca como a neve e cabelo vermelho como o fogo. Jolene era seu nome.

“E enquanto o céu servir de fundo para aquele único sorriso no alto, meu pensamento estará em você. Deixarei que qualquer um deite ao seu pé esta noite, eu vejo você do outro lado do disco.”

E assim finalizou a carta e foi para a cama. O som parecia mais intenso e mais apaixonante a medida que seu corpo se aproximava de Catherine, mas o pensamento estava lá longe, em Jolene.