Amor de tinta.
Um dos maiores questionamentos da humanidade é a existência ou não de Deus, ou de alguma entidade superior. O outro é porque o escritor capixaba Jean-Jacques se chamava Jean-Jacques.
Alguns questionavam se tinha a ver com Rousseau, mas muitos duvidavam que seus pais, por não saberem nem quem era colunista na revistinha local, saberiam quem era Rousseau, autor d’O Contrato Social. O fato é que ele era Jean-Jacques, de Vitória, e não se importava com os questionamentos do mistério do seu nome, apenas que era escritor.
Seguia o estereótipo solitário, melancólico e escrevia poesias e contos de amor não correspondido, todos ao embalo das tristes cantigas de Chris Isaak e sua sombria lamúria de que o mundo estaria em fogos e somente ela poderia lhe salvar.
Autor de linhas e mais linhas sobre este, então chamado amor platônico, porém pouco divulgado, Jean-Jacques abria suas garrafas de vinho, acendia a luz da vela e carregava a pena da caneta. Começava então a escrever.
Em seus últimos instantes sentado à mesa, começou a escrever sobre a bela Catarina, loira apaixonante que, além de levar o nome do lindo estado de Santa Catarina, tinha os traços da famosa mulher catarinense. Jean-Jacques se apaixonou de imediato por aquele sorriso sulista que o encantaria logo pela primeira vez. Da primeira vez que se encontraram foi numa praia durante uma viagem. Ah, aquela viagem maravilhosa ao Rio de Janeiro no Carnaval. O que fariam um capixaba e uma catarinense no Rio de Janeiro em pleno Carnaval? Admirariam a beleza da Cidade Maravilhosa esperando também encontrarem outras coisas maravilhosas. Encontraram.
Jean-Jacques encontrou-a sentada no quiosque tomando um suco, talvez fosse de abacaxi, e buscou uma cadeira próxima pedindo o mesmo que o da moça sem saber, apenas para puxar assunto. Surpresa mesmo foi saber que a linda moça quem puxara conversa.
- Vejo que também gosta de abacaxi.
- Eu adoro abacaxi.
- Eu não. Mas é porque eu preciso de algo um pouco azedo no meu paladar. Ando muito feliz, sabe – completou passando os lábios pelo canudo.
Jean-Jacques engoliu em seco. Não sabia o que responder, era bom apenas nas respostas de suas personagens e não suportava a ideia de ter que se considerar uma naquela resposta.
- O meu nome é Catarina, a propósito.
- Como o doce….
-…Como o doce e encantador estado ao Sul, sim – ela completou as palavras de sua boca.
- Eu sou Jean; Jean-Jacques, é francês…
- Como Rousseau?
- Dizem que sim. É um mistério. Assim como essa história dos elétrons também.
- Não ligo para elétrons. Eles são muitos negativos.
Riram juntos da piada idiota que ela acabara de contar sob a sombra das palhas que compunham o telhado do quiosque; o barman olhava com uma cara de reprovação, mas eles nem se importavam.
Jean-Jacques continuava a história de sua musa, aos goles do seu vinho e do som de Isaak que já cantava novamente que o mundo estava em chamas e ninguém poderia salvá-lo, a não ser ela.
Traço a traço de cada letra, designada com maestria pela mente apaixonada de Jean-Jacques, a história sobre Catarina desenrolara um romance que o sugava de corpo e alma papel adentro.
Narrou as passagens pela sua cidade. Pelas sujas praias do litoral paulista, pelos belos morros mineiros e até pela gélida Patagônia, por onde foram juntos quando prometeram fugir ao fim do mundo.
Jean-Jacques já não conseguia viver sem Catarina, sem sua doce imagem na lembrança. Não conseguia ficar sem descrever seu majestoso corpo e todo o circular formato de seu quadril. Estava hipnotizado e já a ouvia chamar.
- Jean-Jacques, seja meu.
- Sou seu, meu amor.
- Seja meu…
- Sou seu – respondia enquanto escrevia.
- De corpo e alma, Jean-Jacques
- De corpo e…
O disco pulara da vitrola. Isaak tinha cansado de ser salvo do mundo em chamas.
Por falar em chamas, a vela se apagara e tudo o que sobrara naquele quarto foram as manchas da tinta da pena no delicado papel, manchas curiosas que não hesitavam em mostrar um malicioso e sedutor sorriso feminino.
Quanto a Jean-Jacques, bem, dizem que a melhor história que qualquer escritor pode contar é ele mesmo.
Feliz bla bla bla dois mil e doze.
E o mais importante antes que eu me esqueça: mas que P*##@ são lentilhas? Ela nem tem gosto de nada…
A primeira coisa que eu faço no primeiro minuto do primeiro dia do novo ano é pensar -sim, só nesse instante.
A cada virada de ano, algumas pessoas reclamam que o ano foi a mesma coisa dos anteriores: a mesma rotina, o mesmo trabalho,os mesmos amigos, os mesmos parentes e a mesma falta de dinheiro. Aí, elas resolvem que celebrar um ano novinho em folha, a chance de mudar, vestido de branco, na orla da praia, enchendo a cara – igual fizeram nos anos anteriores – vai contribuir para que a mesmice se vá.
Talvez eu não tenha a voz da experiência em matéria de “Como Tornar o Seu Ano Novo Melhor”, mas neste único momento do ano que eu paro e penso, eu já quero dar uns conselhos para você não causar o papelão em 2013.
A primeira parte são as promessas de ano-novo, que toda tia faz, e nenhuma avó cumpre; regime, ser uma pessoa melhor, aceitar as diferenças, mudar de vida, viajar bastante, arrumar uma esposa/marido, começar minha pós-graduação e todas aquelas lamúrias que eu e você já nos flagramos escrevendo num papelzinho e pendurando na geladeira.
Bem, meu primeiro conselho é: SEJA SUSTENTÁVEL.
Você, mais uma vez, não vai cumprir bosta nenhuma, então, escreva tudo a lápis, marque os três primeiros algarismos do ano e vá trocando conforme os Réveillons vão passando. Você economiza papel, tempo e a natureza agradece.
O conselho número dois é: NÃO USE A ROUPA BRANCA.
O branco não é a cor da paz, é a cor do porra-nenhuma. Você usar branco mais uma vez, vai fazer sua vida passar em branco. Não, eu não tenho nenhum fundamento científico ou gnóstico para defender este argumento, mas é que eu acho ridículo aquela festa do branco em família. Eu passei de preto e bermuda florida azul e você nem pode falar que meu ano foi pior por isso porque ele nem começou direito.
A terceira parte já é mais gastronômica, então eu digo: NÃO SE EMPANTURRE DE COMIDA.
Você vai ter uma congistão, ou vai pegar intoxicação alimentar, capaz até de passar o Réveillon na cama de um hospital tomando soro. O problema nem é você ser internado, é estragar o ano-novo do médico e da enfermeira, afinal, eu te avisei para não comer tanto assim.
O quarto conselho vem por parte de família, e não é bem um conselho, é mais uma advertência para retardados de plantão: NÃO ESTOURE CHAMPANHE DENTRO DE CASA.
Você quer destruir uma lâmpada? Deixar cacos no chão para a criançada e o cachorro se machucarem, ou então, caso use aquelas fluorecentes, deixar mercúrio intoxicar toda sua casa? Estoure de preferência para a rua, longe do movimento. É, você vai sujar a rua e ir contra toda a sustentabilidade. Talvez o mais sensato seja não estourar.
O quinto é uma ciência exata, mas não custa reforçar que de nenhuma maneira você DEVE DEIXAR SEU TIO BÊBADO DISCURSAR.
Ele vai ofender alguém, ele vai falar merda, se acidentar dentro da sala ou pior ainda, caso você more em apartamento. Ele pode cair da sacada e levar a tia Susie – aquela gordinha que promete fazer regime, mas no dia 1 já comeu toda a geladeira – e não é uma cena agradável.
O sexto eu diria que é para controlar a criançada mimada. Como hoje estamos na era da internet e da chupanet, as crianças trocam a família pelo videogame, então, dica 6: TAQUE O XBOX 360 DO PRIMINHO PELA JANELA.
Além do moleque sossegar e parar de berrar, você acabou de usar um argumento racional, sem perder a paciência com as crianças para que todas saiam na foto com aquela tia aperta bocheca – que com certeza, vai ser a tia Susie.
E a dica número sete e talvez a principal: NÃO DEIXE QUE O SEU ANO SEJA NOVO, SEJA VOCÊ O NOVO.
O ano novo não traz mudanças sozinho. Ele é um capítulo, páginas em branco que você vai escrever conforme age ao longo dele. Então, não espere milagres, não o culpe se der tudo errado. Se quer realmente um ano novo, faça VOCÊ com tudo seja diferente.
A todos que tiveram a paciência de ler, um Feliz 2012. Aos que não leram, eu também desejo um feliz ano novo e nem vou xingar, afinal, parar de xingar é o primeiro item da minha lista sustentável de promessas.
Malditos olhos. (Baseado numa mentira real)
Os seus olhos são as janelas da sua alma. Infelizmente, algumas pessoas querem ficar pulando pra dentro e pra fora.
Semana passada eu recebi um Award por reclamações sobre o transporte coletivo em geral. Quando me entregou, minha mãe jurou por tudo que havia naquela sala que ela se divertia com minhas histórias diárias a respeito daquilo que eu enfrentava no balance do ônibus velho que me levava ao trabalho.
Pois bem, homenageado que fiquei com o prêmio pensei que poderia passar minha vida inteira só reclamando de ônibus e fazendo as pessoas rirem; mas aí eu lembrei que quero ficar rico e, para me enquadrar no quesito de rico, andar de ônibus seria um dos itens que eu deveria riscar dessa lista de afazeres.
Mas, para não prolongar muito, vamos nos centrar no que eu queria relatar. Ultimamente o ônibus tem parecido o Carnival of Sins, ou próximo a isso. A quantidade de gente extravagante (e que eu faço questão de me considerar uma exceção) que entra por aquelas portas nos faz desacreditar no conceito de normalidade.
Conheci um tiozinho que deveria estar com tuberculoso ou algo próximo a isso. Tossiu o trajeto todo e, para cada cófe, ele realizava uma coreografia. Se eu pudesse ilustrar nesse texto, garanto que o seu prazer de ler até o final seria maior, mas como não posso deixo já de lição de casa um treino para sua mente.
Ele balançava de um lado para o outro, como um daqueles figurantes do clipe da Ke$ha, só que tossindo. E aquilo, assumo, tirava minha atenção do livro e enquanto ele tossia, eu continuava no “entrei de mansinho pela porta e…” – COFF! – “…entrei de mansinho pela porta e…” – COFF . Ok, fechei o livro esperei que ele cessasse a execução de seu pulmão, o que não aconteceu, já que ele desceu em seu ponto tossindo.
Agarrei novamente meu livro, abri onde tinha parado e dei continuidade ao detetive. “Desculpe, Lew Archer¹. Por favor, prossiga sua história a partir da entrada da porta”, o que ele atendeu com maestria ao meu requerimento. Enquanto os meus olhos corriam pelas páginas do exemplar, percebi um clarão correndo pela minha frente.
Olhei de canto e não vi nada suspeito naquele momento. Centrei minhas atenções novamente no livro quando o mesmo clarão de repente percorreu meu rosto. Mas que Diabo de porra era aquela? Olhei novamente e me deparei com a cena mais amedrontadora do que um palhaço de monociclo segurando uma cabeça recém-decapitada: uma criança estranha me encarando.
Encurtei as pálpebras, torci o pâncreas evitando uma reação e olhei fundo naqueles olhos demoníacos. Eles me encaravam com certo fanatismo.
“Mas, heim?!” pensei apertando com força meu livro, pedindo que Lew Archer desse um jeito de me ajudar. Mas ele não me ajudaria e aqueles olhos esbugalhados continuavam me fitando como se eu tivesse, de certa forma, defecado e fétido.
Reabri calmamente meu livro e pensei comigo mesmo que nada iria acontecer. Comecei a ler, mas a minha atenção não conseguia terminar a página 80. Eles estavam atraídos pelos pólos negativos e positivos daqueles grandes olhos de um amedrontador garoto de 10 anos.
Ele fitou-me nos olhos. “Estou cego”, pensei e apertei os olhos. Reabri calmamente e percebi que nada acontecera. Ufa. Mas ele continuava me fitando.
Assim passou-se mais de 40 minutos e ele me encarava. O ônibus ia se esvaziando, as pessoas passavam a catraca e desciam e os assentos ficavam vagos; ele não saia do meu lado.
Enfim meu ponto chegou. Guardei minhas coisas, fechei o livro, puxei a cordinha e me preparei para descer.
Nisso eu escutei uma voz infantil rouca e assustadora sussurrando:
- Moço.
Ignorei. Talvez se eu ignorasse, eu evitasse uma catástrofe.
- Moço – prosseguiu. Comecei a tremer e parei em frente a porta. Nada ia acontecer, era só ignorar.
O ônibus parou e a porta se abriu.
- Moço.
Virei para trás, olhei aqueles olhões e disse:
- O que?
- Não é o recepcionista o assassino.
Um choque correu em minhas veias e eu perdi a reação. Desci do ônibus com aquela voz repercutindo na minha cabeça, como se fosse vazia: “não é o recepcionista o assassino.”
Frustrado, passei por uma senhora e entreguei o livro a ela. Não queria ter pesadelos com aqueles olhos, aquela voz ou até mesmo aquele recepcionista.
¹: Menção a Lew Archer, detetive dos romances noir de Ross MacDonald
Patrick Sabrino, le vingador
A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena
Madruga, Seu.
Essa aqui é a história de Patrick Sabrino, o vingador egoísta. A história de Patrick Sabrino não é muito conhecida na cidade em que eu nasci, tampouco na que eu moro, muito menos nas trezentas mil que eu tenho o sonho de morar um dia. A história de Patrick Sabrino, o vingador egoísta não é conhecida em porra de lugar nenhum, nem mesmo na casa da vizinha.
Mas quem me revelou detalhes dessa provável situação real foi minha vó, bem quando eu tinha meus sete ou oito anos e ficava sentado com ela na varanda, enquanto ela tricotava aqueles suéteres bregas que jamais um ser humano usaria – nem mesmo ela. A história era assim:
Diz que Patrick Sabrino sempre foi um cidadão direito, pomposo e disposto a ajudar o outro; mas como moramos no Brasil e conhecemos o Zé-Povinho adpeto da Lei de Gérson, Patrick Sabrino nunca se adaptou ao cenário urbano das capitais e olha que nem era por conta do nome. Patrick Sabrino, direito do jeito que era, sempre acabava passado para trás por algum propedeuta dos maus costumes. E assim caminhava Patrick Sabrino no ciclo social: a cada dois passos que dava para frente, as pessoas o faziam dar uns 12 para trás, coitado.
Um dia, cansado de todos esses sórdidos acontecimentos em sua nobre e correta conduta, Patrick Sabrino resolveu vingar-se de tudo e todos, em proporções devidamente exageradas contra o que era submetido todos os dias.
Se Patrick Sabrino namorasse e fosse traído, à noite costurava as regiões – indevidas para o horário- da moça que fizesse isso com ele. Correto, generoso e… cruel; assim Patrick Sabrino se tornou quando resolveu pôr a máscara do justiceiro particular e promover seu ego à principal razão dos movimentos de rotação e translação da Terra. Patrick Sabrino mudara.
A intolerância aumentou tão gradativamente que a primeira pessoa que Patrick Sabrino resolveu se vingar foi um colega de escritório. Era simples o causo: Patrick Sabrino ralava que nem um jumento carregando carroças de cenoura nas fazendas e seu amigo que fora promovido dando a si mesmo os devidos créditos por uma operação milionária. Patrick Sabrino simplesmente grampeou as mãos de seu colega a cheques sem fundo, além de escrever com marcador de CDs as palavras “bom” e “trabalho” na testa do meliante.
Patrick Sabrino queria revanche, queria devolver cada troco em suas devidas moedas. Aquele amigo que roubou a namorada de Patrick Sabrino teve o que mereceu. Enquanto dormiam, Patrick Sabrino invadiu a casa e colou suas partes íntimas com Super Bonder. A risada maléfica tomou conta da personalidade de nosso (anti)herói; ele não sabia mais a diferença entre uma pequena brecha (como diríamos nós, paulistanos) e uma grande punhalada nas costas. O ódio cresceu e se espalhou por suas veias.
E assim Patrick Sabrino seguiu seus dias: desforrando uma a uma as insatisfações de sua vida, as dores provocadas pelos outros.
Eis que um dia, Patrick Sabrino se surpreendeu e se apaixonou. Era Malva Maria, que apesar do nome, também tinha boa índole, como Patrick, o Sabrino.
Sua vida voltou ao normal, pelo menos era como achava. Descobrira uma pessoa que sabia não ser capaz de traí-lo nunca, de prejudicá-lo jamais e casou-se.
No dia de seu casamento, Patrick não compareceu por questões pessoais e sombrias e deixou Malva Maria sozinha no altar da Igreja. Quando caiu em si, Patrick Sabrino percebeu-se, pela primeira vez prejudicando alguém.
Triste, deprimido e acabado, como grande culpado e sem um motivo de vingança, sentiu-se desnorteado e acabou por sofrer do coração.
Patrick Sabrino morreu; pelo menos foi o que disse minha vó.
Se eu acredito nessa história, você me pergunta? Bom, nem um pouco.
Doce sabor da minha (quente) cerveja
Um copo de cerveja numa mão, as poucas moedas que restavam pro passe na outra. Já eram mais de cinco horas de tarde e corpos bêbados jaziam no quintal da chácara; churrasco da turma do quarto ano de direito.
Tomei mais um gole daquele chá de cevada, fervido naturalmente aos raios solares e fiz a tradicional careta do “essa porra tá quente demais”. Recoloquei meus óculos escuros, baixei a manga da camiseta do Dead Kennedys para esconder a tatuagem, aconcheguei a bunda na pedra e comecei a contar um, dois, três…até então 15 cadáveres sorrindo bobamente, deitados em seus próprios vômitos sem nem saber de onde eles saiam naquele exato momento.
A carona não vinha, então eu continuei meu belo passatempo aos fortes ultravioletas. Caralho, quanta gente bêbada, enquanto eu aproveitava ainda meu primeiro copo durante toda a festa.
A vida é assim, meu amigo. Em dias de Open Bar, ou você fica na fila para pegar uma breja, ou vai aproveitar a festa diante do calor humano. Nas que não são, ou você se torna um Donald Trump, cheio das moedas nos bolsos furados, ou não vai conseguir nada além de uma alma caridosa, que te considera pra caralho, depois de todo aqueles cinco minutos de amizade eterna para te pagar uma Brahma. É, uma Brahma. É onde vai o sacrifício humano por um gole daquele treco apaixonantemente amarelo.
O sol apertava cada vez mais devido ao forte sol das cinco horas no horário de verão. Os 15 cadáveres que eu havia contado ainda jaziam abobalhados – verdadeiros zumbis regados a demência e bons shots de tequila com vodka com whisky com pitú e com a coca que a gente dava para cada um melhorar, mentindo que tinha rum dentro. Jaziam sem serem donos do próprio destino naquele exato momento. Foi então que vi uma legging preta, empinada para a direção das nuvens. Cabelos morenos corriam por sobre a legging, fazendo uma oscilação ondulatória, seguindo apenas o fluxo daquela bunda que falava comigo. Ela dizia: o céu é ali em cima. Eu olhei para ela, tomei um gole e concordei – o sol estava realmente ali em cima, azul como um pássaro raro, refletindo os fortes raios do sol.
A conversa estava boa, até. Ela insistia que o céu estava ali em cima e eu bebia e concordava, com a mesma careta que fazia quando ingeria aquele troço quente. Ao final, levantei-me da pedra e caminhei rumo ao norte, cantarolando aquela bela canção de J Mascis. Dei um leve tapa na minha nova amiga, aquela incontestável bunda apontando pro céu e me despedi: minha carona havia chegado.
~Le TAC
Começou assim:
Acordara lá pelas sete e tantas da madrugada e, com o mesmo ritmo do banho pegou o ônibus para o trabalho. Chegou às nove, mas só funcionou às 10.
Isso normalmente é o que acontece com máquinas sobrecarregadas. Não sabia ao certo se era do trabalho; talvez fosse a mera ilusão do quanto aquela cidade que ficava há poucos minutos, levava duas horas de percurso. Talvez o tempo fosse realmente relativo, um literal-relativo, se é que existe.
De qualquer forma, chegou, deu um tapinha na bunda pra limpar a poeira da charrete coletiva, ajeitou sua calejada bunda na cadeira com rodinhas e iniciou a trilha sonora do dia. TAC TAC TAC. Tocava teclado – e muito bem, diga-se de passagem.
Mas a cabeça girava num louco movimento de translação. Em menos de 10 minutos tocando sua sinfonia de as, de bês e éfes, desligou-se novamente. Não, minto…ficou em standby.
E lá seguia, mecanicamente a sua rotina de 2305 horas diárias com aquela sinfônica batida clássica, a música favorita dos workaholics. TAC TAC TAC.
Calculou, da mesma forma mecânica quantos livros poderia ter escrito. Nenhum, não sabia nem usar a porra da vírgula – como alguns tradicionais usuários de redes sociais.
E quanto mais TAC TAC, mais TOC TOC na cabeça. Uma voz que parecia um murro numa esquadria de madeira pegou na mente, como um fist fuck num panda. Aquela sensação estranha despertou Alfredo de um transe profundo, talvez aqueles cem anos de solidão que roubaram do Garcia Marquez.
- ALFREEEEEEEEEEEEEDO!
- Oi. – aquele oi bizarro, igual que você responde quando interrompem seu episódio favorito de Glee.
- ESTOU CHECANDO OS SEUS *TOC*AFAZERES*TOC* – esse era o murro na porta, na porta do Alfredo.
- Sim.
O grande irmão estava ali de olho nele. Tudo bem, faltavam apenas umas 2302 horas para ele sair de lá.
Enquanto isso, deixou sua mente em standby, semi-cerrou seus olhos novamente e continuou aquela doce sinfonia em conjunto com as outras células da empresa.
Tinham uma banda, o tal do The TAC TAC TAC Group.
Amor;
Eu quero usar esse momento para me declarar.
Desde pequenininho estivemos juntos, sempre nos mesmos lugares e nos melhores momentos do dia.
Eu era inocente, não tinha maldades nem segundas intenções com ela; ela era a única para aquilo e nada mais. O tempo foi passando e minha mente mudando, mas eu ainda me encontrava com ela nos melhores momentos do dia e naquele mesmo lugar.
Ah, como era bom encontrá-la na doce penumbra e ser dela a noite toda, como se não houvesse o amanhã. Mas infelizmente havia um, tudo bem. Em breve eu retornaria ao seu encontro, ao doce aconchego de sua companhia.
Mas o tempo foi passando e minha mente também, minhas malícias, como pequenas ervas daninhas, brotaram no nosso florido jardim de ternura e romance. Mas eu abusava de suas boas intenções, principalmente com outras bem em sua companhia.
Ela nunca chorava de ver aquela traição de ideais e de corações em sua presença, mas hoje eu sei o quanto ela se machucava de estar em segundo plano, de não poder ter totalmente a minha atenção.
Hoje, eu mal a vejo, apenas algumas horinhas. Mas ela ainda me ama, me quer cada dia mais e mais; mesmo assim eu não posso dar a atenção que eu gostaria.
Tudo bem, a vida é correria mesmo e certas atitudes desesperadas pela falta de carícias são tomadas. Mas ela é tão madura e tão perfeita que sabe me perdoar e deixa o amor sempre acima de qualquer suspeita, de qualquer crime.
Ela é minha cúmplice e conhece todos os meus sonhos; conhece também meus medos e me conforta toda noite, seja eu aquela velha criancinha assustada, aquele novo velho adormecido ou mesmo aquele cara cansado que esperou o dia todo para poder ver o seu brilho infinito, mesmo naquela doce penumbra.
Eu só posso dizer que, por mais que eu resista, sem ela eu sou incompleto, eu não aguento outro dia sem pelos menos algumas horinhas desabafar com ela a carga do meu dia.
Talvez ela nunca vá ler essa declaração, tampouco ver publicamente minhas desculpas por hoje sermos tão distantes, mas no fundo nossos corações, de carne ou de tábua, ela sabe que não importa o tamanho dela, ela será sempre minha king size.
Minha querida cama, eu te amo.
Ônibus (como publicado no PSVSite)
Recentemente quando vi a campanha do Doritos do agregador social – vulgo sofá – eu admirei a sacada da dupla de criação, mas juro que discordei que o sofá seja a rede social definitiva para juntar as pessoas. A verdadeira rede (e quando eu digo rede é porque estamos presos mesmo) é o ônibus. Quem negar que o ônibus é o maior agregador de pessoas é porque ou nunca andou, ou porque realmente não sabe o que é socializar.
O ônibus funciona como todas as principais redes sociais. De repente vem aquele ser que você nunca viu na vida, senta ao seu lado e começa a falar coisas e mais coisas para você sem nem ao menos perguntar se você está interessado, é tipo o Orkut. Depois, você curte quando a montoeira de gente começa a descer e libera espaço no corredor, quase como no Facebook. Agora, se você é um maníaco por Twitter, vai adorar ver aquele monte de gente seguindo-o no ponto em que vai descer.
Mas o ônibus não é apenas a maravilha das redes sociais que nos permite conhecer novas pessoas ou ganharmos retweets por aí. Dentro de cada Marcopolo, Caio, Mercedes ou Volvo esconde-se a natureza obscura de um habitat hostil e tenebroso. Começa pela passagem dele que é absurdamente cara, porque normalmente o que você caminha do ponto ao seu destino supera toda a distância percorrida por ele, isso quando você vai daqui – aí, mas tem que dar aquele rolê absurdo até terminais.
Fora isso, você ainda tem que torcer para ter um banco livre, e num ônibus, banco livre é que nem unicórnio, pode até existir, mas você nunca irá ver, e quem viu e contou é tachado pela sociedade como louco. Enfim, você pega o ônibus para ir trabalhar ou estudar às sete horas da manhã, passa a catraca e o caminho para o purgatório está bem à sua frente – sorria; zilhares de pobres almas pagando os seus pecados em pé, com aquelas expressões faciais horríveis de sofredores e que se arrependem de nunca terem sido pessoas boas quando tiveram a chance, segurando no frágil suporte de ferro, dançando sobre os buracos do asfalto Estiges, que o Caronte que está ao volante faz questão de ignorar.
E seguimos todos na caravana do tio Hades. Mulheres pecadoras são encoxadas e bulinadas e nada podem fazer.
Vaidosos sofrem com os empurrões que desmancham seu penteado de Elvis, a existência daquele aroma tradicional dos melhores queijos franceses debaixo de cada axila exposta, e para completar, os assentos reservados para gestantes e idosos que nunca estão com gestantes e idosos.
O pesadelo segue por aquele tempo, atravessando a rodovia, cambaleando para lá e para cá, gerando uma náusea desconfortante em marujos que estão sendo desvirginados pela rotina do ônibus – com o tempo, essas pessoas acabam descobrindo Darwin e se adaptam ao ambiente. Depois de alguns séculos, você não consegue mais sentir suas pernas, a temperatura corporal supera os 200 graus fahrenheit, o ar vai ficando rarefeito. Você tenta olhar para os lados, mas seu pescoço está travado você começa a delirar com as virgens do paraíso islâmico. Aí você acorda e percebe a situação ruim: de pé, apertado, encoxado, suado, sem ar.
Nada parece ser pior, mas de repente, sobe no ônibus o famoso Eu Poderia Estar Matando da Silva Paes de Linhares. Esse é aquele passageiro que soma-se às classes das beatas da frente, das fofoqueiras do meio e das crianças do fundo, aquelas pessoas que você acredita serem pagas pela prefeitura para tornar a viagem muito mais desagradável. Ele discursa ali na frente e todos olham, mas é só pra você que ele fica implorando moedas.
Quando ele vai embora, você sorri aliviado e a mulher do banco próximo onde você está se levanta para descer. A felicidade reina, os anjos tocam suas harpas ali perto e um raio de sol ilumina seu rosto. Você está prestes a sentar quando, sem saber de onde veio, uma cotovelada acerta a boca do estômago. Você retorce de dor em pé, pois não tem por onde descer. Segue o trajeto.
Aí, a linda menina passa por você para descer e, milagrosamente, ela não tem o mínimo contato com você. Logo atrás vem a tiazinha criadora de gatos e dá um apertão nas suas nádegas. São quase 40 minutos de sofrimento, até que você chega ao seu destino. Você sorri por dois segundos, mas lembra-se que ainda tem a volta e o resto da semana. Bem que a Discovery poderia gravar um especial do Sobrevivi com vítimas do transporte público ou então um À Prova de Tudo; queria ver se aquele cara que sobrevive a desertos, geleiras e selvas sobreviveria num EMTU ou outra linha suburbana.
Você que blasfema ou pratica magia, tome cuidado, pois o tribunal da inquisição moderno se aproxima e tá a R$ 3,25.
Rebloguei em homenagem à volta do PSV.
A situação é comum e cotidiana, mais vista como uma prisão dos hábitos do que uma rotina propriamente dita, como se fosse uma penitência.
Desembolsados alguns trocados, o produto é adquirido e às vezes largado de lado, ou provando-se totalmente inútil, ao contrário do que aquele pedaço de papel nos fez ter um brilho ofuscante nos olhos, esperando que realmente sejamos recompensados pelo, até então defendido pelos termos administrativos, como investimento.
Mas o comum é que muitos deles realmente sejam quase a Brastemp que se dizem, oferecendo sim um benefício, mas muito abaixo do que o investimento feito.
Mas, não tem problemas, pois usamos eles, em nossa cultura, até que o prazo de validade fale por si; esse prazo é curto e, quando menos esperamos, esses produtos aumentam sua valia, diminuem seus benefícios, mas a demanda pelos mesmos procede de maneira uniforme – pelo menos porque ainda somos convencidos que precisamos deles.
Claro que predomina a propaganda enganosa, claro que muitas vezes nos encantamos com voltas e voltas dadas em um ponto que, se analisarmos, sabemos que não levarão a nada, mas…tarde demais; quando damos conta, já estamos escravos de nosso vício consumista, às vezes desnecessário, por supervalorizarmos algumas necessidades e acreditamos que, sim, é preciso a ajuda.
Mas, fazer o que? As pessoas seguem gastando e seguem em dois padrões: ou esgotam demais o barato, o fácil, porque ele de fato quer se provar apto entre os tops do mercado, ou gastam horrores com aqueles que cobram mais pela embalagem do que pelo que realmente fazem; mas, sem problemas, quando esses produtos se esgotam, basta escolher mais um dos curriculos e colocar essas pessoas para continuarem exercendo cargos como assessores de políticos, por exemplo.
Pelo menos, é como acredito que se equivale com algumas inutilidades da nossa sentença carcereira: a rotina de consumo.
Sentei para fumar um cigarrinho de chocolate pan…
…e comecei a pensar
- Nem tudo é bullying, algumas coisas são xícaring;
- A única coisa que cresceu além do patrimônio do Palocci foi o número de citações de no twitter Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu;
- Quando alguém entra no msn com o nick “nem fale comigo”, tá na hora de você sair porque é em você que ela vai jogar as decepções;
- A opção inverno no seu chuveiro quer dizer que a temperatura da água estará na mesma temperatura do vento. A função verão, idem;
- A mulher que mais fica com inveja da menina que engravidou do Neymar é aquela que mais faz questão de falar que é mal correspondida;
- Humor negro é BASTANTE relativo;
- Todo brainstorming é pré-conceito;
- Tirou a roupa, entrou no mar, pensei “Meu Deus, tô na gravação de um pornô”;
- Ainda pensando nas sábias palavras de Charlie Brown Jr., o sexo é bom, o amor melhor, os dois então, prefeito, só não sei daonde;
- É muito mais legal falar gerúndio sem o D. Tipo, “Nóis tava tudo correno”;
- Pensei que eu era um caso perdido de minhas próprias ambiguidades, mas eu não sabia mais o que fazer.
O ministério da saúde adverte: esse post é uma merda, capaz de virar matéria na tv.









